Bolsonarismo espalha fake news de que Fernando Sarney pressionou Karina Gama em nome de Flávio Dino

Bolsonarismo espalha fake news de que Fernando Sarney pressionou Karina Gama em nome de Flávio Dino
- Karina Gama/Foto: Reprodução de Vídeo do Instagram

Perfis bolsonaristas começaram a espalhar nas redes sociais, nesta quinta-feira (10), a versão de que Karina Gama, dona da produtora responsável pelo filme Dark Horse, teria sido ameaçada e pressionada a fazer uma delação premiada contra Flávio Bolsonaro.
A narrativa passou a ser usada por aliados e apoiadores do candidato do PL à presidência da Republica, Flávio Bolsonaro, para questionar a operação da Polícia Federal que investiga o financiamento do longa sobre Jair Bolsonaro e para reforçar a tese de perseguição política contra o grupo.
No centro das publicações está uma declaração juramentada de Karina, apreendida pela PF durante as buscas. No documento, ela afirma ter sido procurada em maio pelo empresário Fernando Sarney, que teria oferecido apoio jurídico e mencionado uma suposta proximidade com o ministro Flávio Dino. Sarney nega categoricamente qualquer contato com a produtora.
O empresário Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney, negou ter proposto uma delação premiada à empresária Karina Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
O desmentido veio após a Polícia Federal apreender uma declaração juramentada de Karina em que ela relata ter sido procurada por Sarney em maio de 2026, com oferta de apoio jurídico e menção a uma suposta proximidade com o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A PF investiga se o filme recebeu recursos de emendas parlamentares. O documento registrado em cartório pela produtora foi encontrado durante as buscas, segundo a CNN Brasil.
Fernando Sarney nega oferta de delação
Em declaração enviada à revista Veja, Fernando Sarney foi categórico ao negar qualquer contato com Karina Gama.
“Eu não conheço essa pessoa, a Karina. Não conheço, nunca vi, nunca tratei nada”, afirmou, repetindo a negação em seguida: “Não tenho a menor relação, não conheço, nunca vi.”
Em nota formal, o empresário reforçou a posição:
“Não conheço a Sra. Karina Gama e jamais mantive contato com ela ou com qualquer outra pessoa sobre suposta delação premiada envolvendo a produção audiovisual ‘Dark Horse’.”
A negação se estendeu ao ponto mais politicamente sensível do relato da produtora: a alegação de que Sarney teria se apresentado como alguém com “grande proximidade” com Flávio Dino.
Para Sarney, a afirmação é “inverossímil” e “completamente absurda”. O argumento usado por ele é o da trajetória política: os dois foram adversários no Maranhão.
“Não faz sentido nenhum, pelo contrário. A gente foi adversário aqui no Maranhão a vida inteira”, disse.
O relato de Karina Gama
O documento apreendido pela Polícia Federal é uma declaração juramentada de Karina Gama que detalha, com datas e horários, a suposta abordagem.
Segundo o texto, ela foi procurada inicialmente em 20 de maio de 2026, mas não atendeu naquela ocasião. O contato efetivo, de acordo com o relato, ocorreu dois dias depois, em 22 de maio, às 9h07.
“Durante a conversa, o Dr. Fernando Sarney ofereceu-me apoio jurídico e afirmou possuir grande proximidade com o ministro Flávio Dino. Na mesma ocasião, declarou que poderia me apoiar caso eu tivesse interesse em realizar uma ‘delação premiada'”, diz o documento.
A própria Karina, no entanto, delimitou o alcance do que relatou. Ela registrou que a menção à proximidade com Dino “partiu exclusivamente do próprio Dr. Fernando Sarney” e acrescentou:
“Não presenciei qualquer conversa entre ambos e não possuo elementos próprios que me permitam afirmar que o ministro tivesse conhecimento, participação ou envolvimento nesse contato.”
Quanto à suposta oferta, a empresária afirmou que recusou:
“Não manifestei interesse em realizar colaboração premiada, pois não identificava — e continuo não identificando — qualquer razão para adotar tal medida. Minha posição sempre foi a de esclarecer os fatos mediante a apresentação dos documentos pertinentes e o regular exercício do direito de defesa.”
https://x.com/LagSignal/status/2098085291252675001
PF mira Mário Frias e Karina Gama em operação sobre financiamento de Dark Horse, filme de Bolsonaro
