O que é bolsonarismo? Entenda o conceito, segundo a ciência política

O que é bolsonarismo? Entenda o conceito, segundo a ciência política
Família Bolsonaro e bolsonarismo - Flávio, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Foto: Roberto Jayme / Ascom / TSE

O bolsonarismo é um movimento político de direita associado à liderança de Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, que reúne diferentes correntes conservadoras, grupos religiosos, defensores do endurecimento penal, setores liberais na economia, militares e eleitores mobilizados principalmente pelo antipetismo. O fenômeno ganhou projeção nacional durante a campanha presidencial de 2018 e passou a influenciar o debate público, as eleições e foi a base para a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023.
Mais do que uma preferência eleitoral por Bolsonaro, o bolsonarismo se tornou uma força política capaz de organizar manifestações, orientar discursos, mobilizar apoiadores nas redes sociais e influenciar partidos e representantes eleitos. Entre suas características estão o conservadorismo nos costumes, o discurso de combate à corrupção, a oposição aos direitos humanos e a objeção a gastos com programas sociais.
O conceito, porém, não tem uma definição única entre pesquisadores. Há estudos que interpretam o bolsonarismo como uma ideologia, outros que o analisam como movimento social e há aqueles que investigam o fenômeno a partir do comportamento eleitoral e da opinião pública.
Essa diferença é importante para compreender por que pessoas com posições distintas sobre economia, religião e direitos sociais podem apoiar o mesmo líder político.
O que significa bolsonarismo?
A palavra bolsonarismo deriva do sobrenome de Jair Bolsonaro e designa o conjunto de ideias, práticas políticas, discursos e formas de mobilização associados ao ex-presidente e à sua base de apoio.
O termo começou a se consolidar no vocabulário político brasileiro com a ascensão de Bolsonaro, eleito presidente em 2018. Desde então, passou a ser utilizado para identificar tanto seus apoiadores mais fiéis quanto um campo político mais amplo, que reúne organizações, lideranças religiosas, parlamentares, influenciadores digitais e grupos de direita.
Na prática, o bolsonarismo combina elementos que já existiam na sociedade brasileira, mas que passaram a atuar de maneira mais articulada em torno de uma liderança nacional. O conservadorismo religioso, a defesa da ditadura militar por determinados grupos, o anticomunismo, o antipetismo e a crítica às instituições políticas tradicionais são algumas dessas correntes.
O cientista político Lucio Rennó, em artigo publicado na revista Estudos Avançados, da Universidade de São Paulo (USP), define o bolsonarismo como um alinhamento ideológico de direita baseado nas posições políticas de Bolsonaro e associado a uma agenda conservadora, à defesa de políticas punitivas de segurança e a determinadas propostas econômicas.
Já o cientista político João Feres Júnior, em estudo publicado em 2025 na revista Opinião Pública, propõe olhar também para as preferências concretas dos eleitores. Sua pesquisa demonstra que o eleitorado de Bolsonaro não pode ser tratado como um bloco ideológico perfeitamente uniforme.
Assim, o bolsonarismo pode ser entendido como um campo político organizado em torno de Bolsonaro e de referências compartilhadas, mas que abriga grupos com motivações e interesses diferentes.
Como surgiu o bolsonarismo?
A ascensão do bolsonarismo não aconteceu de uma hora para outra. O fenômeno foi resultado de transformações políticas, sociais e culturais que se intensificaram ao longo da década de 2010.
As manifestações de junho de 2013, inicialmente marcadas por reivindicações diversas, abriram um período de intensa disputa política no país. Nos anos seguintes, o desgaste dos partidos tradicionais, a crise econômica, as denúncias de corrupção e a crescente polarização contribuíram para modificar o cenário eleitoral.
A farsa da Operação Lava Jato e a expansão do antipetismo também tiveram papel importante nesse processo. A rejeição ao Partido dos Trabalhadores (PT), que já existia em parcelas do eleitorado, ganhou força e passou a funcionar como elemento de aproximação entre grupos que nem sempre compartilhavam as mesmas posições sobre políticas públicas.
Nesse contexto, Jair Bolsonaro, então deputado federal, conseguiu transformar sua trajetória política em uma candidatura presidencial competitiva. Sua defesa da ditadura militar, suas declarações contra a esquerda e suas posições conservadoras nos costumes encontraram espaço em um ambiente de crescente radicalização política.
A campanha de 2018 também se destacou pelo uso intensivo de redes sociais e fake news. Esses canais ajudaram a difundir discursos, organizar apoiadores e estabelecer uma comunicação que frequentemente escapava aos formatos tradicionais da propaganda eleitoral.
