Plano de terras raras de Flávio Bolsonaro com EUA reforça suspeitas de financiamento estrangeiro da campanha

Plano de terras raras de Flávio Bolsonaro com EUA reforça suspeitas de financiamento estrangeiro da campanha
Flávio Bolsonaro com Donald Trump - Foto: Divulgação

Um memorando estratégico elaborado por André Marinho, aliado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), detalha um plano de parceria entre Brasil e Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras em um eventual governo do senador.
O documento, intitulado “Prosperity Partnership”, foi obtido pelo jornalista Guilherme Amado, do portal Amado Mundo, e traz na capa a inscrição “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign”. A autoria do material foi confirmada pelo próprio Marinho, candidato do Partido Novo ao governo do Rio de Janeiro, embora ele negue que o memorando tenha relação com a campanha do senador.
A divulgação do documento ocorre em meio a acusações feitas pelo candidato à presidência Renan Santos, do partido Missão, sobre um suposto financiamento estrangeiro ilegal envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro. As acusações ainda não foram comprovadas formalmente e são negadas por pessoas citadas.
O tema ganhou relevância porque a legislação eleitoral brasileira proíbe que partidos e candidatos recebam, direta ou indiretamente, recursos provenientes de entidades ou governos estrangeiros.
Documento propõe alinhamento do Brasil aos interesses dos EUA
Com 22 páginas, o memorando apresenta uma proposta para transformar o Brasil em um fornecedor estratégico de minerais críticos para os Estados Unidos, em meio à disputa geopolítica entre Washington e Pequim.
O texto afirma que um eventual governo Flávio Bolsonaro poderia posicionar o país como “o principal fornecedor e polo de processamento de minerais críticos alinhado ao Ocidente no Hemisfério Ocidental”.
O documento prevê investimentos entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões em mineração, refino e processamento ao longo de dez anos, além da criação estimada de 500 mil a 1 milhão de empregos e um aumento de 1,5 a 2,5 pontos percentuais no PIB. O memorando, porém, não apresenta os critérios utilizados para chegar a essas projeções.
Entre as propostas estão mudanças na legislação minerária, aceleração de licenciamento ambiental, processamento nacional dos materiais extraídos e criação de um “clube de minerais críticos” alinhado aos Estados Unidos.
O documento também faz críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, classificando a política externa brasileira como próxima da China e afirmando que o país mantém uma “ambiguidade geopolítica deliberada”.
A mensagem dirigida aos interlocutores americanos aparece em uma frase em destaque no próprio material:
“O OCIDENTE NÃO TEM UM PROBLEMA DE MINERAIS. TEM UM PROBLEMA DE EXECUÇÃO. O BRASIL É A SOLUÇÃO.”
Aliado de Flávio Bolsonaro nega vínculo com campanha
André Marinho, autor do memorando, é filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro no Senado. O arquivo identifica sua autoria nos metadados, informação confirmada pelo próprio candidato.
Apesar de o documento trazer o nome do senador e a referência à campanha de 2026, Marinho afirma que o material não foi produzido para a campanha de Flávio Bolsonaro e que não foi apresentado a interlocutores norte-americanos.
O cronograma do documento, porém, chama atenção. O memorando foi elaborado em 19 de março, cerca de duas semanas antes de Marinho viajar aos Estados Unidos para reuniões com integrantes do governo americano.
Nove dias após a elaboração do material, Flávio Bolsonaro afirmou durante a conferência conservadora CPAC, em Dallas, que o Brasil poderia ser uma solução para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China no setor de minerais críticos.
Em maio, o senador esteve em Washington e afirmou ter tratado com autoridades americanas de temas como tarifas, terras raras e segurança.
A campanha de Flávio Bolsonaro não informou se encomendou o documento, se tinha conhecimento de seu conteúdo ou se esperava que ele fosse apresentado nos Estados Unidos.
Acusações de financiamento estrangeiro entram no debate
Além do conteúdo do memorando, a divulgação do documento trouxe novamente ao debate acusações sobre possível apoio estrangeiro à campanha de Flávio Bolsonaro.
O candidato Renan Santos afirmou que a campanha teria recebido apoio ilegal da Rockbridge Network, grupo de investidores conservadores dos Estados Unidos. “Eles entraram na campanha do Flávio, naturalmente e ilegalmente”, declarou.
A acusação envolve a possibilidade de violação do artigo 24 da Lei das Eleições, que proíbe o recebimento de recursos provenientes de entidades ou governos estrangeiros.
A Rockbridge Network foi fundada em 2019 por J.D. Vance, atual vice-presidente dos Estados Unidos, e pelo empresário Chris Buskirk, que também é sócio de Donald Trump Jr. em uma gestora de investimentos.
André Marinho confirmou ter analisado, junto à organização americana, a possibilidade de instalação de uma célula da Rockbridge no Brasil. Também foi ele quem conectou o empresário Pedro Sang ao grupo.
Renan Santos apontou Pedro Sang e Tallis Gomes como possíveis intermediários de supostos repasses. Ambos negam as acusações.
Sang confirmou contatos com a Rockbridge, mas afirmou que as conversas envolviam possibilidades de investimento em tecnologia. “Nunca houve nenhum centavo transacionado, nem para virar membro nem para nenhum projeto da Rockbridge, zero, zero”, declarou.
Tallis Gomes também negou ter arrecadado recursos para a campanha de Flávio Bolsonaro.
Disputa por minerais estratégicos ganha dimensão política
O memorando coloca a exploração de terras raras e minerais críticos no centro da estratégia internacional apresentada por aliados de Flávio Bolsonaro.
O tema ganhou importância global pela disputa entre Estados Unidos e China pelo controle de cadeias estratégicas de tecnologia, energia e indústria.
No Brasil, as reservas de minerais críticos passaram a ser tratadas como um ativo estratégico, especialmente diante do interesse de grandes potências em reduzir dependências externas.
O documento obtido por Guilherme Amado, porém, abriu uma nova frente de questionamentos políticos ao associar um plano de alinhamento mineral com os Estados Unidos ao nome da campanha de Flávio Bolsonaro.
As acusações sobre eventual financiamento estrangeiro ainda dependem de apuração e comprovação pelas autoridades competentes.

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