A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram nesta quinta-feira (10) a Operação Make Up, que investiga o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O deputado federal Mario Frias (PL-SP) e a produtora Karina Gama estão entre os 22 alvos de 49 mandados de busca e apreensão, cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal, sem mandados de prisão.
A operação, autorizada pelo ministro Flávio Dino do STF, apura um suposto esquema de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares, com crimes que vão de peculato à lavagem de dinheiro.
Operação ‘Make Up’: PF mira desvio de verbas públicas para filme ‘Dark Horse’
A Operação Make Up foi deflagrada conjuntamente pela PF e pela CGU com base em inquérito que tramitava em São Paulo e foi avocado para o STF. Os 49 mandados de busca e apreensão, autorizados por Flávio Dino, alcançaram endereços em quatro unidades da federação. Mario Frias, que foi secretário de Cultura do governo Bolsonaro, e Karina Gama, produtora do filme, figuram entre os alvos centrais da ação, ao lado de outras 20 pessoas.
O foco da investigação é um suposto esquema em que uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, teria direcionado recursos repassados a uma organização da sociedade civil para empresas subcontratadas irregularmente, sem comprovação de que os serviços foram efetivamente prestados.
Segundo a PF, foram identificadas movimentações de centenas de milhões de reais entre as empresas ligadas ao esquema, e as tentativas de ocultar os desvios teriam continuado até julho deste ano. Os crimes investigados incluem peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios. O uso de emendas parlamentares como veículo do suposto desvio coloca a investigação no centro do debate sobre o controle e a transparência desse mecanismo orçamentário.
“As investigações apontam a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados. As tentativas de dissimular os desvios teriam se estendidos até julho deste ano”, diz nota divulgada pela PF.
As duas frentes de investigação no STF
O financiamento de Dark Horse é objeto de duas investigações distintas no Supremo Tribunal Federal, com relatores e focos diferentes. A Operação Make Up desta quinta-feira é desdobramento do inquérito sob relatoria do ministro Flávio Dino, que se concentra no possível uso irregular de emendas parlamentares e dinheiro público que chegou a entidades e empresas ligadas à produtora do filme.
A segunda investigação, sob relatoria do ministro André Mendonça, percorre outro caminho: examina os repasses feitos pelo ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, a pedido de Flávio Bolsonaro, e o trajeto percorrido por esse dinheiro. As duas frentes são complementares na compreensão do esquema, mas juridicamente independentes. Enquanto a investigação de Dino mira o fluxo de recursos públicos via emendas, a de Mendonça debruça-se sobre o financiamento privado de origem investigada, o que sugere que o filme teria sido bancado por ao menos duas fontes distintas, ambas agora sob escrutínio judicial.
Delação premiada e os repasses de Daniel Vorcaro
Na véspera da operação, na quarta-feira (9), o ministro André Mendonça homologou a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos. O acordo foi assinado com a Procuradoria-Geral da República em 8 de agosto. Em seu depoimento, Mineiro afirmou ser responsável por “gerar” dinheiro vivo para a equipe de Daniel Vorcaro, destinado a pagamentos de propina. Ele também declarou ter realizado sete repasses, a título de “subscrições de cotas”, para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, totalizando US$ 12,333 milhões, equivalentes a R$ 62,8 milhões pela cotação de setembro de 2025.
Segundo a delação, esses repasses foram feitos a mando de Vorcaro, após pedido de Flávio Bolsonaro para financiar o filme. A conexão entre o ex-banqueiro e a família Bolsonaro havia sido revelada pelo Intercept Brasil em maio, quando o veículo publicou uma troca de mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro cobrava dinheiro de Vorcaro para a produção. De acordo com a reportagem do Intercept, o dinheiro foi transferido para um fundo nos Estados Unidos administrado por um advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. A delação de Mineiro, agora homologada, fornece à investigação de André Mendonça um relato interno sobre o funcionamento desse fluxo financeiro.

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