Bolsonaro venceu a eleição presidencial de 2018, derrotando Fernando Haddad, do PT, no segundo turno. A vitória representou a chegada ao Palácio do Planalto de uma liderança que, até então, ocupava posição relativamente marginal no sistema político nacional.
Quais são as principais características do bolsonarismo?
O bolsonarismo não possui uma lista oficial de princípios, mas a literatura acadêmica identifica temas recorrentes que ajudam a compreender sua identidade política.
1. Antipetismo e oposição à esquerda
O antipetismo é um dos elementos centrais para entender a formação do bolsonarismo. A rejeição ao PT aproximou eleitores que tinham opiniões distintas sobre religião, economia e costumes, mas que compartilhavam a preferência por uma alternativa eleitoral ao partido.
Esse sentimento foi alimentado por denúncias de corrupção, pela crise política e econômica e por disputas sobre os governos petistas. A campanha de Bolsonaro conseguiu transformar a oposição ao PT em uma identidade política mais ampla, frequentemente associada ao combate ao comunismo e à rejeição de políticas identificadas com a esquerda.
Isso não significa que todos os eleitores antipetistas sejam bolsonaristas. O antipetismo, contudo, ajudou a construir uma base eleitoral capaz de sustentar a candidatura de Bolsonaro em 2018 e sua permanência como referência política em 2022.
2. Conservadorismo nos costumes
Outra característica importante é a defesa de pautas conservadores. O bolsonarismo se opõe frequentemente a políticas e movimentos associados à ampliação dos direitos LGBTQIA+, à igualdade de gênero e a determinadas pautas feministas.
Essa agenda contribuiu para aproximar Bolsonaro de parcelas do eleitorado religioso e de organizações conservadoras. Entretanto, a associação entre religião e voto não é automática: os evangélicos, assim como os católicos, constituem grupos diversos, com diferentes posições políticas.
3. Militarismo e discurso de lei e ordem
A valorização das Forças Armadas, a defesa de maior presença militar na vida pública e a exaltação de soluções punitivas para problemas de segurança também aparecem com frequência no bolsonarismo.
Bolsonaro construiu parte de sua imagem política a partir de sua trajetória como militar e de sua defesa da ditadura militar de 1964. Seu discurso frequentemente associa a ordem social à autoridade, à disciplina e ao fortalecimento dos mecanismos de repressão ao crime, além da rejeição à democracia.
4. Liberalismo econômico e críticas ao Estado
O bolsonarismo também reuniu setores favoráveis à privatização de empresas estratégicas. Também durante o governo Bolsonaro, essas posições apareceram em propostas de reformas econômicas, concessões e privatização. A aproximação com setores empresariais e defensores do liberalismo econômico ajudou a ampliar a coalizão política que sustentou sua eleição.
5. Anticomunismo e combate a supostos inimigos internos
O anticomunismo é outro elemento recorrente no discurso bolsonarista. A teoria da conspiração de que o Brasil estaria sob risco de uma revolução comunista é o grande argumento dos bolsonaristas.
Essa retórica transforma divergências políticas em disputas sobre a própria identidade do país. Em vez de tratar os adversários apenas como concorrentes eleitorais, parte do discurso os apresenta como inimigos que precisariam ser derrotados para preservar a nação.
A estratégia não é exclusiva do Brasil e possui paralelos com movimentos de direita em outros países. No caso brasileiro, ela se conecta a tradições anticomunistas anteriores à ascensão de Bolsonaro, inclusive aquelas que ajudaram a justificar o golpe de 1964.
6. Redes sociais e mobilização permanente
As redes sociais e os aplicativos de mensagens tiveram papel relevante na consolidação do bolsonarismo. Eles permitiram que Bolsonaro e seus apoiadores divulgassem mensagens, organizassem manifestações e mantivessem contato direto com parcelas do eleitorado.
A comunicação digital também favoreceu a circulação de informações enganosas, teorias conspiratórias e conteúdos que colocam em dúvida a credibilidade de instituições como a imprensa, o sistema eleitoral e o Judiciário.
Pesquisas sobre o tema, contudo, recomendam cautela para não atribuir toda a força do bolsonarismo às redes sociais. O fenômeno também se relaciona a meios tradicionais de comunicação, organizações religiosas, redes locais de sociabilidade e preferências políticas anteriores.
Todo bolsonarista é de extrema direita?
