Valter Pomar defende organização popular permanente

Valter Pomar defende organização popular permanente
- Valter Pomar em debate no Centro Cultural Esperança Vermelha - Foto: Paula Vianna/Comunicação CCEV

A mobilização das campanhas eleitorais precisa se transformar em organização popular permanente. Essa foi uma das principais defesas de Valter Pomar, professor da Universidade Federal do ABC e diretor de cooperação internacional da Fundação Perseu Abramo, durante debate no Centro Cultural Esperança Vermelha, em Campinas, na terça-feira (27). O encontro contou com a participação da vereadora Guida Calixto (PT).
Ao analisar a participação da militância no segundo turno, Pomar criticou interpretações que concentram o resultado eleitoral na atuação de uma única personalidade. Para ele, o balanço precisa reconhecer o esforço coletivo de quem participou da campanha.
“Essa vitória foi construída por dezenas de milhões de pessoas que a gente não sabe o nome, não sabe o sobrenome, não sabe o CPF, mas se jogaram para fazer campanha”, afirmou.
O dirigente destacou o envolvimento de trabalhadores, mulheres, população negra, jovens e idosos. Segundo ele, reconhecer essa contribuição fortalece a capacidade de atuação política da população também depois das eleições.
Entregas e indicadores não bastam
Pomar questionou a ideia de que a comparação entre governos e a divulgação de indicadores econômicos seriam suficientes para conquistar apoio eleitoral. Na avaliação dele, as realizações da gestão precisam ser acompanhadas de diálogo e disputa política.
“Os indicadores econômicos, eles não se traduzem em opinião política”, disse, ao argumentar que a percepção da população também é influenciada por autoridades locais, veículos de comunicação e plataformas digitais.
Ao relatar conversas durante a campanha, o professor apontou diferenças entre o pessimismo de parte dos dirigentes e a confiança que encontrava entre trabalhadores. Para ele, esse contraste revela o distanciamento de algumas lideranças em relação ao cotidiano da população.
“Se você não tem contato, se você não pega ônibus, você não percebe o que está acontecendo”, afirmou.
Pomar também defendeu que a esquerda apresente perspectivas concretas de mudança, em vez de concentrar o discurso apenas nas realizações anteriores.
“Nós não podíamos ser a turma do passado. Nós tínhamos que ser a turma que falasse de futuro”, declarou.
A orientação da política econômica foi outro ponto central da intervenção. Pomar criticou a pressão de setores da direita, do mercado e da imprensa por um ajuste fiscal e defendeu que o governo preserve os compromissos assumidos com os trabalhadores. “Nós não fomos eleitos para isso”, afirmou.
Redes sociais e participação da juventude
Na discussão sobre comunicação, Pomar reconheceu a importância da mobilização digital, mas afirmou que ela não resolve o problema do controle das plataformas. Defendeu o debate sobre uma infraestrutura digital pública no Brasil e chamou a atenção para os efeitos dessas ferramentas sobre a saúde mental.
“O grau de adoecimento mental causado por essa dinâmica das redes não pode ser naturalizado”, afirmou.
O professor também defendeu mudanças no funcionamento do PT para ampliar a participação da juventude. Na avaliação dele, a filiação precisa oferecer possibilidades reais de atuação, para além das reuniões de direção e das eleições internas.
“As pessoas têm que ser trazidas para que elas continuem fazendo com mais potencial o que elas demonstraram que são capazes de fazer”, declarou.
Guida defende direitos trabalhistas e presença nos bairros
Guida Calixto reforçou a importância do trabalho de base e relatou experiências de diálogo com moradores de Campinas. A vereadora destacou a defesa da carteira assinada e das garantias trabalhistas como parte dessa atuação.
“A gente estava com medo de defender o direito às férias, o direito ao Fundo de Garantia, o direito às verbas rescisórias”, afirmou, ao criticar o discurso de que os trabalhadores teriam deixado de desejar proteção trabalhista.
Para Guida, a atuação nas redes precisa caminhar junto com a presença nos territórios. Segundo ela, a organização política deve continuar nos bairros, nos locais de trabalho e nos espaços de convivência.
“A nossa cara não pode sair desde agora das ruas, dos espaços coletivos”, defendeu.
O debate foi transmitido pelo canal do Centro Cultural Esperança Vermelha no YouTube.
*Michelle Catarine Machado é jornalista com experiência em comunicação institucional, política, mídias sociais e produção de conteúdos acessíveis e inclusivos.

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