Uma ampla e complexa apuração conduzida pela Polícia Federal lançou luz sobre uma engrenagem financeira e política voltada para a dissimulação de capitais por meio de plataformas de apostas esportivas eletrônicas, as popularmente conhecidas “bets”. O inquérito, que tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, coloca no centro das suspeitas quatro nomes de grande projeção pública: o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), o influente advogado Willer Tomaz, o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o ex-deputado federal e ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem (PL-RJ).
A investigação desdobra-se a partir de cruzamentos de dados financeiros, mensagens extraídas de dispositivos móveis e análises de contratos públicos de concessão. Os investigadores apontam para uma rede articulada na qual conexões de amizade, ingerência política e facilitação regulatória teriam convergido para viabilizar operações ilícitas no promissor mercado de jogos digitais.
Abaixo, detalhamos ponto a ponto como a Polícia Federal mapeou a estrutura desse suposto esquema, o papel atribuído a cada um dos envolvidos, as ramificações em tribunais superiores e o que dizem as defesas dos citados.
A origem da investigação e o mercado das “bets”
O ponto de partida para a descoberta do suposto esquema não ocorreu na capital federal ou no Rio de Janeiro, mas em uma apuração paralela desencadeada pela PF no Rio Grande do Sul. Naquela ocasião, agentes federais debruçavam-se sobre crimes de evasão de divisas e lavagem de capitais praticados por meio de empresas de apostas esportivas operadas pela internet.
Ao aprofundarem as buscas e realizarem a quebra de sigilo telemático e bancário de alvos primários, os investigadores encontraram fortes indícios de que o advogado Willer Tomaz atuava como o verdadeiro controlador oculto da empresa Rede Loto. A referida companhia alcançou papel de destaque ao se tornar a pioneira no credenciamento junto à Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para atuar no mercado formal de apostas virtuais em solo fluminense, autorização concedida em maio de 2023.
Com o acesso autorizado pela Justiça aos e-mails, conversas de aplicativo e arquivos armazenados no aparelho celular de Tomaz, os policiais federais depararam-se com uma vasta rede de contatos que conectava a operação comercial das apostas a figuras centrais do cenário político nacional e do governo do Estado do Rio de Janeiro. A presença de menções e tratativas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro fez com que a competência do caso fosse deslocada para o Supremo Tribunal Federal, dada a prerrogativa de foro do parlamentar.
Mecanismo no Rio de Janeiro: Loterj, Riopag e Cláudio Castro
No tocante ao ex-governador Cláudio Castro, os investigadores debruçaram-se sobre a lisura dos processos administrativos promovidos durante a sua gestão à frente do Poder Executivo fluminense. Segundo o relatório policial, a ascensão da Rede Loto e a contratação da empresa PIXS/Riopag, responsável pelo processamento dos fluxos financeiros e pagamentos de apostas licenciadas pela Loterj, teriam sido facilitadas pela atuação de indicados políticos e arranjos contratuais.
A Polícia Federal aponta que a Riopag possui conexões diretas com a esfera de influência de Willer Tomaz. À época da licitação do sistema de pagamentos, a Loterj era presidida por Hazenclever Lopes. O histórico levantado pela investigação demonstrou que Hazenclever já havia atuado formalmente em processos judiciais em parceria com o escritório de advocacia de Tomaz.
Documentos e dados telemáticos colhidos pela PF indicam que a relação entre o advogado e o ex-presidente da autarquia extrapolava os limites institucionais, envolvendo indícios de:
Custeio de viagens e despesas pessoais: Provas materiais sugerem que gastos de deslocamento e estadias do então presidente da Loterj teriam sido arcados por estruturas ligadas a Tomaz;
Vínculos contratuais e societários: Identificação de fluxos econômicos que conectam empresas favorecidas por editais estaduais ao entorno operacional do advogado;
Acesso privilegiado: Facilidade na tramitação interna de demandas de interesse das empresas de apostas geridas sumariamente pelo grupo.
Na avaliação dos investigadores, essa engenharia regulatória criava um ambiente propício para que recursos de origem duvidosa fossem injetados nas plataformas de apostas sob o manto de prêmios ou movimentações legítimas, viabilizando o ciclo de lavagem de dinheiro.
