A privatização do Sistema Único de Saúde (SUS), seja pela venda de serviços ou pela transferência da gestão para Organizações Sociais (OSs), é apontada por especialistas e conselhos de saúde como uma ameaça direta aos princípios constitucionais de universalidade, integralidade e equidade. Em escutas públicas e notas técnicas, trabalhadores e usuários relatam que o modelo privatizante precariza o atendimento e não resolve os problemas estruturais do sistema.
Uma escuta pública realizada pelo Ministério Público Federal no Pará, em outubro de 2025, revelou que a privatização da saúde tem sido usada como justificativa para o sucateamento deliberado de unidades públicas. Servidores relataram falta crônica de insumos básicos, como álcool, lençóis e curativos, além de escalas descobertas por falta de concursos. Em unidades geridas por OSs, foram registrados casos de alimentos estragados entregues a pacientes e demissões sem pagamento de direitos (MPF).
O Conselho Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul (CES/RS) alerta que a lógica privada prioriza a redução de custos e a maximização de resultados financeiros, o que leva à precarização do atendimento e à diminuição do tempo de consulta. A terceirização também fragiliza o vínculo entre profissionais e comunidade, elemento central da Atenção Básica, resultando em perda de continuidade do cuidado e sobrecarga das emergências (CES/RS).
Outro efeito apontado é a redução da transparência e do controle social. A gestão privada dificulta o acesso a informações e o acompanhamento dos gastos públicos, enfraquecendo a atuação dos conselhos de saúde e a fiscalização pela comunidade. Em Porto Alegre, a decisão unilateral de entidades privadas de encerrar contratos de terceirização da Atenção Básica, em janeiro de 2026, expôs a vulnerabilidade do modelo: serviços essenciais ficaram sob risco de descontinuidade por decisão empresarial (Prefeitura de Porto Alegre).
Especialistas em economia da saúde apontam um paradoxo histórico: o SUS nasceu em plena virada neoliberal, e o financiamento sempre foi tensionado pela presença crescente do capital privado. Dados mostram que o Brasil é o único país que se diz universal e tem mais gasto privado do que público em saúde. Enquanto o setor privado registrou lucro líquido superior a R$ 11 bilhões em 2024, a rede pública convive com subfinanciamento crônico (ANS).
Em Goiânia, uma plenária contra a privatização destacou que o sucateamento de unidades e a falta de investimentos são usados como justificativa para transferir a gestão ao setor privado, sem que isso garanta melhoria no acesso ou na qualidade. Para os participantes, a defesa do SUS exige ampliação do financiamento público e valorização dos trabalhadores, não a entrega da gestão ao mercado (Prefeitura de Goiânia).
O que acontece se privatizar o SUS?
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