Segundo maior doador do PL, de Flávio Bolsonaro, preside empresa investigada por elo do caso Master com privatização da Sabesp

Segundo maior doador do PL, de Flávio Bolsonaro, preside empresa investigada por elo do caso Master com privatização da Sabesp
- Tarcísio privatizando a Sabesp, Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro com o governador paulista (Gov SP / Reprodução...

Marcus Vinícius Almeida Silveira, presidente global da Ambipar, tornou-se o segundo maior doador nacional do Partido Liberal em 2025 ao transferir R$ 250 mil à legenda em 10 de junho, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A multinacional de gestão de resíduos é alvo da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, sob suspeita de envolvimento em fraudes financeiras do Banco Master, instituição liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro do ano passado e cujo controlador, Daniel Vorcaro, está preso desde março. As informações são de Alice Maciel e Guilherme Pavarin, no ICL Notícias.
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O caso se insere numa teia de relações que conecta a Ambipar ao escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro e a processos de privatização conduzidos pelo governador Tarcísio de Freitas em São Paulo.
Em 24 de setembro, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a PF investigue possíveis irregularidades na atuação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) relacionadas ao caso Banco Master.
A decisão ocorreu após o Fórum Investiga, o núcleo de jornalismo investigativo da Fórum, revelar a atuação de dirigentes da CVM em operações envolvendo fundos ligados ao grupo de Daniel Vorcaro e ativos relacionados às privatizações realizadas em São Paulo.
Conforme a Fórum revelou, em julho de 2025, Lobo, então presidente interino da CVM, utilizou o chamado voto de qualidade para desempatar uma decisão envolvendo a Ambipar, empresa que naquele momento tinha entre seus acionistas e financiadores personagens ligados ao ecossistema Master.
O ministro determinou que a PF apure, entre outros pontos, quem participou da análise e do arquivamento da denúncia apresentada em 2022 contra o Grupo Master, quais áreas da CVM tiveram acesso às informações, quais providências foram tomadas e sob qual regime de sigilo o procedimento tramitou.
Um dos pontos que deverão ganhar especial atenção é justamente a sequência de decisões envolvendo Master, Ambipar, EMAE, fundos de investimento e a atuação de Otto Lobo, cuja permanência no comando da CVM, segundo mensagens apreendidas pela PF, era de interesse de Daniel Vorcaro.
A doação e a investigação
Em 10 de junho de 2025, Marcus Vinícius Almeida Silveira assinou uma transferência de R$ 250 mil ao Partido Liberal, tornando-se o segundo maior doador nacional da legenda naquele ano, conforme registros do TSE. Silveira não é um nome periférico na Ambipar: ocupa a presidência global institucional da companhia desde setembro de 2023 e aparece identificado como diretor institucional do grupo em relatório publicado pelo B20 Brasil em setembro de 2024. Ou seja, estava no alto escalão da empresa durante todo o período em que as operações da Ambipar com o Banco Master estavam em curso.
A Ambipar é alvo da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, que investiga suspeitas de participação da companhia nas fraudes financeiras do Master. O banco, controlado por Daniel Vorcaro, foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro do ano passado; Vorcaro está preso desde março.
A investigação foi determinada pelo ministro Flávio Dino e envolve o elo entre o banqueiro, a Ambipar e os processos de privatização da Sabesp e da Emae.
As conexões com Flávio Bolsonaro e o Banco Master
O fundador da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior, foi citado pela área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como integrante de uma “ação orquestrada” com o empresário Nelson Tanure e o Banco Master para elevar artificialmente o preço das ações da Ambipar.
A apuração da CVM identificou uma “relação comercial estreita” entre Borlenghi, Tanure, a Trustee DTVM e o banco de Vorcaro. Nos autos, a diretora Marina Copola afirmou que os envolvidos “obviamente se mostram bastante confortáveis em fazerem negócios apoiando-se mutuamente”.
Conversas extraídas do celular de Vorcaro aprofundam o quadro. Em agosto de 2024, Maurício Quadrado, ex-sócio do banqueiro, afirmou ter acertado com Tércio Borlenghi a divisão de um ganho potencial de R$ 1 bilhão em operação com ações da Ambipar: R$ 550 milhões ficariam com Borlenghi, R$ 285 milhões com Vorcaro e R$ 165 milhões com Quadrado.
Essas transações ajudaram a elevar o patrimônio líquido do Master de R$ 2,4 bilhões, em 2023, para R$ 4,7 bilhões em 2024. A rede de relações em torno da Ambipar também alcança Rogério Lourenço Novo, integrante do conselho fiscal da companhia desde abril de 2026.
O contador é sócio da Contábil Corrêa, empresa que pagou R$ 500 mil ao escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Em julho de 2025, Novo assumiu a administração da Copenhagen Assessoria e Consultoria, empresa que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master.
Em abril de 2025, o escritório do senador havia emitido duas notas de R$ 500 mil para a Copenhagen, canceladas no mesmo dia ou dois dias depois, além de uma terceira nota de R$ 500 mil para a Contábil Corrêa, sem registro de cancelamento. Flávio Bolsonaro alegou que as notas corresponderiam a serviços em uma relação “completamente legal e privada”, sem detalhar a natureza dos serviços prestados.
O elo com as privatizações em São Paulo
O Ministério Público de São Paulo pediu ao governo Tarcísio de Freitas informações sobre a Ambipar em ação relacionada à privatização da Sabesp. Rogério Lourenço Novo, conselheiro da Ambipar e único dono das empresas que receberam as notas do escritório de Flávio Bolsonaro, é apontado como elo em um suposto esquema ligado a Daniel Vorcaro nos processos de privatização da Sabesp e da Emae, conduzidos pelo governo estadual entre abril e julho de 2024.
A Sabesp, após a publicação de reportagens sobre o tema, enviou nota contestando as informações e acusações apresentadas.
A Copenhagen concentra elementos que chamaram a atenção dos investigadores. Criada em 1º de novembro de 2024 com capital social de apenas R$ 40 e funcionando no mesmo endereço da Contábil Corrêa, em São Caetano do Sul, a empresa recebeu aproximadamente R$ 58 milhões do Banco Master, valor que a coloca entre as dez empresas que mais receberam recursos da instituição.
A Copenhagen também aparece relacionada ao Fundo Estônia, administrado pela Trustee DTVM, gestora apontada nas investigações como custodiante de ativos ligados a Vorcaro e supostamente controlado por Tércio Borlenghi Júnior, investigado por manipulação de mercado.
O vínculo entre Rogério Novo e a família Borlenghi remonta a 2009, quando o contador abriu uma transportadora em sociedade com Tércio Patini Borlenghi, filho do fundador da Ambipar.
A investigação
A teia descrita pelas investigações reúne, num mesmo conjunto de relações, uma multinacional sob investigação federal, um banqueiro preso, um senador cujo escritório emitiu notas milionárias para empresas ligadas ao caso, e processos de privatização conduzidos por um governador aliado. Cada um desses elementos, isolado, poderia ser tratado como coincidência. Reunidos, formam um padrão de interconexões que o MP-SP e a Polícia Federal estão examinando com atenção crescente.
A doação de Silveira ao PL ocorre num momento em que a Ambipar enfrenta investigação federal por fraudes financeiras, o que torna inevitável a pergunta sobre o contexto e o propósito desses recursos destinados ao partido. A atuação de Rogério Lourenço Novo em múltiplas frentes simultâneas, como conselheiro da Ambipar, administrador de empresa que recebeu quase R$ 58 milhões do Master e dono de firma que pagou o escritório de Flávio Bolsonaro, indica uma centralidade nessa articulação que ainda aguarda explicação pública.
Os desdobramentos da Operação Compliance Zero e das ações do MP-SP sobre as privatizações da Sabesp e da Emae serão determinantes para esclarecer a extensão dessas relações e avaliar sua legalidade.

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