O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, reuniu-se, neste domingo (30), com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, em um hotel no centro de São Paulo.
Após o encontro, o filho do ex-presidente de condenado, Jair Bolsonaro (PL), defendeu o encarceramento em massa como política de segurança e propôs a criação de 500 mil novas vagas em presídios, ignorando que o Brasil já tem a terceira maior população carcerária do mundo e que o modelo que inspira sua proposta é alvo de denúncias internacionais de violações de direitos humanos.
Na saída do encontro com Villatoro, Flávio foi direto: “Tem pouco preso no Brasil, tinha que ser mais. Só não tem mais porque a legislação é frouxa. Por isso, vamos criar mais meio milhão de vagas em presídios para que ladrão de celular que comece com pena de no mínimo 8 anos de cadeia fique preso, não apenas seja preso”.
A declaração ignora um dado preocupante: o Brasil já registra cerca de 965 mil pessoas presas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o que coloca o país atrás apenas de Estados Unidos e China em população carcerária absoluta.
Flávio estimou que a criação das novas vagas custaria entre R$ 35 bilhões e R$ 40 bilhões em quatro anos. Para financiar a conta, disse que fará cortes de despesas, sem especificar quais, e contará com receitas da exploração de petróleo na Margem Equatorial.
O candidato também prometeu investir em tecnologia para tornar os presos “incomunicáveis” e articular uma maioria parlamentar de direita no Congresso para aprovar mudanças na legislação penal. Ao seu lado no encontro estavam o vice Alfredo Gaspar (PL-AL) e o senador Sergio Moro (PL-PR), candidato ao governo do Paraná.
“Modelo Bukele” e as críticas
Desde 2019, o presidente Nayib Bukele governa El Salvador com base em prisões em massa, estado de exceção e forte presença militar. Em três anos, mais de 80 mil pessoas foram detidas por suposta ligação com gangues, frequentemente sem provas ou acesso à defesa.
A população carcerária do país disparou para cerca de 120 mil pessoas, o equivalente a 2% dos habitantes, a maior taxa de encarceramento por habitante do mundo. Para abrigar os detidos, Bukele construiu o CECOT, megapresídio com capacidade para 40 mil pessoas, sem visitas ou comunicação externa.
Relatório da Human Rights Watch aponta que mais de 90 mil pessoas foram presas arbitrariamente sob o regime de Bukele, incluindo mais de 3 mil crianças.
A Anistia Internacional também denuncia torturas, mortes sob custódia e detenções sem mandado judicial. E há uma camada que Flávio não mencionou ao elogiar o modelo: investigações do jornal salvadorenho El Faro apontam que Bukele firmou um pacto secreto com a gangue Mara Salvatrucha-13 (MS-13) para reduzir o número de homicídios, o que colocaria a queda da violência sob outra luz.
Contradições e implicações das propostas de Flávio
A proposta de gastar até R$ 40 bilhões na construção de presídios convive mal com outra promessa central da campanha de Flávio: o “tesouraço” nos gastos públicos e o corte de cargos comissionados. O candidato não explicou como conciliaria os dois compromissos.
Especialistas em segurança alertam que o encarceramento em massa carrega riscos próprios ao contexto brasileiro. Os presídios do país funcionam historicamente como espaço de recrutamento e organização de facções: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) nasceram dentro do sistema prisional. Jogar mais pessoas nesse ambiente, sem reformar sua dinâmica interna, tende a fortalecer as mesmas estruturas que a proposta diz combater.
“Tem pouco preso no Brasil”, diz Flávio Bolsonaro em encontro com ministro de Bukele
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