Lula entra com ações, inclusive criminal, por possível compra de votos com crianças de Uganda para Flávio Bolsonaro

Lula entra com ações, inclusive criminal, por possível compra de votos com crianças de Uganda para Flávio Bolsonaro
- Flávio Bolsonaro e cena do vídeo das crianças dançarinas de Uganda (Evaristo Sá AFP / Reprodução de vídeo)

O PT vai entrar com quatro ações na Justiça, inclusive com pedidos de medidas cautelares e processos criminais, contra a estratégia lançada nesta quarta-feira (7) por Kevim Flores que usa vídeos o perfil HypersKids, de crianças dançarinas de Uganda, e oferece criptomoedas a usuários que divulgarem conteúdo pedindo voto em Flávio Bolsonaro (PL).
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Segundo informações obtidas pela Fórum, a equipe jurídica do PT e da campanha de Lula se reuniram na manhã desta quinta-feira (8) para estudar o caso e definir as quatro ações, que serão protocoladas nas próximas horas.
O grupo, conhecido como HypersKids, reúne cerca de 13 milhões de seguidores no Instagram e passou a ser utilizado na divulgação do Brasil 22 Token (B22), uma moeda digital criada na rede Solana.
A estratégia, revelada pela jornalista Patrícia Campos Mello, na Folha de S.Paulo, e aprofundada pela Fórum, oferece criptomoedas como recompensa a usuários que divulguem o projeto, associado à candidatura de Flávio Bolsonaro, nas redes sociais.
O mecanismo levanta suspeitas de propaganda eleitoral remunerada e pode, dependendo da finalidade dos pagamentos e da participação dos envolvidos, configurar até mesmo compra de votos, prática proibida pela legislação brasileira.
Como funciona a estratégia
O Brasil 22 Token (B22) é uma criptomoeda criada na rede Solana, plataforma que permite emitir e transferir moedas digitais sem a necessidade de desenvolver um sistema financeiro próprio.
Para entender o mecanismo, basta imaginar que alguém crie um milhão de moedas virtuais e passe a distribuí-las como recompensa para quem divulgar determinado conteúdo na internet.
Essas moedas não equivalem automaticamente a dinheiro. Seu valor depende da existência de compradores interessados em adquiri-las. Quanto maior a procura, maior poderá ser o preço. Se não houver compradores, os participantes poderão ficar com moedas sem valor financeiro realizável.
É nesse mecanismo que se baseia a estratégia do B22.
O projeto anunciou a criação de 1 bilhão de tokens, dos quais 120 milhões, ou 12%, foram destinados ao HypersKids, grupo das crianças de Uganda. Outros 100 milhões foram reservados para marketing e parcerias, 50 milhões para a equipe responsável e 30 milhões para recompensas à comunidade.
Para receber as moedas, os interessados são orientados a criar uma carteira digital, compartilhar o projeto nas redes sociais e enviar o link da publicação para validação.
A distribuição é chamada de airdrop, termo utilizado no mercado de criptomoedas para designar a entrega de unidades digitais aos participantes de determinado projeto.
Na prática, o modelo permite ampliar a circulação de conteúdos associados ao B22 e à candidatura de Flávio Bolsonaro, enquanto os próprios organizadores mantêm parte das moedas que poderão se valorizar caso a divulgação atraia novos compradores.
Isso não comprova que os responsáveis já tenham obtido ganhos financeiros, mas torna necessário identificar quem controla as carteiras digitais e quem efetivamente recebe dinheiro com a negociação dos tokens.
É compra de votos? O que diz a legislação eleitoral
A distribuição de criptomoedas para divulgar um candidato não configura automaticamente compra de votos. Entretanto, o fato de a recompensa ser oferecida em uma moeda digital, e não em reais, não afasta a aplicação da legislação eleitoral.
O artigo 41-A da Lei nº 9.504/1997 proíbe oferecer, prometer ou entregar dinheiro, bens ou vantagens pessoais ao eleitor com a finalidade de obter seu voto.
Para caracterizar a chamada captação ilícita de sufrágio, é necessário demonstrar a finalidade de obtenção do voto e os requisitos de responsabilização dos envolvidos. Não basta, portanto, que alguém receba uma criptomoeda para compartilhar uma publicação.
No entanto, a legislação eleitoral também proíbe expressamente a remuneração de usuários pela divulgação de propaganda política nas redes sociais, independentemente de existir uma promessa de voto.
O artigo 29, § 8º, da Resolução TSE nº 23.610/2019, com as alterações aplicáveis às eleições de 2026, veda mecanismos de premiação, competição ou remuneração que ofereçam vantagens econômicas para pessoas divulgarem conteúdos político-eleitorais em seus perfis.
Além disso, a Resolução TSE nº 23.735/2024 prevê que organizações comerciais na internet que ofereçam produtos, valores, prêmios ou outras vantagens vinculadas a candidatos ou resultados eleitorais podem configurar abuso de poder econômico e captação ilícita de votos, conforme as circunstâncias.
No caso do B22, a questão é saber se a distribuição das criptomoedas constitui uma recompensa pela promoção de um produto digital ou uma forma indireta de remunerar propaganda eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro.
O precedente de Pablo Marçal
A estratégia guarda semelhanças com os chamados “campeonatos de cortes” promovidos por Pablo Marçal (PRTB) durante a campanha à Prefeitura de São Paulo, em 2024.
Na ocasião, usuários eram incentivados a publicar vídeos do então candidato nas redes sociais, concorrendo a prêmios financeiros conforme o alcance das publicações.
A prática foi objeto de ações na Justiça Eleitoral e integrou o processo que resultou na manutenção da inelegibilidade de Marçal por oito anos pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo.
No B22, a principal diferença está na forma de pagamento. Em vez de oferecer diretamente dinheiro aos participantes, os organizadores utilizam uma criptomoeda que pode ser negociada no mercado.
A semelhança entre os mecanismos não significa, por si só, que exista a mesma irregularidade ou responsabilidade jurídica.
Quem ganha dinheiro com o B22?
Além das possíveis infrações eleitorais, a operação levanta uma questão financeira. Como os criadores reservaram parte dos tokens para a equipe e o marketing, a valorização da criptomoeda pode beneficiar os detentores dessas unidades.
Se a campanha de divulgação aumentar a procura pelo B22, quem possui grandes quantidades da moeda poderá tentar vendê-las a preços mais elevados.
O projeto informa que as crianças do HypersKids poderão vender até um milhão de tokens por dia para financiar a construção de uma casa em Kampala, capital de Uganda. Entretanto, a quantidade de moedas distribuídas não garante que exista dinheiro disponível para comprá-las.
É preciso esclarecer quem controla as carteiras digitais, se os tokens prometidos foram efetivamente distribuídos, quais valores foram obtidos com eventuais vendas e se existe alguma conexão financeira entre os organizadores do projeto e a campanha presidencial.

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