Conheça os 12 maiores perfis que usam a religião para mentir nas redes

Conheça os 12 maiores perfis que usam a religião para mentir nas redes
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A religião se tornou um dos terrenos de disputa pela informação nas redes sociais brasileiras. Em nome da fé, conteúdos falsos, enganosos ou descontextualizados podem alcançar milhões de pessoas, alimentando o pânico moral, a percepção de perseguição religiosa e a associação entre determinadas posições políticas e a defesa do cristianismo.
Para investigar esse fenômeno, o Coletivo Bereia, em parceria com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/Ufes), desenvolveu o estudo Mapa da desinformação em ambientes digitais religiosos. O levantamento identificou 141 perfis no Instagram que produzem ou disseminam conteúdos desinformativos direcionados especialmente ao público cristão.
A lista dos perfis com maior audiência reúne políticos e lideranças religiosas com milhões de seguidores. Nikolas Ferreira aparece na primeira posição, com 22 milhões, seguido por Flávio Bolsonaro, com 12 milhões, e Eduardo Bolsonaro, com 7,4 milhões. Entre os religiosos, destacam-se os pastores André Valadão, com 6,6 milhões, e Silas Malafaia, com 4,5 milhões.
Uma ressalva importante: os números apresentados representam a audiência dos perfis identificados no levantamento, e não uma classificação individual da quantidade de desinformação publicada por cada um. Estar no mapa não significa que todo o conteúdo de uma conta seja falso ou enganoso, mas que essas contas utilizam-se da linguagem, temas e práticas religiosas para também disseminarem mentiras nas redes.
Os 12 perfis com maior audiência
A relação abaixo reúne os nomes e os números de seguidores apresentados no levantamento disponibilizado. A ordem segue a audiência indicada na tabela.

O que os números revelam — e o que não revelam
A soma dos seguidores informados para esses 12 perfis chega a 83,1 milhões. Esse total, entretanto, não corresponde necessariamente a 83,1 milhões de pessoas diferentes: um mesmo usuário pode acompanhar várias das contas relacionadas.
O Mapa mais amplo identificou 141 perfis e estima que eles reúnam aproximadamente 140 milhões de seguidores brutos. Após a correção pela sobreposição de audiências, o alcance potencial fica entre 60 milhões e 70 milhões de pessoas, equivalente a cerca de 40% da população brasileira conectada.
É fundamental distinguir alcance de responsabilidade individual. O número de seguidores indica a capacidade potencial de distribuição de mensagens, mas não demonstra, por si só, a frequência com que uma conta publica conteúdos desinformativos nem a proporção de publicações problemáticas em seu histórico.
A pesquisa tampouco afirma que todos os conteúdos publicados pelos perfis identificados sejam falsos. Seu objetivo é localizar fontes de desinformação voltadas especialmente ao público cristão e compreender como essas fontes se conectam a redes religiosas, políticas e midiáticas.
Como a religião é mobilizada na desinformação
Entre os padrões observados pelos pesquisadores está o uso recorrente da ideia de que a liberdade religiosa estaria ameaçada. A estratégia pode transformar acontecimentos isolados em supostas perseguições generalizadas ou apresentar determinadas candidaturas e posições políticas como ameaças à sobrevivência das igrejas.
O levantamento também investigou conteúdos relacionados a pânico moral, gênero e família, instrumentalização eleitoral da fé, sionismo cristão, geopolítica bíblica, antivacinação e narrativas apocalípticas.
Outro mecanismo identificado é a utilização de passagens bíblicas fora de contexto para justificar posições políticas contemporâneas. A pesquisadora Lidia Neves, doutora em Linguística e colaboradora do projeto, cita como exemplo a interpretação eleitoral de Eclesiastes 10.2, versículo sobre o coração do sábio e o do insensato, usado para associar a direita à sabedoria e a esquerda à insensatez.
Bereia: o pioneirismo na checagem de informações religiosas
O levantamento é fruto do trabalho do Coletivo Bereia, iniciativa jornalística independente e sem fins lucrativos criada em 2019 para enfrentar a desinformação em ambientes digitais religiosos. O projeto surgiu a partir de uma pesquisa do Grupo de Estudos sobre Desigualdades na Educação e na Saúde (Gedes), do Instituto NUTES da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e se tornou pioneiro no Brasil ao dedicar sua atividade jornalística de checagem especificamente ao universo religioso.
O nome Bereia remete à cidade mencionada no livro bíblico de Atos, cujos habitantes foram elogiados por examinarem as Escrituras para verificar aquilo que ouviam. A referência sintetiza a proposta do coletivo: a informação não deve ser aceita como verdadeira apenas porque foi divulgada por uma liderança religiosa, por um político popular ou por um veículo com grande audiência.
A metodologia reuniu análise qualitativa, mineração e cruzamento de bases de dados, rastreamento com inteligência artificial e etnografia algorítmica. A pesquisa partiu de 96 perfis e materiais sistematizados pelo Bereia, trabalhou com cerca de 10 mil publicações relacionadas à religião e a teorias da conspiração e utilizou palavras-chave para filtrar aproximadamente 20 mil publicações no Instagram.
O resultado é mais do que uma relação de contas populares: trata-se de uma investigação sobre as conexões entre produtores de conteúdo, lideranças religiosas, políticos e mídias digitais, além das estratégias que contribuem para ampliar a circulação de determinadas narrativas.
Verificar também é um compromisso com a fé
O avanço da desinformação em ambientes religiosos coloca um desafio para a sociedade brasileira. Quando uma mensagem política é apresentada como vontade divina, quando um adversário é descrito como inimigo de Deus ou quando uma informação falsa é compartilhada como alerta espiritual, a confiança religiosa pode ser instrumentalizada para influenciar a opinião pública.
Enfrentar esse problema exige jornalismo independente, verificação rigorosa e responsabilidade na comunicação. Também exige evitar generalizações: ser evangélico, conservador ou progressista não torna ninguém automaticamente produtor de desinformação.
Em um ambiente digital marcado pela disputa política e pela circulação acelerada de informações, verificar antes de compartilhar não é um gesto contra a religião. É uma forma de proteger a liberdade de consciência, a qualidade do debate público e o direito dos fiéis de não serem enganados em nome da própria fé.

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