Numa abordagem bastante questionável sobre seu rigor no que tange o escrutínio jornalístico exigido, o jornal norte-americano The Washington Post publicou neste sábado (7) uma matéria que acabou concedendo amplo espaço às declarações reconhecidamente falsas do senador foragido Flávio Bolsonaro (PL), sem aplicar o contraditório incisivo que o tema requer. Ao conceder espaço para extremista destilar mentiras absurdas sobre as instituições brasileiras sem as devidas correções enfáticas, o veículo controlado pelo bilionário Jeff Bezos entregou ao público uma peça inequivocamente “chapa branca”, construída sob uma narrativa humanizadora e condescendente que ignora a gravidade dos fatos e da própria legalidade.
Enquanto a democracia brasileira é atacada por discursos golpistas desprovidos de qualquer sustentação factual, o Washington Post preferiu focar a cena inicial de sua reportagem na imagem pitoresca do político brasileiro em um ambiente de coworking na Flórida, contemplando com melancolia uma rosquinha com cobertura de chocolate e granulado. Ao pintar o retratado como uma figura “triste”, “confusa” e vulnerável a hábitos tipicamente estadunidenses, a publicação não apenas amortece o peso da fuga clandestina de um investigado por graves crimes, mas também escancara a linha editorial permissiva do veículo diante do avanço da extrema direita global.
Silêncio cúmplice diante da mentira e a negação da democracia
A falha mais ruidosa do Washington Post reside na sua recusa deliberada em rebatê-lo com a contundência que o jornalismo sério exige. Durante a entrevista, Flávio Bolsonaro repetiu a tese absurda de que o Brasil não seria mais uma democracia e afirmou, sem apresentar um único indício, que Donald Trump estaria “convencido” dessa premissa. O próprio entrevistado admitiu formalmente ao repórter que não possui provas das fraudes eleitorais que alegou. Diante de uma confissão tão explícita de desinformação, caberia a qualquer veículo comprometido com a verdade desmentir o interlocutor de forma peremptória, reestabelecendo a realidade factual na redação final que foi para seus leitores.
O Brasil é a nona maior economia do planeta, uma das nações mais influentes do globo e uma democracia consolidada e ininterrupta desde 1985, quando o país encerrou seu último período de ditadura militar. As eleições brasileiras são auditáveis, céleres e reconhecidas internacionalmente pela sua lisura indiscutível, tendo inclusive elegido o próprio Flávio e seu pai em múltiplos pleitos ao longo de décadas, quando saíram vitoriosos. Calar-se ou limitar-se a registrar pontualmente “o que o outro lado diz” é dar palco para a mentira ideológica. No campo dos fatos, não existe “outro lado” quando a questão envolve a integridade do sistema eleitoral: a eleição foi limpa e não houve fraude alguma.
Além da omissão sobre a higidez democrática brasileira, o texto do Post vacila gravemente ao qualificar os atores do sistema de Justiça. A reportagem refere-se ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como um “antigo adversário da família Bolsonaro”. A formulação é falsa e perversa. Moraes não é um rival político ou pessoal; é um magistrado da Suprema Corte do país no exercício de suas funções constitucionais, atuando como relator das ações penais e inquéritos que responsabilizaram centenas de indivíduos envolvidos em tentativas de golpe de Estado.
Perfil dos veículos e a diferença no tratamento jornalístico
A postura adotada pelo Washington Post ganha contornos ainda mais graves quando comparada ao trabalho da imprensa internacional rigorosa. Veículos de referência, como o The New York Times, demonstraram como o jornalismo deve agir diante de figuras autoritárias: para cada declaração sem respaldo emitida por Flávio ou por interlocutores do bolsonarismo, a correspondente Ana Ionova aplicou desmentidos expressos, rebatendo diretamente pelo menos oito mentiras com dados, fatos e a devida contextualização histórica. No NYT, a pose de “perseguido político” foi desmontada com rigor e uma discreta e sutil ridicularização do papel de vítima assumido pelo foragido.
No veículo de Jeff Bezos, pelo contrário, o leitor encontra uma crônica de tons suaves sobre um homem “incerto sobre o futuro”. A reportagem ameniza a situação real das partes envolvidas: Jair Bolsonaro não é um injustiçado, mas sim um criminoso condenado por ter planejado um golpe de Estado violento contra a República, estando devidamente encarcerado domiciliarmente pelo cumprimento de suas penas. Da mesma forma, Flávio Bolsonaro não é um “exilado humanitário”, mas sim um indivíduo acusado de diversos crimes, como lavagem de dinheiro e corrupção, e que descumpriu ordens judiciais expressas para fugir do país e evitar prestar contas à Justiça.
Alinhamento político e os interesses do capital bilionário
A condescendência do Washington Post não ocorre em um vácuo editorial. Ela reflete a guinada ideológica promovida por seu proprietário, o bilionário Jeff Bezos. Nos últimos anos, Bezos aproximou-se ostensivamente do ecossistema político de Donald Trump e do Partido Republicano, realizando doações financeiras vultosas para campanhas do grupo e interferindo diretamente nas instâncias decisórias do jornal, inclusive vetando endossos editoriais históricos a candidaturas democratas.
Trump, figura em quem o texto do Post se apoia para endossar as críticas ao Brasil, é ele próprio um líder que nega reiteradamente os resultados das urnas norte-americanas e incitou a invasão do Capitólio em 2021. Apresentá-lo ou utilizá-lo como parâmetro para julgar a qualidade da democracia de uma nação estrangeira é uma contradição lógica insustentável. O alinhamento do Post a essa visão atende a interesses geopolíticos e econômicos de seu dono, sacrificando a verdade factual em prol de uma narrativa conveniente ao trumpismo.
Ao final da leitura da matéria publicada pelo Washington Post, o que sobressai não é a busca da verdade, mas a construção de uma peça de afeto e passividade. Ao transformar acusações criminais e teses antidemocráticas em mero “dilema pessoal” de quem saboreia um donut em um escritório na Flórida, o jornal prestou um desserviço à opinião pública global e confirmou que a imprensa mantida por bilionários alinhados ao extremismo prefere acobertar a mentira a enfrentar os fatos.
Washington Post, de Jeff Bezos, faz entrevista “chapa branca” com Flávio Bolsonaro
💬 Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar!