Entrevista ao JN: Tralli fez menos da metade das perguntas do que Renata Vasconcellos a Lula; veja dados

Entrevista ao JN: Tralli fez menos da metade das perguntas do que Renata Vasconcellos a Lula; veja dados
Entrevista ao JN: Tralli fez menos da metade das perguntas do que Renata Vasconcellos a Lula; veja dados 2

Na entrevista concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Jornal Nacional na última quinta-feira (27), César Tralli fez menos da metade das perguntas formuladas por Renata Vasconcellos, sua colega de bancada. No total, foram 9 indagações do jornalista contra 20 da apresentadora. Renata também interrompeu Lula 11 vezes durante a sabatina, enquanto Tralli fez 3 interrupções. O levantamento exclusivo foi produzindo pelo Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum.
SAIBA MAIS:
Jornal Nacional: Flávio Bolsonaro mentiu e foi “corrigido” por Tralli e Renata Vasconcellos ao menos 6 vezes
A diferença não significa, por si só, que um dos jornalistas tenha sido mais ou menos duro com o presidente. Mas revela uma diferença objetiva na condução da entrevista: de cada três perguntas feitas a Lula, aproximadamente duas partiram de Renata e uma de Tralli. Nas interrupções, a apresentadora também teve participação maior: foram 11 contra 3 do jornalista.
O levantamento foi feito a partir das transcrições das entrevistas, cruzadas com os vídeos. Para a contagem, foram consideradas perguntas e repreguntas dirigidas ao candidato. Nas interrupções, foi adotado um critério mais restritivo: só entra na conta quando um dos participantes começa a falar enquanto o outro ainda está desenvolvendo a resposta, interrompendo sua linha de raciocínio.

Renata concentrou os questionamentos em Lulinha, INSS e dívida
A entrevista começou com Renata questionando Lula sobre as investigações envolvendo seu filho, Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, e a lobista Roberta Luchsinger.
A jornalista apresentou mensagens obtidas pela Polícia Federal e perguntou se o presidente considerava adequada a relação descrita nos documentos. Lula reagiu lembrando sua própria experiência durante a Lava Jato e afirmou que, se o filho tivesse cometido algum erro, deveria responder por ele.
Na sequência, Renata avançou para o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. A pergunta foi se a relação dele com a lobista e a atuação para viabilizar uma reunião no Ministério da Saúde não levariam suspeitas para dentro do Palácio do Planalto.
Lula reconheceu que a situação gerava suspeitas, mas defendeu que as investigações deveriam ser concluídas antes de qualquer condenação.
Tralli participou desse primeiro bloco com perguntas sobre a atuação do governo diante das denúncias envolvendo o INSS, a responsabilidade de autoridades pela demora na apuração das fraudes e as medidas adotadas para ressarcir aposentados e pensionistas. O jornalista também questionou Lula sobre a política econômica, especialmente a trajetória da dívida pública, os juros e a ausência de metas mais claras para um eventual novo mandato.
INSS vira segundo grande confronto da entrevista
Pouco depois, Renata levou para a entrevista o escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões.
A jornalista lembrou que mais de 4 milhões de aposentados e pensionistas haviam sido vítimas dos descontos e questionou Lula sobre a atuação de seu governo e do então ministro da Previdência, Carlos Lupi. Lula respondeu que o governo havia investigado o esquema, que tem origem na gestão de Jair Bolsonaro (PL), e fez o ressarcimento dos aposentados.
Renata insistiu no tempo levado para a investigação e lembrou que Lupi havia sido alertado sobre indícios de irregularidades antes da operação da Polícia Federal. Lula respondeu que a demora era necessária para não desmontar a investigação e afirmou que o ex-ministro acabou deixando o governo.
A jornalista voltou ao tema ao questionar o apoio de Lula a Lupi mesmo depois dos problemas. O presidente defendeu o ex-ministro e argumentou que ele não havia sido condenado. O assunto permaneceu entre os momentos de maior confronto da entrevista.
Banco Master e Wagner levam Lula a contestar as perguntas
Renata também questionou Lula sobre o senador Jaques Wagner e sua relação com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A jornalista lembrou que a Polícia Federal investigava se Wagner teria recebido um apartamento como propina para atuar em favor dos interesses de Vorcaro. Lula respondeu que não havia comprovação da relação e repetiu que não poderia fazer política com base em “ilações”.
Quando Renata insistiu sobre o fato de Lula ter pedido votos para Wagner apesar das investigações, o presidente manteve a defesa do aliado e afirmou que todos são inocentes até prova em contrário. Foi um dos momentos em que a entrevista deixou de ser apenas uma sequência de pergunta e resposta e passou a uma disputa sobre a própria premissa apresentada pela jornalista.
A discussão sobre a Lava Jato
Outro momento de embate ocorreu quando Lula voltou a falar sobre a Lava Jato e a cobertura da imprensa. O presidente criticou a forma como as acusações contra ele foram apresentadas no período da operação e afirmou ter sido vítima de uma narrativa que, segundo ele, levou à sua prisão.
A discussão ganhou um componente adicional porque Lula passou a questionar diretamente a atuação jornalística, citando o Power Point de Deltan Dallagnol. Renata reagiu defendendo o trabalho da imprensa e Tralli tentou, sem sucesso, se justificar sobre outro Power Point, feito pela GloboNews sobre o caso Master – que foi tirado do ar por erros crassos.
O episódio é relevante porque mostra uma característica que aparece em outros momentos da entrevista: Lula não apenas respondia às perguntas, mas em determinados momentos contestava a formulação utilizada pelos entrevistadores.
Dívida pública e a defesa do mercado
Já na parte econômica, Renata questionou Lula sobre a trajetória da dívida pública, que havia ultrapassado R$ 10 trilhões, e sobre a ausência de metas explícitas para os próximos quatro anos, ecoando o discurso do mercado e dos agentes da Faria Lima.
A pergunta levou a uma das respostas mais longas da entrevista. Lula começou contestando a própria maneira como o tema havia sido apresentado e passou a defender sua política econômica, citando crescimento, investimentos, juros e resultados fiscais.
O presidente também aproveitou a resposta para apresentar suas prioridades para um eventual novo mandato, entre elas investimentos em tecnologia, inteligência artificial, minerais críticos e terras raras.
O debate sobre dívida foi, assim, mais do que uma pergunta sobre números: tornou-se uma disputa sobre qual deveria ser a régua para avaliar a política econômica do governo.
Educação e segurança encerram a entrevista
No trecho final, Renata levou Lula para educação. Questionou os resultados de aprendizagem dos estudantes da rede pública e perguntou quais seriam as propostas para melhorar o desempenho.
Lula respondeu destacando investimentos em educação, escolas de tempo integral, alfabetização, Pé-de-Meia, universidades e institutos federais. Na segurança pública, as perguntas passaram pelo papel do governo federal no combate ao crime organizado e pela situação dos estados.

Ver mais

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!