A relação entre bolsonarismo e extrema direita é central para o debate acadêmico. Muitos pesquisadores classificam o movimento como parte da extrema direita contemporânea, especialmente por seu conservadorismo radical, pela defesa de soluções autoritárias presente em setores do campo e pelos conflitos com princípios democráticos.
O bolsonarismo também apresenta características associadas ao populismo de direita, como a oposição entre um povo considerado legítimo e adversários apresentados como integrantes de um sistema corrupto ou hostil à população.
Não existe consenso absoluto sobre qual categoria teórica explica melhor todas as dimensões do bolsonarismo. Por isso, é importante distinguir a classificação acadêmica do movimento da identificação individual de cada eleitor.
Um cidadão pode ter votado em Bolsonaro por rejeição ao PT, por concordar com propostas de segurança pública ou por razões econômicas, sem necessariamente aderir a todas as posições do movimento. Isso não elimina a importância de analisar as consequências políticas da candidatura que escolheu apoiar.
O que a pesquisa acadêmica revela sobre os eleitores de Bolsonaro?
Um estudo de João Feres Júnior, publicado em 2025 na revista Opinião Pública, ajuda a explicar a diversidade do eleitorado bolsonarista.
A pesquisa utilizou dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) de 2022, que entrevistou 2.001 pessoas, e agrupou os eleitores de Bolsonaro a partir de suas posições sobre valores e políticas públicas.
O pesquisador identificou três perfis principais.
O primeiro reúne eleitores relativamente liberais em questões de costumes e favoráveis à intervenção social do Estado. Nesse grupo, a preferência por Bolsonaro parece estar relacionada sobretudo à rejeição ao PT e a Lula.
O segundo reúne eleitores com posições mais duras em temas de segurança pública, militarismo e autoridade, mas relativamente liberais em questões de direitos de homossexuais e favoráveis a políticas sociais.
O terceiro é formado por eleitores mais conservadores nos costumes, com presença expressiva de evangélicos e forte apoio à militarização das escolas e a posições contrárias a direitos LGBTQIA+.
O estudo também encontrou apoio significativo ao Bolsa Família entre os três grupos. Além disso, a adesão às privatizações não foi majoritária em nenhum deles.
Os resultados questionam a ideia de que o bolsonarismo seja um bloco inteiramente coeso, no qual todos os eleitores compartilham o mesmo conjunto de posições econômicas e morais.
Qual é a relação entre bolsonarismo e democracia?
A relação do bolsonarismo com a democracia é um dos aspectos mais controversos do movimento.
Bolsonaro e seus apoiadores participaram de eleições e ocuparam cargos públicos dentro do sistema constitucional brasileiro. Ao mesmo tempo, declarações contra instituições, ataques ao sistema eleitoral e a defesa de alternativas autoritárias por integrantes desse campo produziram conflitos com os mecanismos de funcionamento da democracia brasileira. A tentativa de golpe de 8 de janeiro foi o maior exemplo disso.
Por essa razão, a defesa de uma intervenção militar ou a tentativa de impedir a transferência legítima de poder não pode ser tratada apenas como mais uma opinião política: trata-se de uma posição contrária às regras constitucionais.
O bolsonarismo existe sem Jair Bolsonaro?
A permanência do bolsonarismo para além da figura de Jair Bolsonaro é uma questão importante para compreender a política brasileira.
A consolidação de parlamentares alinhados ao ex-presidente, a atuação de organizações conservadoras e a continuidade de comunidades de apoiadores indicam que o fenômeno não se resume à relação individual entre um líder e seus eleitores.
O bolsonarismo também produziu uma identidade política que pode ser mobilizada por outros representantes, inclusive integrantes da família Bolsonaro. Essa continuidade, porém, não é automática: disputas internas, diferenças de estratégia e mudanças nas preferências eleitorais podem alterar a composição do movimento.
Além disso, o campo da direita brasileira é mais amplo do que o bolsonarismo. Há conservadores, liberais e políticos de centro-direita que não se identificam integralmente com o ex-presidente ou com suas posições mais radicais.
A distinção entre direita e bolsonarismo é importante para evitar que diferentes correntes políticas sejam tratadas como se fossem uma só.
Fontes acadêmicas para aprofundamento:

João Feres Júnior, O bolsonarismo como fenômeno de opinião pública, revista Opinião Pública, 2025.
Lucio Rennó, Bolsonarismo e as eleições de 2022, revista Estudos Avançados, USP, 2022.
O que é o bolsonarismo? Muito além da abordagem sociológica, revista Dados.

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