A informação falsa de que Flávio Bolsonaro teria feito pós-graduação em Ciência Política na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) não ficou restrita aos perfis oficiais do senador na Alerj e no Senado. Documentos levantados pela Fórum mostram que o currículo inexistente atravessou o país e foi usado até para justificar honrarias propostas a Flávio por parlamentares aliados.
A Fórum encontrou a referência à suposta formação na UFRJ em propostas de homenagem apresentadas em Santo André (SP), Goiás e Espírito Santo. Em dois dos casos, Santo André e Espírito Santo, a informação aparece no próprio documento legislativo que propõe a homenagem. Em Goiás, ela consta tanto da justificativa original assinada pelo autor da proposta quanto da página oficial da Assembleia Legislativa criada para divulgá-la.
Não se trata, portanto, apenas de uma informação publicada por terceiros em páginas da internet. Em Santo André e Goiás, os textos atribuindo a Flávio uma passagem pela UFRJ constam de proposições apresentadas por parlamentares do PL, partido do senador. No Espírito Santo, a afirmação aparece em projeto apresentado pelo deputado Alcântaro Filho (Republicanos), que declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro afirma que não há registro de Flávio Nantes Bolsonaro como aluno em seu Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (Siga). Depois da revelação do caso, a campanha disse que as referências à formação seriam fruto de “erros ou equívocos” e levantou a possibilidade de a informação ter sido extraída de páginas como a Wikipédia.
O novo levantamento amplia o tamanho do problema: a mesma formação acadêmica inexistente foi transformada em argumento para homenagear o senador em diferentes Legislativos estaduais e municipais.
Santo André: a falsa pós na UFRJ virou argumento para conceder título
O caso mais explícito está na Câmara Municipal de Santo André, no ABC paulista.
Em fevereiro de 2026, o vereador Major Vitor Santos apresentou projeto para conceder o Título de Cidadão Honorário de Santo André a Flávio Bolsonaro. A justificativa do documento dedica uma seção específica à formação acadêmica do senador.
Sob o intertítulo “Formação e Reconhecimento”, o texto afirma:
“Com sólida formação acadêmica, é Bacharel em Direito pela Universidade Cândido Mendes, Pós-graduado em Ciências Políticas pela UFRJ e Técnico em Eletrônica.”
Não é uma referência lateral. O currículo aparece exatamente no trecho em que o autor enumera as qualidades e reconhecimentos que, em sua avaliação, justificariam a homenagem. Logo após mencionar a UFRJ, o projeto lista outras honrarias já recebidas por Flávio e, ao final, pede apoio dos demais vereadores à concessão do título.
Projeto que concede título de Cidadão Honorário de Santo André a Flávio Bolsonaro afirma que ele é “Pós-graduado em Ciências Políticas pela UFRJ”. Reprodução/Câmara Municipal de Santo André
O documento foi assinado pelo vereador Major Vitor Santos. A proposta deixa expresso no artigo primeiro que a Câmara concederia a Flávio Nantes Bolsonaro o Título de Cidadão Honorário e prevê a realização de sessão solene para a entrega da honraria.
A página é especialmente importante porque reúne no mesmo documento três elementos: a homenagem a Flávio, a alegação de que ele cursou a UFRJ e a justificativa para conceder o título.
Goiás: mentira aparece na justificativa assinada por Major Araújo
Em Goiás, a documentação é igualmente direta.
O deputado estadual Major Araújo (PL) apresentou na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) o projeto para conceder a Flávio Bolsonaro o Título Honorífico de Cidadão Goiano. A proposição tramita no processo nº 8303/2026 e foi registrada como Projeto de Lei de Título de Cidadão nº 97/2026.
Na primeira página, o texto determina:
“Fica concedido ao SENADOR FLÁVIO NANTES BOLSONARO o Título Honorífico de Cidadão Goiano.”
Na página seguinte vem a justificativa assinada pelo parlamentar do PL. É justamente aí que reaparece a formação inexistente:
“Possui graduação em direito pela Universidade Cândido Mendes e especializações em ciência política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em políticas públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e em empreendedorismo pela Fundação Getúlio Vargas.”
A informação, portanto, não foi acrescentada por um veículo de imprensa ao noticiar a proposta. Ela está na peça original do processo legislativo, apresentada por Major Araújo, identificado no próprio documento como “Deputado Estadual do PL”.
Justificativa do projeto de Major Araújo (PL) que concede cidadania goiana a Flávio Bolsonaro atribui ao senador especialização em Ciência Política pela UFRJ. Reprodução/Alego
A própria Agência Assembleia de Notícias também reproduziu a mesma biografia ao anunciar, em 18 de maio, que Major Araújo havia protocolado a cidadania para Flávio. A página oficial afirma novamente que o senador possui especialização em Ciência Política pela UFRJ.
A homenagem avançou até o fim da tramitação. O sistema oficial da Alego registra aprovação em discussão e votação única nominal em 17 de junho e, em 25 de junho, o processo foi encaminhado para arquivamento como “Projeto de Lei Aprovado e Sancionado”.
