Dark Horse: ONG da produtora distribuiu R$ 8,5 milhões entre ‘laranjas’, aponta PF

Dark Horse: ONG da produtora distribuiu R$ 8,5 milhões entre ‘laranjas’, aponta PF
- O ator Jim Caviezel em imagem do filme Dark Horse/Foto: Reprodução

Um emaranhado de triangulações financeiras, entidades do terceiro setor e empresas com quadros societários sabidamente incompatíveis com as cifras movimentadas veio à tona com o avanço dos relatórios de inteligência da Polícia Federal no âmbito da Operação Dark Horse. O centro da engrenagem aponta para a atuação do Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade sem fins lucrativos presidida por Karina Ferreira da Gama, empresária que também comanda a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo projeto cinematográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). De acordo com as apurações levadas ao Supremo Tribunal Federal, o ICB alimentou uma estrutura intermediária utilizada para pulverizar pelo menos R$ 8,5 milhões provenientes de verbas sob suspeita.
O destino primário do montante irrigado pelo ICB foi a conta bancária da Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda. (anteriormente registrada sob a razão social William Silva Ferreira Representações). A movimentação chamou a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e dos peritos da PF devido à sua velocidade e volume: em um intervalo de menos de três meses, entre o final de julho e o início de outubro de 2024, a conta mantida pela firma registrou um fluxo bruto de R$ 31,6 milhões, divididos em partes idênticas de débitos e créditos. A entidade presidida por Karina figurou como a principal remetente dos valores, respondendo por oito transferências diretas que somaram exatos R$ 8.554.301,14.
Para os investigadores encarregados do inquérito, a Ultra IP exercia o papel de “duto redistribuidor” na cadeia de dissimulação patrimonial. Uma vez aportados no CNPJ da empresa, os recursos de origem pública ou decorrentes de parcerias institucionais eram rapidamente fracionados em favor de outros integrantes da rede. Foi nesse nível do rastreamento que a Polícia Federal identificou a utilização de pessoas físicas interpostas, com perfis socioeconômicos de extrema vulnerabilidade, assumindo a titularidade de pessoas jurídicas dotadas de capitais sociais de centenas de milhares de reais.
Entre os repasses analisados pela inteligência financeira, mais de R$ 1,07 milhão foi transferido para a ABC Logísticas e Serviços Ltda. A firma, cujo capital social declarado chegava a R$ 500 mil, trazia na Junta Comercial como única proprietária Nayara Bianca Silva de Souza. Ao checar os cadastros formais de trabalho e de renda da empresária, os agentes constataram que Nayara exercia a profissão de cuidadora de idosos com rendimento médio mensal de R$ 1.815, figurando inclusive na lista de inscritas e beneficiárias do programa assistencial Novo Bolsa Família.
O padrão de inconsistência societária repetiu-se em outro braço das transferências efetuadas pela Ultra IP. Um montante de R$ 627,4 mil foi direcionado à Fastsoftsolution Mídia Desenvolvimento e Publicidade Ltda., empresa registrada com capital social de R$ 300 mil. O único sócio cotista da firma, Anderson Souza Mendes, apresentava como último vínculo laboral formal na Carteira de Trabalho o cargo de servente de pedreiro, com remuneração fixada entre um e dois salários mínimos. Para a PF, a presença de profissionais de baixa renda à frente de organizações contratadas por valores vultosos constitui indício veemente do uso de “laranjas” para mascarar os reais beneficiários dos recursos.
Além das transferências destinadas às empresas ligadas ao cuidador e ao servente de obras, a Ultra IP encaminhou R$ 1,33 milhão para a Academia Nacional de Cultura (ANC), outra entidade civil gerida e presidida pela própria Karina Gama. A sobreposição de cargos de direção, a navegação de valores entre ONGs paralelas e a contratação de firmas de fachada indicam, segundo os autos, uma estratégia deliberada para ocultar a origem, a localização e a propriedade final de montantes decorrentes de desvios orçamentários.
A confirmação dos repasses milionários e do loteamento de contratos acelerou a tomada de medidas cautelares pelo Judiciário. Na manhã de quinta-feira (10), equipes da Polícia Federal cumpriram mandados de busca e apreensão nos endereços ligados a Karina Gama e às sedes de suas empresas e institutos. Com o cruzamento dos dados colhidos durante a ação policial e a análise do histórico do ICB, que mantém inclusive contratos e termos de parceria com a administração pública, os investigadores trabalham para mapear a extensão do dano ao erário e identificar eventuais apadrinhamentos políticos envolvidos na liberação das verbas sob apuração.

Ver mais

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!