Em movimentos calculados que costumam prever o ritmo da política institucional em Brasília, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, traçou um diagnóstico pragmático sobre o reposicionamento das forças partidárias no país. Em entrevista concedida à newsletter do jornal O Globo, conduzida pelo jornalista Thiago Prado, o articulador paulista descartou a viabilidade de uma nova postulação presidencial encabeçada diretamente por membros da família Bolsonaro no pleito de 2030. Paralelamente, o dirigente abriu caminho para uma aproximação formal e mais robusta com o Palácio do Planalto no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na avaliação do cacique político, a sucessão presidencial de 2030 não deverá contar com nomes do núcleo familiar da extrema direita no topo da chapa. Kassab lembrou a condenação e a inelegibilidade mantida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a saída do país de Flávio (PL) e Eduardo Bolsonaro, que minou a capacidade de articulação direta dos irmãos no cenário nacional, além da falta de inclinação eleitoral de Carlos Bolsonaro e da ausência de coesão interna em torno do nome de Michelle Bolsonaro. Para o líder do PSD, embora a figura do ex-mandatário continue sendo um polo de atração inevitável para qualquer candidatura do campo conservador, a hegemonia direta da dinastia sobre as urnas sofreu um desgaste decisivo.
Questionado sobre as alternativas para a liderança da oposição nos próximos anos, o ex-prefeito de São Paulo pontuou que nomes como o do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) possuem supostamente habilidade política para ler o cenário, mas ressaltou que a construção de uma alternativa competitiva dependerá, fundamentalmente, do desempenho administrativo em seus respectivos estados e da capacidade de diálogo com o centro.
Diálogo com o Planalto e exigências fiscais
Se por um lado Kassab decreta o esgotamento do clã familiar na disputa majoritária, por outro ele estende pontes em direção à governabilidade federal. Historicamente reticente em classificar o PSD como um membro formal da base aliada, a despeito de a sigla ter comandado três ministérios ao longo do terceiro mandato de Lula, o dirigente sinalizou uma mudança de tom para o novo ciclo.
Kassab revelou que emissários do Executivo federal já iniciaram contatos para formatar a composição ministerial e a sustentação no Congresso. De acordo com o presidente da legenda, o PSD está disposto a construir uma “relação mais profunda” com a gestão petista, condicionando esse apoio a um aceno claro ao eleitorado de centro e à adoção de diretrizes econômicas ortodoxas. Como referência de governabilidade, o articulador citou a condução econômica da primeira gestão de Lula, mencionando quadros como Antonio Palocci e Henrique Meirelles como modelos de responsabilidade fiscal e previsibilidade capazes de pacificar os mercados e atrair setores moderados.
O dirigente argumentou que a heterogeneidade da bancada do PSD, composta por diretórios regionais alinhados tanto ao campo progressista quanto à direita, exige que o governo federal emita sinais concretos de responsabilidade fiscal e moderação ideológica. Segundo ele, essa postura é o elemento capaz de unificar o apoio do partido em votações decisivas no Legislativo.
Debate sobre anistia e pacificação nacional
Outro ponto central abordado por Gilberto Kassab na entrevista à newsletter de O Globo foi o debate sobre medidas de anistia e pacificação política. Em meio às articulações conduzidas no Senado Federal por Davi Alcolumbre tendo em vista a eleição para a presidência da Casa em 2027, Kassab posicionou-se favoravelmente à discussão do tema a título pessoal, ressaltando que a sigla não fechou questão regimental sobre a matéria.
Para o líder político, o contexto aberto com a reeleição de Lula abre margem para gestos de reconciliação por parte do vencedor do pleito. Kassab rebateu as críticas de que a pauta significaria uma normalização de investidas contrárias ao Estado Democrático de Direito, sustentando que, diante do novo arranjo político e do afastamento dos principais atores extremistas do debate eleitoral imediato, a busca por uma saída negociada pode contribuir para a estabilidade das instituições republicanas.
Kassab rifa clã Bolsonaro e sinaliza “relação mais profunda” com Lula em entrevista
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