Alexandre Junqueira, conhecido como “Carioca de Suzano” e ex-aliado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), afirmou que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro mantinha R$ 250 mil em um cofre instalado em seu antigo gabinete na Câmara dos Deputados. Segundo ele, os recursos seriam provenientes de um suposto esquema de devolução de parte dos salários de servidores do gabinete, prática conhecida como “rachadinha“.
As declarações foram dadas em entrevista exclusiva à jornalista Juliana Dal Piva do ICL Notícias. De acordo com Junqueira, a maior parte do dinheiro guardado no cofre teria sido utilizada por Eduardo Bolsonaro como entrada para a compra de um apartamento no Rio de Janeiro.
A existência do cofre já havia sido mencionada por Junqueira em outubro de 2025, durante participação na série documental em áudio Quem matou a política?, produzida pela Audible em parceria com a Rádio Escafandro e a Rádio Guarda-Chuva. Meses depois, em junho deste ano, ele decidiu apresentar novos detalhes sobre o caso ao veículo.
Relação com Eduardo Bolsonaro
Junqueira relatou que conheceu Eduardo Bolsonaro em 2017, após contato pelas redes sociais. Segundo ele, passou a produzir vídeos em apoio ao então deputado e à família Bolsonaro, até ser convidado para atuar como motorista durante a campanha eleitoral de 2018.
A proximidade, segundo o ex-aliado, se estendeu após a vitória eleitoral. Ele afirma ter participado da posse de Jair Bolsonaro e da confraternização de réveillon organizada pela família no início de 2019.
Após a eleição, Junqueira diz que Eduardo pediu ao então deputado estadual Gil Diniz (PL) que o nomeasse para um cargo em seu gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Gil Diniz havia sido assessor parlamentar de Eduardo Bolsonaro entre 2015 e 2018.
Relato sobre o cofre
Segundo Junqueira, durante reuniões de organização do gabinete de Gil Diniz, em novembro de 2018, ele participou de uma conversa envolvendo o deputado estadual e Sonaira Fernandes, então assessora de Eduardo Bolsonaro e atualmente vereadora na capital paulista, além de candidata à Alesp.
De acordo com seu relato, Sonaira teria comentado sobre a existência do cofre e sobre o suposto esquema de devolução de salários.
“Duda [Eduardo Bolsonaro] tinha dois [funcionários] no gabinete que ganhavam cheio e devolviam a metade. E nós tínhamos um cofre no gabinete e pegávamos essa metade e colocava no cofre e juntou R$ 250 mil. Um belo dia, o Duda chegou lá, passou a mão nesses R$ 250 mil para dar de entrada no apartamento e chegou na campanha nós não tínhamos R$ 5 mil pra pagar uma nota de campanha”, afirmou Junqueira.
Ele também declarou que a administração dos valores ficaria sob responsabilidade de Eric de Castro Roma, assessor do gabinete e agente administrativo da Polícia Federal. Segundo a reportagem do ICL Notícias, ele não foi localizado para comentar as acusações.
Entrega de dinheiro em espécie
Junqueira afirmou ainda que chegou a entregar dinheiro em espécie para Gil Diniz por determinação de Eduardo Bolsonaro.
“Eu tava com o Eduardo e no outro dia eu ia pegar o Gil e ele me deu o dinheiro na minha mão pra passar pro Gil e eu entreguei pro Gil. Eram R$ 3 mil. (…) O Gil foi exonerado, porém ele não deixou de receber salário. Ele continuou recebendo no rateio do gabinete.”
Compra de imóveis
As novas declarações voltam a chamar atenção para transações imobiliárias de Eduardo Bolsonaro que já haviam sido alvo de reportagens anteriores.
Em 2020, reportagem publicada por Juliana Dal Piva e Chico Otavio, no jornal O Globo, revelou que o então deputado utilizou R$ 150 mil em dinheiro vivo na compra de dois apartamentos no Rio de Janeiro.
Um dos imóveis, localizado em Botafogo, foi adquirido em dezembro de 2016 por R$ 1 milhão. A escritura registra o pagamento de R$ 100 mil em espécie no ato da compra, além de um sinal de R$ 81 mil e financiamento de R$ 800 mil pela Caixa Econômica Federal.
O outro apartamento, em Copacabana, foi comprado em 2011 por R$ 160 mil. O documento registra um pagamento de R$ 50 mil em dinheiro vivo, complementado por um cheque administrativo de R$ 110 mil. A escritura também aponta que o imóvel foi adquirido por valor cerca de 30% inferior à avaliação fiscal da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Em setembro de 2022, Eduardo Bolsonaro admitiu, em vídeo publicado em seu canal no YouTube, que utilizou dinheiro em espécie na compra do apartamento em Copacabana.
“O apartamento custou R$ 160 mil e nem um terço dele foi pago com dinheiro vivo. Tudo totalmente condizente com o meu salário, e a Folha/UOL só sabe disso porque, primeiro, nós não usamos laranjas e, segundo, eu detalhei a forma de pagamento na escritura”, declarou.
Ainda em 2020, a Procuradoria-Geral da República abriu uma apuração preliminar sobre as aquisições dos imóveis, mas arquivou o procedimento sem realizar diligências. Segundo a reportagem, Eduardo Bolsonaro nunca explicou a origem dos recursos utilizados nos pagamentos em espécie.
Direito de resposta
O ICL Notícias informou que tentou contato com Eduardo Bolsonaro e Sonaira Fernandes, mas não recebeu resposta.
Gil Diniz afirmou ao veículo que desconhece a existência de qualquer cofre no gabinete de Eduardo Bolsonaro. No entanto, segundo a reportagem, ele não respondeu aos questionamentos sobre o suposto recebimento de dinheiro em espécie durante a campanha de 2018.
Situação de Eduardo Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos com a família desde o início de 2025. Seu mandato de deputado federal foi cassado por acúmulo de faltas decorrentes da permanência no exterior.
Em junho deste ano, ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo, decisão que também resultou em sua inelegibilidade por oito anos.
Histórico de denúncias
As acusações de Junqueira contra aliados de Eduardo Bolsonaro não são inéditas. Em 2019, ele denunciou Gil Diniz ao Ministério Público de São Paulo, alegando que servidores do gabinete eram coagidos a devolver parte dos salários.
O procedimento foi arquivado em setembro de 2020. Na decisão, o promotor Ricardo Manuel Castro reconheceu indícios de saques em espécie feitos por assessores próximos às datas de pagamento dos salários, mas concluiu que não havia elementos suficientes para comprovar que os valores eram destinados ao deputado estadual.
Posteriormente, Gil Diniz processou Junqueira por danos morais, mas a ação foi julgada improcedente pela Justiça.
Eduardo Bolsonaro guardou R$ 250 mil de “rachadinha” em cofre, diz ex-aliado
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