Nesta terça-feira (20), o programa Bolsa Família completa 23 anos. Criado em 2003 durante o primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o programa se concretizou como uma das principais iniciativas em prol da redução das desigualdades e vem gerando impactos positivos em diferentes áreas, como economia, educação, saúde e mercado de trabalho.
No centro da disputa eleitoral deste ano, o Bolsa Família, apesar de necessitar de melhorias, é um programa reconhecimento internacionalmente, como pela Organização das Nações Unidas (ONU), pelo Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), pela sua capacidade de reduzir a pobreza e a fome e promover melhorias sociais e econômicas para milhões de famílias.
Nesta matéria, reunimos as principais informações sobre o programa e os diferentes impactos que ele gerou ao longo de mais de 20 anos de existência.
Como funciona o Bolsa Família
O Bolsa Família foi criado em 2003 pelo governo Lula para unificar diferentes programas de transferência de renda do governo de Fernando Henrique Cardoso, como o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação, o Auxílio Gás e o Cartão Alimentação. O objetivo de unificar os programas foi aumentar a rede de proteção contra a extrema pobreza e criar uma política nacional integrada.
Dessa forma, o Bolsa Família passou a ser acessado através do Cadastro Único (CadÚnico). Para ter acesso, famílias em situação de vulnerabilidade social devem se cadastrar no sistema e apresentar comprovantes de renda, que deve ser de até R$ 218 por mês para cada membro da família.
Para receber o benefício, as famílias devem seguir algumas obrigações, como:
Manter crianças e adolescentes na escola;
Estar em dia com a caderneta de vacinação;
Fazer o acompanhamento pré-natal (no caso de gestantes).
O Bolsa Família também prevê outros dois benefícios caso a família seja composta por crianças até 7 anos ou adolescentes até 18 anos, que são:
Benefício Primeira Infância (BPI), no valor de R$ 150,00 por criança, destinado às famílias beneficiárias que possuírem, em sua composição, crianças com idade entre 0 e 7 anos incompletos;
Benefício Variável Familiar (BVF), no valor de R$ 50,00, destinado às famílias beneficiárias que possuam, em sua composição gestantes, nutrizes ou crianças e adolescentes com idade entre 7 e 18 anos incompletos.
Para mais informações, acesse o site oficial do Bolsa Família
Impactos do Bolsa Família
O Bolsa Família tem desempenhado um papel importante no combate à pobreza e à desigualdade social no Brasil com impactos que vão além da transferência direta de renda. Diferentes estudos nacionais e internacionais sobre o programa apontam resultados em áreas como mercado de trabalho, saúde pública, economia local e prevenção de doenças, contribuindo para a melhoria das condições de vida de milhões de brasileiros. Confira.
Redução da pobreza e geração de oportunidades
Redução da pobreza e da extrema pobreza
O programa contribui para proteger dezenas de milhões de pessoas da pobreza e da extrema pobreza, garantindo uma renda mínima para famílias em situação de vulnerabilidade. Essa assistência ajuda a assegurar o acesso a alimentos e a outros recursos essenciais, contribuindo para a redução da insegurança alimentar e para a melhora dos indicadores sociais do país.
Somente entre 2023 e 2026, mais de 5 milhões de famílias (cerca de 15 milhões de pessoas) deixaram a pobreza devido ao Bolsa Família, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
Autonomia dos beneficiários
Ao contrário dos que muitos críticos ao Bolsa Família afirmam, de que o programa faz com que muitos brasileiros se acomodem e não busquem melhorias de vida, um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que 60,68% dos beneficiários que recebiam o Bolsa Família em 2014 haviam deixado o programa até 2025.
Além disso, outro levantamento feito pelo jornalista Carlos Madeiro, do UOL, nesta terça-feira (20), mostra que o Bolsa Família atende hoje 49 milhões de pessoas, número 6,3 milhões menor do que o registrado em outubro de 2022. Essa redução tem como um dos principais fatores o aumento da renda dos beneficiários.
Segundo dados oficiais, entre março de 2023 e setembro de 2026, 5,9 milhões de famílias deixaram o programa em razão do aumento de renda, seja pela conquista de empregos ou pela abertura de negócios com faturamento identificado nos registros oficiais.
Emprego e mercado de trabalho
Transição para o emprego formal
Entre os beneficiários que conseguiram emprego com carteira assinada, a taxa de saída do programa chegou a 79,4%, segundo dados da FGV. O resultado indica uma relação entre a inserção no mercado formal de trabalho e a saída do benefício.
Melhoria das condições de vida e da capacidade de trabalho
A garantia de uma renda mínima favorece o acesso à alimentação e a recursos básicos, contribuindo para melhores condições de vida. Entre os beneficiários de menor renda, um estudo internacional da National Bureau of Economic Research (Agência Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos) aponta um aumento de 4,8% no nível de emprego.
Saúde pública
Redução da mortalidade geral e das internações
Estudos publicados na revista científica The Lancet e trabalhos associados à FGV apontam diferentes efeitos positivos do programa sobre indicadores de saúde. Os dados apresentados indicam uma redução de aproximadamente 18% na mortalidade geral dos beneficiários ao longo de um período de 20 anos.
Além disso, o estudo também aponta que o Bolsa Família está ligado à prevenção de mais de 700 mil mortes e de 8,2 milhões de hospitalizações entre 2000 e 2019.
Queda da mortalidade infantil
Segundo o estudo publicado na revista The Lancet Public Health, a mortalidade entre crianças menores de cinco anos apresentou redução de 33% entre os beneficiários do Bolsa Família.
Redução de internações por desnutrição e dos custos hospitalares
Os dados apresentados também indicam uma queda de 38% nas internações por subnutrição e uma redução de 14% a 15% nos custos hospitalares associados. Ao mesmo tempo, foi observado aumento no consumo de medicamentos pelas famílias assistidas.
Prevenção de doenças
HIV/Aids
Um estudo da Fiocruz com o Instituto de Saúde Coletiva da UFBA aponta reduções de 41% a 55% na incidência de HIV/Aids entre beneficiários do Bolsa Família, além de quedas de 39% a 54% na mortalidade relacionada à doença.
Tuberculose
A incidência de tuberculose apresentou redução de 41%, chegando a 58% entre a população preta e parda, conforme um estudo publicado na revista Nature Medicine. Também foram registradas reduções de 31% a 69% na mortalidade relacionada à doença.
Desenvolvimento local e nacional
Estímulo ao comércio local
O Bolsa Família também gera impactos econômicos para além do ciclo da família beneficiária. Os recursos transferidos pelo programa são utilizados principalmente para atender às necessidades cotidianas das famílias, como a compra de alimentos, medicamentos e produtos básicos, o que gera estímulo ao comércio local. De acordo com estimativas do IPEA elaboradas a partir de Matrizes de Contabilidade Social e do Fluxo Circular da Renda, cada R$ 1,00 transferido ao programa gera R$ 2,40 em consumo final das famílias.
Retorno econômico nacional
O mesmo estudo do IPEA aponta um impacto econômico nacional ao mostrar que cada R$ 1,0 investido no Bolsa Família gera um impacto de aproximadamente R$ 1,78 no Produto Interno Bruto (PIB).
Reconhecimento internacional
O Bolsa Família é reconhecido por instituições internacionais desde o seu início. Em 2006, o Banco Mundial fez o primeiro elogio ao programa e, desde então, reforça a importância do Bolsa Família para a redução da pobreza e o desenvolvimento econômico do Brasil. Em 2014, o então diretor de Proteção Social do Banco Mundial, Arup Banerji, afirmou que o programa “mostra que é possível estabelecer metas ambiciosas, colocando o foco das ações nas famílias”.
Já o então vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina, Hasan Tuluy, elogiou a retirada de 36 milhões de pessoas da extrema pobreza até aquele ano, e afirmou: “Não apenas apoiamos a execução do programa no país desde 2004, como também aprendemos muito. “Temos tido a chance de falar sobre o Bolsa Família a outros países, para que se inspirem na experiência brasileira antes de implementar programas sociais”.
Em 2015, o Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou os impactos positivos do Bolsa Família no Brasil ao ressaltar que o programa incentiva a permanência escolar, reduz a mortalidade infantil e fortalece a independência de mulheres.
“Os participantes têm maiores taxas de frequência e de progressão escolar, assim como menores taxas de repetência. No que diz respeito à saúde, o baixo peso ao nascer, a mortalidade infantil, a subnutrição e a diarreia têm menor incidência entre os participantes, enquanto as taxas de amamentação e de vacinação aumentaram. Além disso, ao focar em mulheres como receptoras da transferência, o Bolsa Família fortaleceu a independência financeira delas”, destaca o relatório publicado naquele ano.
Já em 2026, o FMI publicou um outro estudo para rebater as acusações de que o Bolsa Família desencorajaria mulheres a entrarem no mercado de trabalho.
O Bolsa Família também é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) pela melhoria de indicadores de desenvolvimento humano. Em 2011, a organização afirmou que o programa “é exemplo de erradicação da pobreza”. Ao longo dos últimos anos, a entidade fez novos elogios ao programa, principalmente quando o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, sob o governo de Dilma Rousseff (PT) e novamente em 2025 no terceiro mandato do presidente Lula (PT).
No ano passado, ao comentar sobre a saída do Brasil do mapa, o economista-chefe da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), Máximo Torero, atribuiu o combate à fome especialmente a “programas de transferência de renda”.
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