O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na noite da sexta-feira (31), em Fortaleza, que “enquanto eu viver, a extrema-direita não voltará a governar este país”, durante a convenção do PT que oficializou a candidatura do governador Elmano de Freitas à reeleição.
No mesmo palanque, Lula desafiou Donald Trump e Javier Milei a intervirem na disputa eleitoral brasileira e criticou o Senado Federal, afirmando que a Casa “tem metade apodrecida”. O ato reuniu lideranças do campo progressista cearense e marcou o início formal da campanha de 2026 no estado.
Lula enfrenta extrema-direita
Lula foi direto ao ponto na noite de sexta-feira (31) no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza. “Enquanto eu viver, a extrema-direita não voltará a governar este país”, declarou o presidente, diante de uma plateia que acompanhava a convenção do PT responsável por oficializar Elmano de Freitas como candidato à reeleição ao governo do estado.
A fala não ficou no plano da promessa genérica. Lula foi além e endereçou nomes: “E vou dizer mais, que venha ajudá-los quem quiser. Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o Milei, que venha. Venha quem quiser. Eu não quero ajuda de fora. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para que a gente possa manter a democracia desse país.”
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O cenário escolhido para o discurso carrega peso político próprio. O Ceará é o estado onde a guerra interna do clã Bolsonaro ganhou contornos públicos: a disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Michelle Bolsonaro teve como estopim o apoio de Flávio a Ciro Gomes (PSDB), adversário declarado do campo lulista no estado.
No palanque ao lado de Lula estava justamente Cid Gomes (PSB-CE), irmão de Ciro e candidato à reeleição ao Senado pela chapa governista. A presença de Cid não era detalhe de protocolo: era a demonstração de que a aliança progressista no Ceará absorveu parte do campo que antes orbitava em torno dos Gomes, isolando Ciro na oposição.
Recados a Trump e Milei
Os dois nomes citados por Lula no palanque não foram escolhidos ao acaso. Javier Milei esteve em São Paulo no último domingo (26) para participar da convenção do PL que lançou Flávio Bolsonaro como candidato à presidência. No evento, o presidente argentino chamou Lula de “ladrão” e o ministro do STF Alexandre de Moraes de “lixo careca”, além de fazer críticas ao governo e à economia brasileira.
A resposta do governo brasileiro foi imediata no plano diplomático: o embaixador da Argentina em Brasília foi convocado para prestar esclarecimentos, e o embaixador do Brasil em Buenos Aires foi chamado de volta para consultas, medida adotada em momentos de tensão entre países. Mesmo após a crise, Milei voltou a atacar Lula nas redes sociais, e integrantes do governo brasileiro responderam às provocações.
“Eu não quero ajuda de fora. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para que a gente possa manter a democracia desse país.”
Com Donald Trump, o impasse tem dimensão comercial. Em julho do ano passado, o governo norte-americano impôs tarifas sobre produtos brasileiros, justificando a medida como resposta ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e acusando autoridades brasileiras de perseguição. Na última quarta-feira (29), o governo Lula divulgou nota repudiando a decisão dos EUA de prorrogar sanções contra o Brasil, afirmando ser “descabido caracterizar o Brasil como ameaça aos Estados Unidos”. O governo brasileiro também acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o tarifaço. Ao citar Trump e Milei no mesmo fôlego em que prometeu barrar a extrema-direita, Lula consolidou uma narrativa que conecta a oposição interna a pressões externas sobre a soberania do país.
Cenário político no Ceará e o papel do Senado
Além da candidatura de Elmano, a convenção oficializou Gabriella Aguiar (PSD) como candidata à vice-governadora. Lula declarou apoio explícito à chapa e estendeu o suporte a Cid Gomes para o Senado. A segunda vaga à Câmara Alta, porém, segue em aberto: Cid fez mistério no próprio discurso, afirmando que a chapa contará em breve com “mais um senador ou candidata à senadora que ninguém sabe ainda”. Os partidos têm até o dia 15 de agosto para registrar candidatos no TSE, e a definição interna deve ocorrer até 5 de agosto. Entre os nomes cotados estão Luizianne Lins (Rede), Chagas Vieira (PDT), Moses Rodrigues (União) e Eunício Oliveira (MDB).
A crítica de Lula ao Senado foi direta. Ao reafirmar o apoio a Cid e mencionar a vaga ainda indefinida, o presidente disse: “o Senado tem metade apodrecida e nós precisamos fazer um Senado, fazer as coisas corretas.” O senador Camilo Santana (PT) e o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), também discursaram no evento e miraram a oposição liderada por Ciro Gomes, referindo-se ao grupo como “time do ódio” e “turma do Bolsonaro”. Camilo fez questão de destacar a presença de Cid no palanque como símbolo da continuidade do projeto político que governa o Ceará há mais de uma década.
Implicações e próximos passos
O discurso de Lula em Fortaleza funciona como pontapé oficial de uma campanha que já tem adversários definidos, tanto no plano doméstico quanto no internacional. Ao nomear Trump e Milei como figuras que tentarão interferir na eleição brasileira, o presidente antecipa um enquadramento que deve orientar a narrativa petista ao longo de 2026: a disputa não é apenas entre candidatos, mas entre projetos de país com ramificações globais.
A convenção no Ceará marca também a consolidação de alianças locais que serão testadas nas urnas. A incorporação de Cid Gomes à chapa governista, em um estado onde a família Gomes foi por décadas protagonista da política, representa uma reconfiguração relevante do campo progressista. A crítica ao Senado, por sua vez, sinaliza que o governo enxerga a composição da Câmara Alta como uma das disputas centrais de 2026, não apenas para ampliar governabilidade, mas para garantir que pautas prioritárias não sejam travadas. Com o calendário eleitoral em curso e as convenções se multiplicando pelo país, o ato em Fortaleza deixou claro que Lula pretende estar no centro da disputa, sem deixar dúvidas sobre o lado em que se posiciona.
Lula mira Trump e Milei em ato com Elmano e Cid Gomes no Ceará, onde teve início guerra do clã Bolsonaro
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