Como se construiu a histórica mobilização da esquerda que levou à virada de Lula — e o que ela ensina ao mundo

Como se construiu a histórica mobilização da esquerda que levou à virada de Lula — e o que ela ensina ao mundo
Lula no meio do povo em seu último ato de campanha na Avenida Paulista - Foto: Juan BARRETO / AFP

Protestos nas ruas e um drible coletivo nos algoritmos das plataformas digitais. Jogos de tabuleiro e manuais para convencer indecisos. Imagens atraentes, fãs de divas pop a favor de Lula, festivais de música, blocos de carnaval, a geração Z levando os avós para votar. A imprensa internacional atribui a chave da virada de Lula ao canal de WhatsApp Exército do Lula, criado pelo deputado André Janones. A explicação, porém, é mais complexa.
“Havia uma infinidade de atores produzindo vídeos, memes, material gráfico, comentários, cortes audiovisuais… A força veio dessa multiplicidade. O Exército do Lula foi importante, mas não como centro produtor da mobilização, e sim como dispositivo de coordenação”, afirma ao elDiario.es Tiago Pimentel, antropólogo especializado em tecnopolítica.
O Exército do Lula foi um ponto de chegada, não de partida. Até 11 de outubro, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) censurou por algumas horas o canal, que tinha 3,3 milhões de seguidores, quase não havia conteúdo nele. André Janones insistia em uma missão: chamar mais gente.
“Um canal de WhatsApp em que as pessoas recebiam ordens não reflete tudo o que aconteceu. Vivemos um verdadeiro alinhamento entre o digital e a rua, com milhões de voluntários fazendo coisas diversas”, afirma ao elDiario.es a economista e socióloga Sabrina Fernandes, uma das fundadoras da iniciativa Vira Voto, criada durante as eleições de 2018.
A experiência acumulada pela sociedade brasileira após anos de luta contra o bolsonarismo foi determinante. O Vira Voto reativou suas redes, com seu repertório de manuais e dicas para conquistar votos nas redes e nas ruas, contribuindo com tudo. Seu perfil no Instagram serviu, em 2022, à campanha em que celebridades pediam voto para Lula fazendo o L com os dedos. Outras iniciativas históricas, como o Design Ativista, um polo de material gráfico, também foram reativadas.
No entanto, diferentemente de 2022, quando a esperança permeou a campanha de Lula, a avalanche de iniciativas cidadãs se concentrou inicialmente no lado obscuro de Flávio Bolsonaro. O medo foi o combustível que levou milhões de pessoas à campanha, segundo os cientistas políticos Tathiana Chicarino e Adriano Oliveira.
“Era literalmente o bem contra o mal. Lula era um São Jorge contra o dragão da maldade Flávio Bolsonaro”, afirma ao elDiario.es o jornalista André Lobão, que se envolveu em campanhas independentes.
Estas são algumas das chaves da imensa mobilização da esquerda e da virada de Lula.
Lula, o influenciador-chefe
Em 7 de outubro, Lula recebeu em Brasília jovens deputados de esquerda. A grande protagonista era Ana Elisa, uma mulher negra de 21 anos, com milhões de seguidores nas redes sociais, que conquistou 524 mil votos. Ana Elisa incentivou Lula a gravar com um celular, sem equipe de produção. O vídeo, com um Lula influenciador e sem filtros, convocava a população a ocupar as ruas.
A partir daí, a campanha oficial e as campanhas paralelas passaram a se alimentar mutuamente, chegando a se confundir na reta final. “A campanha saiu do modo quase inércia para se transformar em uma campanha multidimensional”, segundo o cientista político Antônio Lavareda.
A força das ruas
A manifestação dos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, no Rio de Janeiro, em 5 de outubro, desencadeou uma onda de protestos estudantis que incendiou a primeira semana do segundo turno. As manifestações espontâneas de apoio a Lula se espalharam pelo país. No domingo, dia 11, uma multidão tomou a Avenida Paulista, em São Paulo, e a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, espaços sagrados do bolsonarismo, em atos construídos de forma autônoma.
Milhões de pessoas foram às ruas durante a campanha do segundo turno: houve mais de 1.700 manifestações apenas no fim de semana anterior à votação, segundo o próprio Lula. Em algumas cidades emblemáticas da extrema direita, como Balneário Camboriú, em Santa Catarina, foram registradas as primeiras manifestações com bandeiras vermelhas em anos.
Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, dominada pelo bolsonarismo, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) organizou manifestações de tamanho inédito. “Estar na rua acaba fomentando uma mobilização nas redes porque as pessoas postam e vão se contagiando”, afirma a cientista política Tathiana Chicarino.
O “gostoso da Paulista”
A manifestação na Avenida Paulista deixou uma imagem viral: um homem musculoso, sem camisa e com o rosto coberto por um cachecol vermelho. O “gostoso da Paulista” se transformou em um ícone. Surgiram cartazes, ilustrações e fotomontagens. A partir daí, homens musculosos, inclusive do conservador universo fitness, articularam um novo movimento: “gostosos com Lula”.
Paralelamente, mulheres começaram a divulgar fotos fazendo o L de Lula e se autodeclarando “gostosas com Lula”. Também surgiu um movimento de rainhas de bateria de escolas de samba em apoio a Lula. Algumas, como Evelyn Bastos, da histórica Mangueira, do Rio de Janeiro, mobilizaram multidões para as manifestações. A sensualidade impulsionou o movimento pró-Lula.
Jornalismo com cara pop
A iniciativa audiovisual Revelando, em que pessoas famosas narravam denúncias contra Flávio Bolsonaro, revolucionou a campanha. Combinando rigor jornalístico e estética pop, o Revelando inundou todas as plataformas com vídeos. Cada um de seus nove episódios foi corroendo a imagem de Flávio Bolsonaro.
Alguns dias antes do primeiro turno, a atriz Camila Pitanga explicou o caso de Ana Julia, a menina de cinco anos assassinada por um policial que Flávio Bolsonaro defendeu como advogado. No segundo turno, o caso Ana Clara chegou à grande imprensa e atingiu o candidato até nos debates. A atriz Luana Piovani explicou que um projeto de lei do qual Flávio Bolsonaro era relator no Senado poderia acabar privatizando as praias.
O ator Wagner Moura alertou, em “Pátria submissa”, para o risco de o clã Bolsonaro entregar o país aos Estados Unidos. Já MC Flavinho denunciou o jeito de menino mimado de Flávio Bolsonaro.
Driblando o algoritmo
Burlar os algoritmos das plataformas, que favoreceram Flávio Bolsonaro, foi o esporte nacional da esquerda durante as eleições. O Instagram se encheu de publicações com dicas: ignorar conteúdos de direita, interagir nas postagens, assistir aos vídeos e percorrer os carrosséis de fotos até o fim, salvar conteúdos, republicar… Os “gostosos” e as “gostosas” divulgavam fotos com adesivos de Lula nos seios ou na bunda.
Foram produzidos até manuais de resistência digital, como o do coletivo Intervozes. Para sair da bolha, usaram-se hashtags neutras sobre as eleições (#EleiçõesBrasil2026), sobre outros temas e até aquelas utilizadas por bolsonaristas (#FlávioBolsonaro ou #BrasilPátriaAmada).
Uma das técnicas mais utilizadas no Instagram foi a publicação em colaboração, a chamada collab, feita por várias contas. Alguns perfis grandes, como Luz Manifesto e Brasil Fora da Caverna, abriram espaço publicamente para conteúdos de contas pequenas. Lina Brasil recomendava fazer collabs com perfis que não fossem políticos: maquiadoras, profissionais do universo fitness, cabeleireiros, cuidadores de animais ou chefs de cozinha.
Ao mesmo tempo, o Facebook foi usado para sair da bolha, especialmente por meio da interação em grupos. “Quando milhões de cidadãos se mobilizam dessa forma, a comunicação política deixa de depender exclusivamente dos algoritmos, da publicidade ou dos canais oficiais. Essa combinação de interações orgânicas, capilaridade, diversidade de vozes e inteligência coletiva é o que deu potência à guerrilha digital”, afirma ao elDiario.es Leonardo Calvano, que trabalha com comunicação para partidos de esquerda desde 2012 e se envolveu em campanhas independentes. O site Batalha dos Influs dava ânimo ao mostrar a goleada que os influenciadores de esquerda estavam aplicando nos bolsonaristas.
A indignação com os algoritmos digitais também empurrou as pessoas para as ruas. “O diálogo cara a cara rompe o isolamento produzido pelas bolhas digitais”, escreveu a jornalista Iara Vidal após a vitória, em “A rua não tem algoritmos”.
