Jornal Nacional: Flávio Bolsonaro mentiu e foi “corrigido” por Tralli e Renata Vasconcellos ao menos 6 vezes

Jornal Nacional: Flávio Bolsonaro mentiu e foi “corrigido” por Tralli e Renata Vasconcellos ao menos 6 vezes
Jornal Nacional: Flávio Bolsonaro mentiu e foi “corrigido” por Tralli e Renata Vasconcellos ao menos 6 vezes 2

Flávio Bolsonaro (PL) entrou no estúdio da Globo na noite de sexta-feira (28) disposto a apresentar sua versão sobre os principais temas que envolvem sua candidatura à Presidência. Em 40 minutos de entrevista com César Tralli e Renata Vasconcellos, porém, o candidato foi obrigado a lidar com uma situação que costuma ser desconfortável para ele: os entrevistadores apresentaram fatos que contrariavam mentiras ditas por ele em ao menos seis situações incômodas.
A análise da íntegra da entrevista foi feita pelo Fórum Investiga, o núcleo de jornalismo investigativo da Fórum, a partir dos vídeos e da transcrição. O cruzamento dos trechos com o conteúdo audiovisual, identifica ao menos seis momentos em que Tralli ou Renata corrigiram, confrontaram ou apresentaram fatos que contrariavam diretamente declarações de Flávio.
O levantamento considera como “correção” não apenas as situações em que os jornalistas dizem literalmente “isso não é verdade”, mas também aquelas em que apresentam documentos, dados, informações oficiais ou evidências científicas que contradizem uma afirmação factual do candidato.
Veja os momentos em que Flávio Bolsonaro foi desmentido no Jornal Nacional
1. A tentativa de golpe não foi uma “farsa”
Um dos momentos mais contundentes ocorreu quando Flávio tentou desqualificar as investigações sobre a tentativa de golpe de Estado durante o governo de Jair Bolsonaro.
O candidato chamou o processo de uma “grande farsa” e afirmou que havia sido construída uma “montagem” para condenar seu pai e outros envolvidos.
Tralli não deixou a afirmação sem resposta. O jornalista contrapôs à versão de Flávio os elementos reunidos pela investigação da Polícia Federal, entre eles o documento localizado na casa do coronel Mauro Cid que detalhava o plano para assassinar o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
A questão não era, portanto, uma mera divergência de opiniões políticas. Havia um documento apreendido pela PF e incorporado à investigação, além de depoimentos e outros elementos que embasaram as condenações.
Flávio, contudo, manteve a tese de que tudo não passava de uma armação, mesmo diante das provas que foram acolhidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para condenar o pai, Jair Bolsonaro (PL), a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar a organização criminosa que tentou um golpe de Estado.
2. “A empresa venezuelana não fabricou as urnas”: o próprio Flávio admite a mentira
Foi o caso mais explícito da entrevista. Renata lembrou que Flávio havia afirmado que as urnas eletrônicas brasileiras eram fabricadas por uma empresa venezuelana — informação que já havia sido desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral.
A jornalista colocou a declaração anterior diante do candidato e o questionou sobre a afirmação. Flávio recuou: “Falei errado, ela não fabricou as urnas”.
A admissão é particularmente relevante porque não se trata de uma interpretação da resposta. O próprio candidato reconheceu que mentiu.
3. Aquecimento global: “saneamento básico” para disfarçar negacionismo
Outro momento emblemático ocorreu quando Renata questionou Flávio sobre sua posição em relação às mudanças climáticas. A pergunta era direta: diante das evidências científicas sobre o aquecimento global, por que o tema não aparecia de forma mais clara em seu plano de governo?
Em vez de responder diretamente se reconhecia a existência e a contribuição humana para o aquecimento global, Flávio deslocou a resposta para saneamento básico, esgoto, lixões e eventos climáticos extremos. Renata voltou ao ponto:
“Então, deixa eu só entender, então, o senhor acha que não tem aquecimento global? Não existe?”
Diante da resposta de Flávio sobre ciclos climáticos, a jornalista novamente o confrontou. “Isso não é negar as evidências científicas, candidato?”
Aqui, portanto, não se trata de “opiniões diferentes”. A existência do aquecimento global e a influência humana sobre o clima são questões científicas, sustentadas por evidências acumuladas.
4. A carta a Trump e o Tarifaço
O quarto episódio envolve o tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump ao Brasil. Flávio tentou apresentar sua atuação nos Estados Unidos como uma iniciativa para cancelar as tarifas e proteger empresas brasileiras.
Renata, porém, recorreu ao documento apresentado pelo próprio candidato para mostrar uma diferença fundamental: a carta não pedia o encerramento da investigação nem o cancelamento imediato da medida; pedia o adiamento de sua implementação.
A jornalista foi explícita: “Na carta (…) não se pede (…) que se encerre a investigação. Pede-se adiar a implementação da medida”. E acrescentou que a investigação mencionada na carta já estava concluída.
Flávio tentou sustentar sua interpretação, mas o conteúdo documental apresentado por Renata contrariava a maneira como ele havia descrito sua atuação.
5. A prestação de contas do filme “Dark Horse”
O primeiro grande bloco da entrevista foi dedicado à relação de Flávio com Daniel Vorcaro e ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro.
Flávio afirmou que a prestação de contas do projeto havia sido feita e que as informações eram públicas.
Tralli apresentou então um contraponto: o próprio G1 havia informado que o perito contratado para analisar os dados não teve acesso ao fundo americano e não conseguiu esclarecer completamente a origem e o destino dos recursos.
Ou seja, o problema não era simplesmente saber se havia algum documento publicado, mas se os documentos disponíveis eram suficientes para esclarecer a origem e o caminho dos R$ 61 milhões associados ao financiamento.
A discussão aparece justamente no momento em que Flávio tenta encerrar a questão da prestação de contas como se estivesse definitivamente esclarecida. O candidato ainda se negou a fornecer o suposto “contrato” com Daniel Vorcaro, algo que havia prometido no dia 19 de maio.
6. Adriano da Nóbrega já era alvo de acusações quando foi homenageado
O sexto caso envolve Adriano da Nóbrega, apontado como líder do Escritório do Crime, braço de extermínio da milícia de Rio das Pedras, que foi morto em 2020.
Questionado sobre a homenagem que concedeu a Adriano, Flávio sustentou que, naquele momento, ele era visto como um policial de destaque e que “não tinha feito absolutamente nada de errado”.
Renata contrapôs a informação de que Adriano já estava preso por homicídio e era alvo de acusações graves naquele período.
O ponto é importante porque a defesa de Flávio depende justamente da ideia de que as acusações contra Adriano seriam posteriores à homenagem. A intervenção de Renata confronta essa cronologia. Além disso, a jornalista lembrou a contratação de parentes do miliciano em cargos comissionados no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro.

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