A Avenida Paulista transformou-se, nesta segunda-feira (7), no epicentro da estratégia eleitoral do Partido Liberal para o feriado da Independência. Disputando o Palácio do Planalto, o senador Flávio Bolsonaro (PL) utilizou o caminhão de som do ato político para direcionar ataques contínuos ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, esforçando-se para construir uma vinculação direta entre o magistrado e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu opositor direto na corrida presidencial.
Em um contexto de forte atrito institucional decorrente das recentes revelações de bastidores da Corte, o candidato do PL buscou transformar o descontentamento da militância em capital político para a sua campanha. No microfone, Flávio declarou expressamente que “quem vota em Lula tá votando em Alexandre de Moraes” e sinalizou para o eleitorado que o magistrado “vai cair”.
A narrativa adotada no palanque sustentou a tese de que existiria uma aliança tácita articulada nos bastidores do poder para interferir no cenário político nacional. Segundo o parlamentar, atua no país um “consórcio” de Lula com Moraes. Ele prometeu que, caso saia vitorioso das urnas em outubro, atuará de forma decisiva no Executivo com o objetivo declarado de “resgatar a credibilidade” do Supremo. Como seu pai, Flávio quer manter uma “guerra” contra a Suprema Corte, na intenção clara de manter a militância em engajamento permanente.
Tensão no STF e desdobramentos operacionais
O esforço de mobilização promovido pelas alas bolsonaristas na última semana ganhou tração após a divulgação de supostas mensagens trocadas entre Moraes e o empresário Daniel Vorcaro, ex-dono Banco Master. O episódio deflagrou um racha sem precedentes no Supremo. Parte do eleitorado presente na Paulista manifestou apoio ao ministro André Mendonça, relator do caso do banco, que na última terça-feira (1º) suspendeu o sigilo do relatório da Polícia Federal contendo os diálogos.
A medida de Mendonça gerou reação imediata de Moraes, que acionou o inquérito das fake news para requisitar apurações contra o colega de bancada sob as acusações de conduta incompatível com o cargo, abuso de autoridade e improbidade. O gesto intensificou a cisão no tribunal e motivou manifestações ostensivas de apoio a Mendonça durante o protesto, respaldadas até por uma mensagem pré-gravada de agradecimento divulgada pelo próprio magistrado aos fiéis evangélicos. O deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) chegou a reger um momento de aplausos da multidão direcionado ao relator.
Por outro lado, o tema Banco Master atinge a própria pré-campanha do senador. Investigações conduzidas pela PF buscam esclarecer a solicitação de aportes milionários feita por Flávio a Vorcaro em maio para a produção do longa-metragem Dark Horse, obra cinematográfica focada na trajetória de Jair Bolsonaro. Embora o parlamentar afirme que não há quaisquer ilegalidades, a comprovação documental do emprego dos recursos, por ele prometida há quatro meses, ainda não foi apresentada às autoridades.
Diante do público em São Paulo, o presidenciável evitou menções nominais a Vorcaro ou à instituição financeira. Preferiu circunscrever seu discurso a cobranças institucionais e ilações sobre o processo eleitoral, asseverando ser urgente “proteger o STF de Moraes” perante o que classificou como um cenário de “caos moral”. Em tom taxativo, atacou: “O Supremo não é Alexandre de Moraes”.
Ilações, alvos paralelos e presenças no palanque
O tom do pronunciamento subiu quando Flávio insinuou que “vão tentar mais uma vez interferir nas eleições”, sem detalhar agentes ou instituições específicas. A declaração foi acompanhada de menções à facada sofrida por seu pai na campanha de 2018 e pela reclassificação dos episódios golpistas de 8 de janeiro de 2023, referidos por ele como “essa farsa2.
O candidato também buscou arrastar a família do rival petista para o foco das denúncias. Ao abordar notícias recentes relativas a Fábio Luís Lula da Silva, chamado pela mídia corporativa de “Lulinha”, e sua fixação legal de residência em território espanhol, o senador lançou questionamentos sobre a vida do empresário ao indagar à plateia: “Quem tá bancando o Lulinha?”
A estrutura montada no topo do trio elétrico reuniu lideranças da extrema direita e aliados regionais. O governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, defendeu a pacificação e a apuração rigorosa no âmbito judiciário, cobrando que “uma resposta institucional é necessária”. Já o candidato a vice na chapa de Flávio, Alfredo Gaspar, reforçou o discurso de fusão das imagens do STF e do Planalto ao exclamar que “não existe Lula sem Alexandre”, liderando um jogral com a massa pelo afastamento de ambos.
A sequência de discursos agressivos no caminhão de som teve como ponto alto a fala do pastor Silas Malafaia, que fez acusações severas a Moraes, classificando-o repetidamente como “ditador”. Para o religioso, os indícios de que o ministro teria revisado minuta de contrato entre Vorcaro e o escritório de sua esposa constituem “a prova da compra do poder e da influência desse ditador”. Malafaia direcionou um apelo ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, para que afaste o magistrado de suas funções, ponderando que a iniciativa não buscava descredibilizar a instituição, pois “precisamos de instituições fortes” e “desgraçar o Supremo é arrebentar com a democracia e a República”.
Na mesma linha de forte apelo emocional, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, projetou um cenário sombrio caso a oposição não vença a disputa presidencial, ao afirmar que “Bolsonaro vai ficar preso mais dez anos se Flávio não for eleito”, puxando em seguida um coro coletivo pelo retorno do ex-presidente. Em intervenção mais breve, o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), forte cabo eleitoral da chapa no município, proclamou que o verdadeiro “Supremo é o povo brasileiro” e conclamou o eleitorado a eleger parlamentares de direita para o Senado. Fechando o bloco de oradores, a ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques, criticou a condução econômica da atual gestão federal ao declarar que “o governo prometeu prosperidade, mas entregou escassez, convocando a militância a dar um fim ao que chamou de gastança estatal”.
O trio contou ainda com as presenças dos deputados Marco Feliciano (PL-SP) e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), do ex-procurador Deltan Dallagnol e do senador Sergio Moro (PL-PR). Ao longo das vias adjacentes, apoiadores exibiam bandeiras estrangeiras, com destaque para EUA e Israel, cartazes com fotos de condenados pela tentativa de golpe (tratados como detentos políticos) e materiais impressos de postulantes do PL, PP e Republicanos.
Peso da Paulista na corrida presidencial
A ida à Avenida Paulista representa uma tentativa direta de recuperação de fôlego para a candidatura do PL. O ato anterior de grande porte, realizado na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 16 de agosto, registrou números modestos, já que levantamentos do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common apontaram a presença de aproximadamente 9 mil manifestantes.
Desta vez, no tradicional reduto das manifestações da direita na capital paulista, a cúpula da campanha deposita suas fichas na capacidade de mobilização de rua para alterar a dinâmica das pesquisas de intenção de voto e desfazer a situação de indefinição no topo da corrida.
A mais recente amostragem divulgada pelo instituto Datafolha no dia 3 de setembro indicou Lula na liderança com 38% das intenções no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 33%. A pesquisa capturou ainda a evolução de Augusto Cury (Avante), que alcançou 8% das preferências após subir seis pontos percentuais. Essa configuração reduziu a vantagem do atual presidente sobre o candidato do PL para cinco pontos percentuais, a metade da distância que separava os dois concorrentes no levantamento realizado em maio.
Na Paulista, Flávio Bolsonaro força conexão de Moraes com Lula para explorar crise no STF
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