O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), avalia entregar a Secretaria da Justiça e Cidadania ao deputado federal Ricardo Salles (Novo), ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro que ficou conhecido por defender que o governo aproveitasse a pandemia para “passar a boiada” na regulamentação. A movimentação integra a montagem do segundo mandato, com perda de espaço do PSD de Gilberto Kassab e maior influência de outros partidos da direita.
A indicação ainda não foi oficializada. Salles, entretanto, aparece entre os nomes mais fortes para a pasta, atualmente ocupada por Arthur Lima. As conversas ganharam força após o deputado desistir da disputa ao Senado, em setembro, a pedido de Tarcísio, para apoiar Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), ambos eleitos.
Ricardo Salles e a frase “passar a boiada”
Em 22 de abril de 2020, durante reunião ministerial de Bolsonaro, Salles defendeu o aproveitamento da concentração da cobertura jornalística na Covid-19 para alterar normas infralegais. O vídeo foi divulgado no mês seguinte por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
“Ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, afirmou o então ministro. Na ocasião, ele mencionou expressamente o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Agricultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Depois, sustentou que sua proposta tinha como objetivo reduzir burocracias, e não eliminar proteções legais.
A possível chegada de Salles à Justiça paulista chama atenção pelas atribuições da pasta. Segundo a estrutura oficial da Secretaria da Justiça e Cidadania, o órgão coordena políticas de cidadania e direitos humanos, mantém relações institucionais com o Judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública e tem entre as entidades vinculadas a Fundação Casa e o Procon-SP.
A Fundação Casa executa medidas socioeducativas para adolescentes determinadas pela Justiça. Já o Procon-SP atua na defesa dos consumidores. A secretaria não administra tribunais nem exerce a função da Procuradoria-Geral do Estado, responsável pela representação judicial do governo.
Ricardo Salles é réu no STF por caso envolvendo madeira
O histórico judicial do deputado acrescenta uma questão à possível nomeação. Salles responde à Ação Penal 2705 no Supremo, em investigação sobre suposta facilitação de contrabando de produtos florestais durante sua passagem pelo governo Bolsonaro.
Em comunicado oficial de setembro de 2025, o STF informou que a denúncia envolve suspeitas de associação criminosa, facilitação ao contrabando, advocacia administrativa e obstrução à fiscalização ambiental. Salles nega as irregularidades. A condição de réu não significa condenação.
A Fórum já havia detalhado as controvérsias envolvendo o ex-ministro na reportagem Ricardo Salles: de ministro que queria “passar a boiada” a “RÉUlator” que pode ser preso.
Desistência ao Senado antecedeu negociação
Salles anunciou em 28 de setembro que não concorreria ao Senado por São Paulo, seis dias antes do primeiro turno. A retirada favoreceu a concentração de votos em Derrite e André do Prado, candidatos apoiados por Tarcísio. Até então, o ex-ministro havia atacado Prado, que associava ao Centrão e ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto.
Na coletiva em que anunciaram a desistência, Salles e Tarcísio negaram a existência de promessa de cargo como contrapartida. A discussão sobre a possível entrada no governo ganhou corpo depois das eleições. O deputado também é mencionado nos bastidores como eventual candidato à Prefeitura de São Paulo em 2028, perspectiva que pode gerar atritos com o grupo do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Kassab perde espaço e partidos disputam secretarias
A reforma deve reduzir a presença do PSD, que exerceu forte influência no primeiro mandato. Kassab deixou o comando da Secretaria de Governo em março de 2026 para se dedicar à campanha nacional, na qual concorreu à Vice-Presidência na chapa de Ronaldo Caiado. A relação política com Tarcísio já havia acumulado desgastes.
A tendência é de permanência de Marcelo Branco no Desenvolvimento Urbano e Habitação e de Guilherme Afif Domingos em Projetos Estratégicos, embora Afif seja considerado uma escolha pessoal do governador. A articulação política deve continuar com Roberto Carneiro, dirigente estadual do Republicanos, enquanto o PSD pode perder a Secretaria da Saúde.
MDB, PL, Podemos e a federação União-PP buscam ampliar a participação no secretariado. Tarcísio recebeu nesta quinta-feira (5) o presidente do PP, Ciro Nogueira, dentro dessas negociações. A redistribuição de cargos, somada à possível nomeação de Salles, indica uma equipe de perfil mais partidário para o segundo mandato. Não há confirmação oficial da escolha nem data definitiva para o anúncio.
Tarcísio radicaliza e cogita Salles, que falou “passar a boiada”, para a Justiça em SP
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