O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) consumiu ao menos R$ 65,8 milhões em recursos públicos vinculados ao seu mandato no Senado e à campanha presidencial de 2026, desde que assumiu uma cadeira no Senado, em fevereiro de 2019. O montante equivale a aproximadamente 95,2 mil parcelas do Bolsa Família, considerando o benefício mensal de R$ 691, ou a 40,6 mil salários mínimos, pelo piso de R$ 1.621 vigente em 2026.
Levantamento realizado pelo Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum, com base em dados oficiais do Senado Federal e na prestação de contas da campanha presidencial apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que R$ 5.114.702,34 correspondem a salários, gratificações, indenizações e despesas parlamentares do senador.
Outros R$ 60.701.241 foram registrados como receitas provenientes de fundos públicos para financiar sua candidatura à Presidência da República em 2026. A soma, que chega aos R$ 65,8 milhões, equivale a 803,95% do patrimônio declarado de Flávio Bolsonaro à Justiça eleitoral, de R$ 8.186.555,83.
O levantamento considera os valores nominais, sem correção pela inflação, e ainda não inclui os gastos com salários de assessores e a estrutura administrativa do gabinete. Também reúne despesas efetivamente registradas pelo Senado e receitas eleitorais, que não correspondem necessariamente a gastos integralmente executados.
Nesse período, em que ocupou uma cadeira no Senado, Flávio Bolsonaro aprovou apenas dois projetos. Em maio de 2019, o senador conseguiu aval ao PL 3071/2019, que inclui a Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação entre as entidades beneficiadas por concursos de loteria. Em 30 de agosto de 2023, o filho “01” de Jair Bolsonaro, obteve aval ao PL 2327/2021, que estabelece diretriz para reciclagem de baterias de veículos elétricos.
Após perder a eleição presidencial para Lula no último domingo (25), Flávio Bolsonaro teve o passaporte apreendido a pedido da Polícia Federal em razão das investigações sobre lavagem de dinheiro.
No entanto, o senador usou um passaporte italiano para fugir com a esposa, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas para a Argentina onde embarcou em um jatinho com destino aos EUA. Flávio Bolsonaro e a família chegaram a Miami nesta quarta-feira (28), onde obteve visto “humanitário” do governo Donald Trump.
Ao pisar em solo estadunidense, o filho de Bolsonaro divulgou uma carta golpista em que, primeiramente, se autoproclamou presidente eleitor dos “Estados Unidos do Brazil”, que foi corrigida em nova versão, em que Flávio se coloca como “líder do Brasil”.
Bolsa Família e salário mínimo
Para dimensionar o volume de recursos públicos associados ao mandato e à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, os R$ 65.815.943,34 representam o equivalente a 95.247 parcelas mensais do Bolsa Família, considerando o valor do benefício em R$ 691.
Com esse montante, seria possível custear o pagamento mensal do benefício a aproximadamente 7.937 famílias durante um ano inteiro.
A comparação com o salário mínimo também dá a dimensão dos valores.
Considerando o piso nacional de R$ 1.621 em 2026, os recursos equivalem a 40.602 salários mínimos mensais.
R$ 5,1 milhões no Senado
Desde que assumiu o mandato, em fevereiro de 2019, Flávio Bolsonaro acumulou R$ 3.569.048,21 em remuneração básica, segundo os registros analisados do Senado Federal.
O parlamentar recebeu ainda R$ 223.231,76 em gratificações natalinas, correspondentes ao 13º salário, além de R$ 57.351,51 em diárias e R$ 33.763 em vantagens indenizatórias.
Somadas, essas rubricas representam R$ 3.883.394,48 em pagamentos e indenizações pessoais.
Além disso, o senador utilizou R$ 1.231.307,86 da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar dos Senadores (CEAPS), destinada ao custeio de despesas relacionadas ao exercício do mandato, como deslocamentos, serviços e divulgação da atividade parlamentar.
Com isso, o total identificado nessas categorias chega a R$ 5.114.702,34.
O valor não contempla a remuneração dos servidores que passaram pelo gabinete do senador ao longo dos últimos oito anos, tampouco todos os custos administrativos da estrutura parlamentar.
R$ 60,7 milhões de dinheiro público na campanha
A maior parcela dos recursos identificados no levantamento está relacionada à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026.
Segundo dados parciais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a candidatura registrou R$ 47 milhões provenientes do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como Fundo Eleitoral.
Outros R$ 13.701.241 tiveram origem no Fundo Partidário, abastecido principalmente por recursos do Orçamento da União.
Os repasses identificados foram realizados por órgãos do Partido Liberal (PL), incluindo a direção nacional e diretórios estaduais.
Somados, os dois fundos representam R$ 60.701.241 em receitas de origem pública destinadas à campanha presidencial.
Os valores não incluem as doações realizadas por pessoas físicas, que foram separadas do levantamento para identificar exclusivamente os recursos públicos.
No total, a campanha de Flávio Bolsonaro consumiu R$ 114.764.454,52, em doações públicas e privadas.
O custo ainda pode ser maior
Os R$ 65,8 milhões identificados no levantamento não representam o custo integral da passagem de Flávio Bolsonaro pelo Senado e de sua candidatura presidencial.
Isso porque o cálculo ainda não incorpora os salários dos assessores parlamentares, os encargos associados à folha do gabinete e outros gastos administrativos que precisam ser individualizados.
Os dados mostram, portanto, o volume mínimo identificado nas categorias examinadas, sem permitir concluir que todo o dinheiro tenha sido recebido pessoalmente pelo senador ou efetivamente gasto pela campanha.
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