Flávio Bolsonaro pediu a Richarlison nota para negar envolvimento dele em disputa por ilha

Flávio Bolsonaro pediu a Richarlison nota para negar envolvimento dele em disputa por ilha
- Richarlison e Flávio Bolsonaro. Foto: PEDRO MARTINS / AGIF / AGIF VIA AFP e Edilson Rodrigues/Agência Senado

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, pediu ao atacante Richarlison que divulgasse uma nota pública afirmando que ele não tinha envolvimento na disputa judicial por uma casa em uma ilha de Angra dos Reis (RJ). Em conversas por mensagens realizadas em julho de 2026, o parlamentar também enviou ao jogador imagens de um acordo privado relacionado ao imóvel, objeto de uma disputa entre uma empresa ligada ao atleta e uma companhia do advogado Willer Tomaz, amigo do senador.
As mensagens foram obtidas pelo UOL. O documento apresentado por Flávio teria sido firmado entre uma empresa de Tomaz e Renato Velasco, ex-empresário de Richarlison. O acordo teria encerrado uma disputa judicial sobre a posse da propriedade.
No fim de 2025, uma empresa ligada a Richarlison e Velasco renunciou à ação que movia contra a companhia do advogado para questionar a posse do imóvel. O jogador, porém, afirmou ao UOL que não autorizou a realização do acordo.
A troca de mensagens ocorreu depois de Richarlison manifestar preocupação com a possibilidade de o caso ser explorado politicamente durante o período eleitoral. O atacante afirmou que queria recuperar o dinheiro investido na propriedade e ameaçou tornar pública sua versão dos acontecimentos.
Flávio enviou contrato e pediu declaração pública
Em abril de 2026, Richarlison escreveu a Flávio pelo Instagram sobre a disputa envolvendo a casa. “Ano de eleição e a galera vai aproveitar. Só quero meu dinheiro de volta. Vcs [vocês] se viram com a ilha pra lá. Vai chegar um momento em que eu vou ter que me pronunciar e vou falar a verdade”.
Flávio respondeu em julho, conforme mensagens cujo conteúdo havia sido parcialmente divulgado pelo Valor Econômico. O senador afirmou que seus advogados haviam consultado o processo e identificado um acordo envolvendo a empresa Sport 80, ligada ao jogador, e Renato Velasco.
O parlamentar disse que “os advogados consultaram o processo e viram que foi feito um acordo com a sua empresa Sport 80, com Renato Velasco assinando”. Em seguida, enviou imagens do contrato a Richarlison.
O atacante questionou se seu ex-empresário havia recebido algum valor e ressaltou que ele e outro proprietário não tinham assinado documentos relacionados ao acerto.
“E foi o q [que] eu te falei. Tá chegando eleição a galera vai querer aproveitar. Só estou querendo minha grana q [que] não é pouca”, escreveu o jogador. Segundo Richarlison, os gastos com a propriedade chegaram a cerca de R$ 10 milhões.
Flávio respondeu que “os pagamentos foram feitos nessas contas” e compartilhou uma imagem com dados bancários de três contas atribuídas a Velasco. Na sequência, alegou que o caso estava sendo utilizado contra ele.
“Estão usando o assunto contra mim, que não tenho nada a ver com isso”, continuou o senador.
O parlamentar voltou a pedir que Richarlison se manifestasse publicamente para afastar seu nome da controvérsia.
“Gostaria de te pedir que soltasse uma nota dizendo que eu não tenho nada a ver com o assunto”, insistiu Flávio.
O jogador, por sua vez, afirmou que seu ex-empresário havia atribuído ao senador a responsabilidade pela aquisição da ilha. “Foi ele mesmo que disse que você pegou a ilha lá”, respondeu.
Flávio negou a acusação: “Craque, mentira pura!”.
Na última mensagem sobre o assunto, o senador reiterou o pedido de manifestação pública.
“De novo, só peço que não deixe a imprensa ficar falando meu nome numa pauta que não tenho absolutamente nada a ver. Se possível soltar uma nota, eu agradeço. Abs!”, encerrou Flávio.
Richarlison condicionou a divulgação de uma declaração à solução da disputa financeira e afirmou que pretendia apresentar sua versão em vídeo.
“Irei soltar uma nota quando meu dinheiro tiver na mão. Até pq [porque] gastei muito lá. Irei fazer um vídeo falando tudo. Assim que tiver tudo resolvido. Se possível antes das eleições [não legível] imprensa não vai parar”.
Procurado pelo UOL, Flávio Bolsonaro não havia respondido até a publicação da reportagem.
Willer Tomaz tentou impedir manifestações do jogador
Dois dias depois da troca de mensagens, em 29 de julho, a empresa de Willer Tomaz envolvida na disputa judicial ingressou com uma ação contra Richarlison. O objetivo era impedir que o atacante divulgasse conteúdos com sua versão sobre o caso. A iniciativa foi revelada pelo UOL.
Em 13 de agosto, a Justiça negou a adoção imediata das medidas solicitadas. Ao analisar o pedido, o juiz responsável pelo processo apontou o risco de restrição à liberdade de expressão.
Na decisão, o magistrado afirmou que o pedido “aproxima-se perigosamente da restrição prévia à manifestação do pensamento” e que a ordem constitucional “repele a censura prévia”.
O processo permanece em tramitação.

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