Dino manda PF investigar Flávio Bolsonaro por suposto financiamento por rede de vice de Trump e algoritmos

Dino manda PF investigar Flávio Bolsonaro por suposto financiamento por rede de vice de Trump e algoritmos
- Flávio, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo com JD Vance nos EUA (Divulgação / Flávio Bolsonaro)

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (27) que a Polícia Federal abra um inquérito para investigar denúncias de suposto financiamento estrangeiro à campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL) e de manipulação de algoritmos de redes sociais nas eleições.
A decisão aponta a empresa Rockbridge Network, que faz parte de uma rede criada por JD Vance, vice de Donald Trump, como alvo central das suspeitas, com intermediação atribuída aos empresários Tallis Gomes e Pedro Sang.
Além do suposto financiamento, a PF terá de verificar se houve veiculação remunerada, por perfis sediados no exterior, de conteúdos sobre as eleições brasileiras com mensagens favoráveis ao senador, “sem identificação do pagador, nem dos valores pagos”, conforme descrito na decisão.
A suspeita envolve o uso de plataformas de mercado de previsões como canal para essa publicidade não declarada. Dino apontou ser necessário identificar quem contratou e pagou pelas publicações, qual a procedência dos recursos e se houve participação ou conhecimento da campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro.
Os pontos-chave da investigação da Polícia Federal
A decisão de Dino detalha os eixos que a Polícia Federal deverá percorrer. O primeiro diz respeito à natureza das tratativas entre representantes da Rockbridge Network e os empresários Tallis Gomes e Pedro Sang, incluindo o eventual vínculo entre recursos, serviços ou “outras vantagens economicamente aferíveis” e a campanha eleitoral. A PF deverá apurar se houve fornecimento efetivo de apoio, não apenas financeiro, mas também humano ou de outra natureza com valor econômico.
O segundo eixo envolve a publicidade eleitoral atribuída a perfis estrangeiros: a investigação buscará identificar os responsáveis pelo pagamento e pela contratação desses conteúdos, rastrear a origem dos recursos e verificar se houve participação consciente de pessoas ou entidades no Brasil.
Um terceiro ponto, de alcance mais amplo, prevê a apuração de elementos concretos que relacionem as tratativas de financiamento político a interesses econômicos em terras raras e minerais críticos brasileiros, além de investigar assimetrias dolosas e manipulações algorítmicas praticadas por empresas de internet. A menção a recursos naturais estratégicos na decisão judicial sugere que o inquérito pode alcançar uma dimensão que vai além do calendário eleitoral imediato.
Preocupação com a soberania
A base jurídica da investigação está na própria Constituição Federal, que proíbe partidos políticos de receberem “recursos financeiros de entidade ou governo estrangeiros”. É esse dispositivo que sustenta a gravidade das suspeitas: se confirmadas, as denúncias configurariam não apenas irregularidade eleitoral, mas violação direta de um princípio constitucional de soberania.
Para Dino, os fatos sob suspeita “apontam para a intensificação dos indícios de ingerência estrangeira no processo eleitoral”, e é “intolerável” que um Estado seja “constrangido, ameaçado ou submetido a mecanismos externos de coerção destinados a condicionar o exercício regular das competências atribuídas às suas instituições”.
A decisão ocorre após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já ter adotado medidas sobre suspeitas de tratamento desigual entre as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro nas plataformas digitais.
Em 15 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, determinou que a Meta não interferisse na distribuição de conteúdo político-eleitoral de nenhum dos dois candidatos até o fim do segundo turno, após a campanha de Lula alegar alcance reduzido de suas publicações.
Dino também citou um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que inclui a segurança do processo eleitoral entre os desafios prioritários do Brasil e aponta o risco de interferência externa, reforçando o quadro institucional que embasou sua determinação.
Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade nas denúncias que motivaram a investigação. A Meta, por sua vez, negou em nota ter favorecido qualquer candidatura, afirmando que “não toma partido em eleições” e atribuindo os problemas relatados a incidentes técnicos. A empresa admitiu, porém, que uma falha em suas proteções permitiu que sua ferramenta de inteligência artificial gerasse materiais de campanha favoráveis a Flávio Bolsonaro, sem que isso representasse, segundo ela, uma escolha deliberada da plataforma.
A reação dos empresários Tallis Gomes e Pedro Sang às acusações de intermediação ainda não foi apurada.

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