Repasses a Ramagem e as ramificações políticas
A engrenagem descrita pela Polícia Federal alcança também o ex-deputado federal Alexandre Ramagem. No âmbito da mesma apuração, os agentes identificaram uma movimentação financeira no valor de R$ 270 mil, cujo beneficiário final teria sido o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
De acordo com o rastreamento bancário e as informações veiculadas, a quantia não foi transferida diretamente da conta do advogado para o político. O montante foi canalizado por meio de uma empresa intermediária que prestava serviços de comunicação e assessoria. A tese investigativa aponta que o escritório de Willer Tomaz contratou essa prestadora e solicitou que ela atuasse, durante três meses, na pré-campanha de Ramagem à Prefeitura do Rio de Janeiro no ano de 2024. A PF apura se essa triangulação financeira configurou repasse disfarçado de recursos com o intuito de ocultar a origem dos valores empregados em despesas eleitorais.
Vazamento de segredos judiciais no Superior Tribunal de Justiça
Para além das transações no mercado de apostas, a investigação revelou um desdobramento crítico envolvendo o Superior Tribunal Justiça (STJ). Ao analisar o acervo digital apreendido com Willer Tomaz, a Polícia Federal identificou fortes indícios de que o escritório do advogado contava com um canal clandestino de acesso a decisões, minutas de despachos e pareceres do Ministério Público Federal (MPF) antes que estes fossem formal e publicamente juntados aos autos.
O acesso antecipado a tais documentos confidenciais permitia que a defesa dos clientes do escritório readequasse estratégias processuais, antecipasse recursos ou influenciasse o curso das ações. A PF deflagrou operação de busca e apreensão contra Humberto Pradera, ex-secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do STJ, apontado como o elo interno responsável por fornecer as informações privilegiadas.
Entre os elementos de prova coletados pelos investigadores estão:
Registros de telas: Fotografias tiradas da tela de computadores internos do STJ contendo minutas de julgamentos pendentes;
Troca de mensagens: Diálogos detalhando o andamento de procedimentos sigilosos e relatórios de demandas internas da Corte;
Exoneração preventiva: A demissão de Pradera do cargo que ocupava, ocorrida após o ministro Luis Felipe Salomão instaurar procedimento apuratório interno no tribunal.
O que dizem os investigados e citados
Diante das graves suspeitas levantadas pela Polícia Federal, os citados no inquérito manifestaram-se categoricamente repudiando os apontamentos e negando a prática de qualquer ilícito.
Flávio Bolsonaro (Senador e candidato): Em nota oficial, o parlamentar afirmou que qualquer alegação sobre sua participação no esquema é inverídica e fundamentada em “fake news”. Flávio sustentou que sua relação com Willer Tomaz restringe-se estritamente ao âmbito da amizade pessoal, classificando como meras ilações as tentativas de vincular essa afinidade a condutas criminosas. Afirmou ainda que jamais manteve conta bancária ou acesso como usuário master ligado às empresas do advogado ou de seus sócios.
Cláudio Castro (Ex-governador do Rio de Janeiro): O ex-gestor ressaltou que conhece Willer Tomaz desde 2020 e que a amizade fez com que o advogado atuasse em sua defesa jurídica de forma gratuita em ocasiões pontuais. Castro assegurou que não possuía conhecimento de qualquer ligação entre o defensor e as empresas PIXS/Riopag ou Rede Loto quando do credenciamento perante a Loterj. Declarou também desconhecer pagamentos de viagens a Hazenclever Lopes e reiterou que o ex-presidente da autarquia foi uma indicação política do partido (PL), possuindo a Loterj autonomia de gestão, sem sua interferência em editais ou licitações.
Willer Tomaz (Advogado): A defesa do advogado criticou a divulgação seletiva de trechos de relatórios sigilosos em período eleitoral. Afirmou não ter tido acesso integral aos autos e negou qualquer tipo de acesso irregular ou não autorizado a sistemas do STJ ou do MPF. Sobre o conhecimento prévio de atas e relatórios, alegou que o acompanhamento do fluxo processual e a assimilação de argumentos em pareceres são dinâmicas regulares da advocacia previstas no próprio sistema das Cortes, repudiando o que chamou de “criminalização do exercício profissional”. Destacou ainda que a própria PF não apontou ordem direta para desclassificar concorrentes na licitação da Loterj.
Alexandre Ramagem (Ex-deputado federal): Até a publicação da reportagem, o ex-deputado não se manifestou publicamente sobre os repasses e apontamentos feitos pelos investigadores.
O inquérito prossegue sob a supervisão do Supremo Tribunal Federal, aguardando a conclusão de perícias nos materiais apreendidos e eventuais deliberações do Ministério Público Federal sobre o oferecimento de denúncia formal contra os investigados.
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