Erro em pesquisa Vox inverte resultado e põe Flávio Bolsonaro à frente de Lula

Erro em pesquisa Vox inverte resultado e põe Flávio Bolsonaro à frente de Lula
Lula e Flávio na Quaest - O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (Marcelo Camargo e Lula Marques/Agência...

Um erro estatístico e aritmético estrutural invalida a coerência interna do relatório da pesquisa de intenção de voto para o segundo turno presidencial publicada pelo Instituto Vox Brasil, liberada ao público no sábado (29). O levantamento, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-05519/2026, apresenta um resultado geral que não encontra sustentação matemática quando confrontado com a própria distribuição demográfica e os cruzamentos por subgrupos publicados no documento oficial. Quem primeiro apontou equívoco estatístico nas redes foi o analista de mercado financeiro e trader Victor Garcia.
Enquanto a tabela consolidada de intenção de voto divulgada pelo instituto aponta o Flávio Bolsonaro (PL) com 45,1% e Lula (PT) com 44,5%, a recomposição aritmética rigorosa dos extratos de sexo e faixa etária, metodologia padrão para aferição da consistência de dados amostrais, revela um resultado inversamente proporcional, com Lula liderando numericamente a disputa.
Incompatibilidade matemática no estrato por Sexo
A divergência é matematicamente demonstrável a partir das tabelas fornecidas pelo próprio instituto Vox Brasil nas páginas 4, 11 e 12 do relatório técnico. Conforme os dados de composição amostral (página 4), o eleitorado pesquisado é composto por 52,8% de mulheres e 47,2% de homens.
Na segmentação das intenções de voto por sexo (página 12), o relatório registra que, no segmento feminino, Lula soma 52,0% das preferências, contra 36,1% de Flávio. Entre os homens, Flávio aparece na frente com 46,5%, enquanto Lula obtém 41,5%.
Em qualquer levantamento estatístico baseado em amostragem estratificada, o resultado total da população deve corresponder exatamente à média ponderada dos subgrupos populacionais que a integram. Ao recalcular o total geral multiplicando o percentual de cada candidato pela representação exata de homens e mulheres no eleitorado, obtém-se o valor real projetado pela amostra.
No caso de Lula, a soma do percentual apurado entre as mulheres (correspondente a 27,45 pontos percentuais do total) com o obtido entre os homens (19,58 pontos) resulta em 47,0% da preferência global. Já para Flávio, a combinação de seu desempenho no eleitorado feminino (19,06 pontos) e no masculino (21,95 pontos) atinge 41,0% do total.
A reconstituição dos dados brutos por sexo produz, portanto, um cenário com Lula registrando 47,0% e Flávio com 41,0%. A distorção apurada revela que o número divulgado subavalia o desempenho de Lula em 2,5 pontos percentuais e infla o resultado de Flávio em 4,1 pontos percentuais, gerando uma desconexão líquida acumulada de 6,6 pontos percentuais entre os dados setoriais e o gráfico consolidado da página 11.
Repetição do padrão nos dados por Faixa Etária
A incoerência não se restringe à variável de sexo. O mesmo procedimento de verificação aplicado à distribuição demográfica por idade, estruturada no relatório em nove faixas etárias (variando de 16 anos a mais de 69 anos), confirma a presença da falha de cálculo.
A amostragem etária publicada pelo instituto divide o eleitorado em: 16 anos (0,4%), 17 anos (0,7%), 18 a 20 anos (4,3%), 21 a 24 anos (6,9%), 25 a 34 anos (19,1%), 35 a 44 anos (19,9%), 45 a 59 anos (25,5%), 60 a 69 anos (12,6%) e acima de 69 anos (10,6%). A soma das proporções das faixas perfaz exatamente 100,0% da amostra.
Ao ponderar a intenção de voto declarada em cada uma dessas nove faixas etárias pelo seu respectivo peso no eleitorado, o cálculo consolidado aponta *45,6% para Lula e 43,2% para Flávio*, reiterando a impossibilidade de se atingir os valores finais divulgados (44,5% e 45,1%) com base nos cruzamentos informados no documento.
Implicações estatísticas e ausência de Memória de Cálculo
A análise estatística e de amostragem eleitoral aponta que a divergência apresentada não decorre de meros arredondamentos decimais, dada a magnitude das diferenças apuradas. Há três hipóteses técnicas principais para explicar a origem do erro no relatório:

Erro material de digitação ou transcrição gráfica na confecção final da tabela da página 11 ou nas tabelas de cruzamento da página 12;
Aplicação de fatores de ponderação demográfica não declarados no relatório técnico ou aplicados de forma assimétrica entre o banco de dados global e os relatórios setoriais;
Incoerência no filtro amostral, como a mistura entre intenção de voto total (incluindo nulos, brancos e indecisos) e voto válido em tabelas distintas sem o devido aviso metodológico.

Para se restabelecer uma consistência técnica do levantamento BR-05519/2026, seria indispensável que o Instituto Vox Brasil publicasse a memória de cálculo completa, esclarecendo os pesos populacionais aplicados ou corrigindo formalmente o relatório técnico para sanar as divergências entre os cruzamentos e a tabela geral.
Posicionamento do Vox Brasil
A reportagem da Fórum encaminhou um pedido de posicionamento para o Instituto Vox Brasil, solicitando explicações sobre as inconsistências aritméticas apresentadas no levantamento. O Departamento de Análises do Vox Brasil encaminhou à redação um relatório atualizado do levantamento e afirmou que a tabela apontada com inconsistências possui caráter estritamente informativo e complementar. Segundo o instituto, o gráfico em questão não integra a metodologia formal da pesquisa, não consta no registro do Tribunal Superior Eleitoral (PesqEle) e não causou qualquer interferência nos resultados finais apurados nas entrevistas de campo, que seguiriam devidamente fundamentados segundo os critérios adotados.

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