A Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, não impede o compartilhamento de anúncios com desinformação sobre as eleições brasileiras, revelou um experimento realizado pela Anistia Internacional Brasil.
Para testar a política de moderação e combate à desinformação do Facebook, a Anistia Internacional Brasil apresentou 15 anúncios direcionados à população em idade de votar, com 14 deles contendo desinformação eleitoral. O resultado do experimento mostrou que 8 deles foram aceitos e 7 marcados para verificação, mas não necessariamente rejeitados pelo seu conteúdo.
Para a ONG, é “extremamente alarmante que o sistema de moderação da Meta não tenha detectado mais da metade dos anúncios relacionados às eleições que continham desinformação”.
“Isso demonstra que a Meta não está fazendo o suficiente para impedir que sua plataforma seja um vetor de desinformação, enquanto continua lucrando com o conteúdo e os sistemas de publicidade que permitem sua disseminação”, afirma Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil.
A publicação de todos os anúncios foi programa para uma data futura, o que permitiu que a Anistia Internacional evitasse a publicação.
O conteúdos dos anúncios
Ao todo, a Anistia apresentou 15 anúncios ao Facebook, dos quais apenas um continha conteúdo neutro. Os outros espalhavam falsas denúncias de fraude eleitoral ou usavam de desinformação para promover um golpe militar. Os anúncios eram direcionados à população em idade de votar e foram baseados em narrativas eleitorais reais que circulam em redes sociais do Brasil.
Os 14 anúncios de desinformação foram divididos em três táticas s frequentemente utilizadas por políticos e candidatos para apoiar práticas autoritárias:
Deslegitimação eleitoral: conteúdo destinado a minar a confiança nas eleições, nos sistemas de votação ou nos resultados eleitorais.
Construção do inimigo: retratar os oponentes políticos e os tribunais como ameaças à nação ou atores ilegítimos.
Autoritarismo centrado na segurança: retratar a força, a intervenção militar ou o autoritarismo repressivo como respostas necessárias ao crime ou à desordem política.
A anistia ressalta que todos os anúncios, exceto o neutro, violaram a política da Meta sobre desinformação, especificamente sua seção sobre “Interferência Eleitoral ou Censitária”. Ainda assim, mais da metade foi aceita.
Sete dos anúncios criados pela Anistia Internacional focavam em alegações deliberadamente enganosas sobre candidatos e instituições eleitorais, como acusações de que certos candidatos estavam fraudando as eleições e questionando a integridade do sistema eleitoral. Os outros sete incluíam informações falsas que poderiam afetar a capacidade das pessoas de votar, como detalhes incorretos sobre quando ou como votar, ou sobre quem estava concorrendo ao cargo.
O experimento ainda mostrou que os sistemas de moderação do Facebook se mostraram mais eficazes em reconhecer anúncios que retratavam opositores políticos como “criminosos”, “traidores” ou “agentes ilegítimos”. Um dos anúncios de teste, por exemplo, afirmava que “Lula [o presidente do Brasil] vai roubar a eleição”. Ao todo, cinco dos sete anúncios com esse mesmo tipo de conteúdo foram rejeitados.
No entanto, três dos quatro anúncios com conteúdo militarista contrário ao Estado democrático e que incitavam um golpe militar foram aceitos pelo Facebook. Um desses anúncios afirmava: “Precisamos de uma revolução militar, não votem nas eleições, o exército retomará o poder se a abstenção ultrapassar 50%!”.
A Anistia ainda ressalta que os anúncios rejeitados foram sinalizados para verificação da identidade do anunciante com base nas políticas sobre questões sociais do Facebook, e não porque continham desinformação eleitoral. Para Ummar Bashir, pesquisador e consultor em Inteligência Artificial e Direitos Humanos, isso “levanta sérias preocupações sobre a aplicação consistente das medidas de segurança relacionadas às eleições”.
Bashir ainda acrescenta que “em vez de salvaguardar a participação eleitoral, o acesso à informação verídica e os direitos humanos, esses sistemas representam um risco de permitir a aprovação de conteúdo prejudicial”.
Risco campanhas de desinformação por atores estrangeiros
A Anistia ainda chama atenção para o fato de que os pesquisadores que realizaram o experimento não estavam no Brasil nem usaram uma VPN para que parecesse que os anúncios eram apresentados dali. Portanto, isso levanta preocupações sobre o risco de que atores estrangeiros lancem campanhas de desinformação que possam influenciar os processos eleitorais de outros países, segundo a ONG.
“O fato de os anúncios poderem ser submetidos de fora do Brasil levanta preocupações de que a verificação e o controle de informações inadequados possam criar vulnerabilidades que poderiam ser exploradas por atores nacionais ou estrangeiros para tentar influenciar o processo eleitoral”, afirma a Anistia.
Questionada pela Anistia no dia 21 de julho, que solicitou uma resposta às alegações de que os sistemas de moderação de anúncios do Facebook não detectaram desinformação relacionada às eleições e expressando preocupação com a adequação dos sistemas da empresa para identificar, avaliar e mitigar riscos aos direitos humanos, a Meta ainda não respondeu.
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