WhatsApp
Depois do primeiro turno, muitos grupos de amigos, de família, de pais de alunos e de vizinhos no WhatsApp se transformaram em espaços de debate político. Iniciativas como Triplique seu Voto concentraram sua atuação no aplicativo. Uma das estratégias de milhões de brasileiros foi atualizar o Status do perfil com mensagens a favor de Lula. Além do envio de mensagens privadas ou para grupos, também foram utilizadas listas de transmissão.
Lívia Almendary, editora da Kipuka, por exemplo, enviou uma mensagem a seus 1.500 contatos no sábado, dia 24, pedindo voto para Lula. “Essa mensagem era um último suspiro que mandei a contatos de trabalho, prestadores de serviços de todo tipo, antigos paqueras, amigos, família”, conta ao elDiario.es. Antes do segundo turno, já existiam grandes canais de WhatsApp, como o da deputada Erika Hilton e o próprio canal oficial de Lula.
O Exército do Lula
O canal de WhatsApp Exército do Lula foi criado por André Janones no dia 5. Até o dia 13, quando foi censurado pela segunda vez pelo TSE, a principal missão proposta por Janones era crescer. Ao contrário do que publicou a grande imprensa, o canal não era um epicentro de criação de conteúdo. O deputado enviava áudios, direcionava os usuários para seu perfil no Instagram, dava dicas ou sugeria que seguissem perfis progressistas na plataforma.
Tiago Pimentel destaca que o canal ajudou a disseminar uma espécie de pedagogia algorítmica para “não alimentar trolls, não entregar interações ao adversário e concentrar a circulação onde ela produz efeito”.
O canal ganhou outra dimensão a partir do sábado, dia 17, quando chegou a cinco milhões de inscritos e Janones incentivou as pessoas a divulgar fotos com a camisa da seleção de futebol, sequestrada pelo bolsonarismo. Uma de suas grandes inovações foi sugerir buscas no Google Trends sobre Flávio Bolsonaro.
“O principal efeito do Exército do Lula foi a unificação de pautas. Também ajudou psicologicamente. Quem nunca tinha feito campanha quer orientação e se sentir útil”, pondera Sabrina Fernández.
No dia 23, com dez milhões de usuários, o canal foi fundamental para viralizar os cortes do último debate na televisão. A prioridade era divulgar o caso do assassinato da menina Ana Clara e a reação de Lula ao insulto “nove dedos”, feito por Flávio Bolsonaro. O publicitário Elsinho Mouco atribui ao canal “a maior desconstrução da história da comunicação política do Brasil”.
Além disso, Janones realizou a Live da Virada, um programa especial de 24 horas que recebeu diversos convidados, inclusive o próprio Lula. Na reta final, o canal emplacou hashtags no Twitter, buscas no Google e pautou a conversa no Instagram, mantendo o entusiasmo lulista.
Fã-clubes em ação
A iniciativa Fandoms pelo Brasil, que reúne fã-clubes de artistas pop como Beyoncé, Lady Gaga e Taylor Swift, que somam quatro milhões de seguidores, criou uma playlist no Spotify, participou da organização das manifestações e preparou um kit para personalizar materiais gráficos. Já os grupos de fãs do K-pop sul-coreano inundaram as redes com clipes de Lula dançando, correndo ou comemorando.
O rap de São Paulo, por sua vez, convocou o festival “O Rap Convoca — Ato musical contra o retrocesso”, enquanto a elite da música brasileira, liderada por Caetano Veloso, organizou o “Ato Musical pela Democracia”, no Rio de Janeiro. “Acho que a chave esteve em artistas menos conhecidos, como Exu do Blues, que não fez apenas uma postagem de apoio, mas entrou de cabeça na campanha”, afirma ao elDiario.es o curador cultural Felipe Brait.
Estética popular digital
A munição gráfica, os vídeos e as imagens produzidos por milhares de designers e criativos foram reunidos em pastas compartilhadas e sites como Acervo da Vitória, Designers pela Virada, Vira Voto — Artes Digitais e Design Ativista. Também proliferaram pastas de lambe-lambes, cartazes para colar nas ruas, como Lambes pela Virada e Lambes Antifascistas.
Uma novidade em relação a 2022, porém, foi a centralização do que estava disperso. Os sites Diretorio13.com e Acervo Lula reuniam iniciativas, especialmente gráficas e audiovisuais. O uso da inteligência artificial, por sua vez, inundou a rede com cards de produção caseira e de fácil compreensão, como mostra o acervo Cards pela Democracia.
Já os deepfakes, vídeos que não são reais, mais do que produzir desinformação do lado bolsonarista, irrigaram com humor a campanha lulista. “O cenário atual é marcado por conteúdos de interação e humor”, afirmou à Exame Bruno Sartori, pioneiro em deepfakes e muito ativo na campanha pró-Lula.
Construção da narrativa: esquerda e direita unidas
Na semana de 5 de outubro, Flávio Bolsonaro conseguiu o apoio de três dos quatro candidatos derrotados no primeiro turno e da maioria dos partidos de direita. No entanto, começaram a circular peças gráficas que pediam a união da esquerda e da direita contra o bolsonarismo. Algumas se dirigiam especificamente aos eleitores de cada candidato derrotado. A pressão foi intensa sobre os eleitores do centrista Augusto Cury, que obteve 3.448.569 milhões de votos [sic].
“Votou em Augusto Cury? Então, o bolsonarismo não é o seu lugar”, publicava o perfil Brasilprafrente26. Outras peças destacavam o apoio crítico a Lula em defesa da democracia. A partir da “bolha da esquerda”, a narrativa foi chegando a outros públicos, como apontava um episódio do podcast Calma Urgente.
A narrativa e a onda lulista acabaram levando nomes conhecidos da direita a pedir voto para Lula. Entre eles, Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil entre 1995 e 2002; João Amoêdo, fundador do liberal Partido Novo; a apresentadora Angélica; e a modelo Sasha Meneghel, entre muitos outros.
Vira Voto
Tentar “virar voto” foi a grande chave da virada. A estratégia passava necessariamente por conversar pessoalmente com quem não havia votado em Lula no primeiro turno. Embora a campanha oficial tenha publicado, em 5 de outubro, o manual “Como vencer no segundo turno”, a faísca inicial veio da veterana iniciativa Vira Voto.
“Apresentei a primeira ideia no dia 5. No dia 6, reabrimos todos os grupos de 2022. Montaram um site e um repositório de brigadas territoriais”, afirma Sabrina Fernández.
No Diretorio13.com, foram sendo acrescentadas iniciativas como Onde Dá pra Conversar, para conversar na praça, na calçada ou no ponto de ônibus; Tropa Vira Voto, com vários guias; Conversa que Muda, um treinamento para conversar com quem rejeita o PT; e Empreendedores da Quebrada, voltada às periferias.
“Nossa campanha corpo a corpo, fazendo caravanas e conversando de perto, fez a diferença”, afirmava Alex Barcellos, da Agência Solano Trindade, de São Paulo, em uma mensagem enviada a um grupo de WhatsApp.
Diná Ramos, militante do PSOL, afirma que as sedes do partido se transformaram em pontos de organização. “Fizemos muitas oficinas de vira-voto, grupos de WhatsApp, Telegram, Discord. Os grupos de vira-voto, com coordenação partidária ou autogeridos, tomaram as cidades. Os relatos de indecisos declarando voto em Lula ou até de bolsonaristas repensando o voto são incríveis”, observa Diná Ramos.
Publicações como a de Luisa Matsushita, que contou às lágrimas ter virado quatro votos, viralizavam automaticamente.
Jogos de tabuleiro, videogames e humor
O jogo de tabuleiro “Não somos tão estranhos” propunha jogar com os vizinhos para desmascarar Flávio Bolsonaro a partir de problemas do cotidiano. Já o baralho “Bom ou ruim?” apresentava frases de Lula e de Bolsonaro sem identificar seus autores. Uma legião de pessoas foi às ruas com a versão física do baralho, mostrando a radicalidade das propostas de Flávio Bolsonaro. O jogo também ganhou uma versão digital.
O humor esteve presente em muitos jogos on-line, como SuperFlavio e Corre Senador. No site mastersigilo.com, o usuário descobria, em tom irônico, todas as informações disponíveis sobre o patrimônio de Flávio Bolsonaro, de origem duvidosa.
Pacto intergeracional
As redes se encheram de vídeos e fotos de idosos votando. Muitos estavam acompanhados dos filhos ou netos. Iniciativas como Movimento Voto 70+ e Seu Voto Importa enfatizaram a participação dos maiores de 70 anos. Tathiana Chicarino afirma que o segundo turno ativou um pacto entre gerações, incentivado por “jovens chamando os mais velhos para as ruas, com muita alegria”.
Também foi organizada uma grande rede de caronas e hospedagens solidárias para que as pessoas pudessem votar.
Texto de Bernardo Gutiérrez, publicado originalmente no elDiario.es. Tradução para o português do Brasil.

Ver mais

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!