Espírito Santo: projeto de cidadania repete a mesma UFRJ
A mesma biografia chegou à Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) meses antes.
Em 9 de dezembro de 2025, o deputado estadual Alcântaro Filho (Republicanos) apresentou o Projeto de Decreto Legislativo nº 158/2025. O processo oficial da Assembleia identifica Flávio Nantes Bolsonaro como homenageado e Alcântaro Filho como autor da proposição.
O objetivo do projeto é conceder a Flávio o Título de Cidadão Espírito-Santense.
Na justificativa, ao apresentar a trajetória do homenageado, o texto volta a atribuir ao senador a formação na universidade federal:
“Flávio Bolsonaro é graduado em direito pela Universidade Candido Mendes e concluiu especializações em ciências políticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro…”
Mais uma vez, a informação não está em uma matéria jornalística sobre Flávio. Ela consta do documento legislativo criado especificamente para conceder uma honraria ao senador. O projeto está registrado no processo nº 29016/2025, protocolo nº 31958, no sistema da Assembleia capixaba.
Alcântaro Filho não pertence ao PL, mas integra a base política que se aproximou da candidatura de Flávio. Em publicação posterior, o deputado declarou apoio ao senador na disputa presidencial.
Projeto apresentado na Assembleia Legislativa do Espírito Santo para homenagear Flávio Bolsonaro afirma que ele concluiu especialização em Ciência Política na UFRJ. Reprodução/Ales
Os três episódios revelam uma característica em comum: a passagem pela UFRJ é apresentada como fato positivo da biografia de Flávio justamente em textos destinados a justificar ou divulgar homenagens públicas ao senador.
Alerj ainda exibe pós-graduação que UFRJ diz não existir
O rastro da informação é mais antigo e ajuda a dimensionar como o currículo se espalhou.
O perfil oficial de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde ele exerceu quatro mandatos como deputado estadual, ainda registra entre seus cursos acadêmicos:
“Pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ, Rio de Janeiro, RJ.”
A referência é particularmente relevante diante da explicação dada pela própria Assembleia. Questionada pela Folha sobre a origem das informações publicadas nas páginas dos deputados, a Alerj afirmou que os dados são encaminhados pelos próprios parlamentares.
Perfil oficial de Flávio Bolsonaro na Alerj registra “Pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ”; universidade afirma não ter registro dele como aluno. Reprodução/Alerj
O Senado também publicou a informação de que Flávio era pós-graduado em Ciências Políticas. Em matéria oficial de outubro de 2018 sobre sua eleição, a Agência Senado o apresentou como “bacharel em direito e pós-graduado em ciências políticas”. Outra reportagem institucional, publicada no mês seguinte, repetiu a mesma informação. Nesses textos, entretanto, o Senado não identifica a UFRJ como instituição responsável pelo curso.
UFRJ: não há registro de Flávio como aluno
O problema é que a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro nega que o senador tenha estudado na instituição.
Segundo resposta da universidade divulgada após a inconsistência vir à tona, não existe no Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (Siga) registro de Flávio Nantes Bolsonaro como aluno da UFRJ.
A formação acadêmica confirmada pela assessoria do senador é outra: graduação em Direito pela Universidade Cândido Mendes, pós-graduação em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e MBA em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas.
Ou seja: nenhuma das três formações confirmadas corresponde à especialização em Ciência Política na UFRJ repetida pelos documentos das honrarias.
Campanha fala em “erro ou equívoco” e cita Wikipédia
Após o desmentido da universidade, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que as informações divergentes seriam resultado de “erro ou equívoco” e que poderiam ter sido retiradas de páginas como a Wikipédia. A equipe informou ainda que havia solicitado correções.
A explicação, entretanto, não esclarece como a formação inexistente chegou a tantos registros institucionais — e, agora, também a projetos de homenagens apresentados por aliados em diferentes estados.
No caso de Santo André, a falsa pós-graduação aparece dentro da justificativa assinada por um vereador do PL. Em Goiás, consta da justificativa original de Major Araújo e foi novamente divulgada pela agência oficial da Assembleia. No Espírito Santo, a mesma UFRJ foi incorporada à biografia usada em um projeto de decreto legislativo para transformar Flávio em cidadão espírito-santense.
Os documentos, isoladamente, não permitem afirmar quem forneceu o currículo a cada um dos gabinetes, tampouco provam que Flávio Bolsonaro tenha revisado pessoalmente os textos antes de sua apresentação.
Mas demonstram algo objetivo: uma formação acadêmica que a UFRJ afirma não existir foi repetida em documentos oficiais produzidos para homenagear Flávio Bolsonaro e usada como elemento de valorização de sua trajetória.
E isso ocorreu não uma única vez, mas em três Legislativos diferentes, em três estados, por proposições de parlamentares politicamente alinhados ao senador.
Flávio Bolsonaro: mentira sobre diploma da UFRJ foi propagada em honrarias propostas por aliados
💬 Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar!