A campanha do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) contratou por R$ 60 mil uma empresa de publicidade cujo proprietário foi sócio de dois empresários que dividem negócios com o próprio parlamentar. A Odisseu Comunicações, responsável pelo serviço, pertence a João Markus Rodrigues de Souza, que manteve uma sociedade com Arthur Torres de Assis e Ivens Henrique Grahl Ribeiro, ambos sócios de Nikolas na Destra Cursos.
A ligação foi identificada pela Fórum a partir do cruzamento da prestação de contas eleitoral com os registros de empresas na Receita Federal. O contrato foi declarado em 1º de setembro de 2026, para a produção de “textos, desenhos e materiais de propaganda e publicidade”, conforme a nota fiscal nº 18.
A Odisseu, criada em janeiro de 2025, tem capital social de apenas R$ 20 mil. Apesar disso, aparece entre os cinco maiores fornecedores da campanha do deputado reeleito por Minas Gerais.
Campanha de Nikolas declarou R$ 60 mil à Odisseu Comunicações por serviços de propaganda e publicidade. Reprodução
O elo entre a empresa contratada e os sócios de Nikolas
O caminho que liga a Odisseu aos negócios particulares de Nikolas passa por outra empresa, a Consultoria Frame Ltda., de Itajaí (SC).
Fundada em 11 de julho de 2025, a Frame tinha três sócios-administradores: João Markus Rodrigues de Souza, dono da Odisseu; Arthur Torres de Assis; e Ivens Henrique Grahl Ribeiro.
Arthur e Ivens, por sua vez, são sócios de Nikolas na Destra Cursos Ltda., empresa de Goiânia (GO) que comercializa cursos e produtos ligados à atuação política do deputado. A Destra, registrada sob o CNPJ 47.916.107/0001-48, tem capital social de R$ 300 mil.
Os três continuam aparecendo no quadro societário da Destra. Arthur e Ivens ingressaram em setembro de 2022, enquanto a participação de Nikolas foi formalizada em fevereiro de 2023.
Portanto, o proprietário da empresa contratada pela campanha do deputado já havia dividido uma sociedade com os dois empresários que permanecem ao lado dele na Destra.
A Frame, entretanto, não chegou às eleições de 2026. A empresa foi baixada em 14 de julho, com o motivo cadastral de “extinção por encerramento de liquidação voluntária”.
Em setembro, menos de dois meses depois do encerramento da sociedade, a Odisseu, que permaneceu ativa sob o comando de João Markus, apareceu na prestação de contas da campanha de Nikolas com o contrato de R$ 60 mil.
Consultoria Frame, que reunia o dono da Odisseu e os dois sócios de Nikolas, foi encerrada em julho de 2026. Reprodução
Empresa já faturou R$ 210 mil com campanhas do PL
A campanha de Nikolas não foi a única do PL em Minas Gerais a contratar os serviços da Odisseu em 2026.
Segundo os registros eleitorais, a empresa também foi contratada por Cristiano Capitólio, candidato a deputado federal pelo partido, por R$ 150 mil para a produção de programas de rádio, televisão ou vídeo.
Somadas, as duas campanhas declararam R$ 210 mil em despesas contratadas com a Odisseu durante as eleições de 2026. O montante é mais de dez vezes o capital social da empresa, embora essa diferença, isoladamente, não represente uma irregularidade.
Os dados são referentes às despesas eleitorais declaradas e não significam, necessariamente, que a totalidade dos valores já tenha sido efetivamente paga.
Destra já foi alvo de denúncia que levou Nikolas a prestar explicações à PGR
Os negócios de Nikolas Ferreira com a Destra já haviam chamado a atenção da Procuradoria-Geral da República (PGR) em 2023, após uma investigação do jornalista Diego Feijó de Abreu.
A apuração revelou que a empresa recebeu cerca de R$ 67 mil da campanha de Bruno Engler nas eleições de 2022. Dois meses depois, em novembro daquele ano, Nikolas recebeu 15% das cotas da sociedade, avaliadas em R$ 45 mil. A entrada do parlamentar na empresa, entretanto, só foi registrada oficialmente em fevereiro de 2023.
A denúncia, protocolada em 17 de abril de 2023, questionava a relação entre o dinheiro eleitoral recebido pela empresa e a posterior entrada de Nikolas no negócio. O caso levou a PGR a conceder 15 dias para que o deputado apresentasse explicações sobre a sociedade.
O procedimento passou por diferentes instâncias do Ministério Público até chegar à Promotoria Eleitoral da 35ª Zona de Belo Horizonte, que determinou seu arquivamento em maio de 2024.
Na decisão, o promotor Ivan Eleutério Campos acolheu o argumento de que a participação de Nikolas só havia sido formalizada na Junta Comercial em fevereiro de 2023, mesmo com documentos de assinatura sendo feitas em 2022, entendendo que o deputado não poderia ser responsabilizado pelas atividades da empresa durante a campanha de 2022. Em relação a Engler, considerou suficiente para afastar a irregularidade apontada o fato de a despesa constar da prestação de contas eleitoral.
Agora, a nova apuração da Fórum identifica outro caminho entre uma despesa de campanha e os negócios particulares do parlamentar: uma empresa contratada por R$ 60 mil cujo proprietário manteve sociedade com os mesmos empresários que dividem a Destra com Nikolas.
Campanha de Nikolas contrata por R$ 60 mil empresa ligada a seus sócios em plataforma de cursos
💬 Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar!