PF investiga manobra para esconder caminho do dinheiro público até filme de Bolsonaro

PF investiga manobra para esconder caminho do dinheiro público até filme de Bolsonaro
- O ator Jim Caviezel, interpretando Jair Bolsonaro em "Dark Horse" - Foto: Instagram/Reprodução

A Polícia Federal (PF) identificou indícios de um “circuito financeiro fechado” envolvendo pessoas, empresas e entidades investigadas por suspeitas de irregularidades na aplicação de emendas parlamentares. Parte desse caminho financeiro pode ter terminado na Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A suspeita aparece na investigação que embasou a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão teve o sigilo retirado nesta quinta-feira (10).
Segundo a PF, movimentações entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB), empresas contratadas pela entidade, outras organizações e o deputado federal Mário Frias (PL-SP) indicam que os recursos não teriam circulado por relações comerciais independentes.
Os investigadores afirmam que o fluxo apresenta características de uma estrutura destinada a fazer o dinheiro circular entre integrantes de um mesmo núcleo.
“Essa circulação de recursos entre o parlamentar, a entidade executora, a empresa contratada e outra organização beneficiária não se compatibiliza com relações negociais independentes e economicamente justificadas. Ao contrário, evidencia um circuito financeiro fechado, característico de estruturas destinadas à circulação, fragmentação e reintrodução de valores entre integrantes de um mesmo núcleo de atuação.”
PF aponta “fragmentação e reintrodução” de valores
A conclusão aparece depois de a PF analisar movimentações financeiras envolvendo, entre outros, o ICB, a Academia Nacional de Cultura (ANC), a Complexsys e Mário Frias.
A PF sustenta que a circulação do dinheiro reforça a hipótese de que as diferentes frentes investigadas não seriam estruturas independentes.
Em outro trecho reproduzido na decisão de Dino, os investigadores afirmam haver “fortes indícios de uma única organização criminosa”, supostamente estruturada para “captar, disseminar e ocultar recursos provenientes de verbas públicas”.
Nesse ponto, a PF aponta Mário Frias como “agente central” da suposta estrutura.
Dinheiro pode ter chegado à produtora de Dark Horse
É em outra parte da análise financeira que surge a conexão direta com a produtora responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.
A PF identificou uma transferência de R$ 750 mil da NTT Brasil para a Go Up Entertainment, responsável pela produção de Dark Horse. A NTT pertence a Heric Dias, ligado ao grupo empresarial que recebeu recursos do ICB em contratações investigadas.
Os investigadores destacaram que empresas ligadas a esse grupo receberam R$ 700 mil do ICB. Posteriormente, a NTT transferiu R$ 750 mil para a Go Up.
A proximidade dos valores chamou a atenção da PF, que passou a investigar se recursos originalmente relacionados aos contratos do instituto podem ter seguido posteriormente para a produtora.
“Identifica-se, portanto, a possibilidade de que os recursos originalmente associados a contratos executados pelo ICB, repassados, mediante contratações com indícios de fraude, a empresas vinculadas ao grupo de Heric Dias, posteriormente tenham sido direcionados, mediante pagamento feito pela NTT Brasil, para a Go Up Entertainment.”
A PF, portanto, não afirma que os R$ 750 mil transferidos à Go Up sejam os mesmos recursos públicos repassados originalmente ao ICB.
Frias também transferiu dinheiro para a Go Up
Além do fluxo envolvendo a NTT, os relatórios financeiros identificaram transferências feitas pelo próprio Mário Frias à produtora.
Segundo a investigação, o deputado enviou R$ 645,4 mil para a Go Up Entertainment.
A PF também analisou a capacidade financeira de Frias e registrou que seus rendimentos mensais eram de aproximadamente R$ 44 mil. Os investigadores passaram, então, a questionar a origem dos recursos usados nas transferências para a produtora.
A investigação não concluiu que os R$ 645,4 mil enviados por Frias tenham origem em emendas parlamentares.
PF investiga se caminhos financeiros fazem parte de uma mesma estrutura
Ao pedir que as diferentes frentes fossem reunidas, a Polícia Federal sustentou que os elementos encontrados apontam para uma possível estrutura única de circulação de recursos.
É justamente essa hipótese que conecta o chamado “circuito financeiro fechado” às movimentações que posteriormente alcançam a produtora de Dark Horse.
O ponto que a PF agora busca esclarecer é se existe uma ligação efetiva entre os recursos públicos originalmente destinados às entidades, as contratações consideradas suspeitas e o dinheiro que posteriormente chegou à Go Up Entertainment.
 
 
 

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