O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ameaçou processar criminalmente um repórter do jornal Estadão em 20 de agosto de 2025, via WhatsApp, após a publicação de reportagem que revelou um relatório da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) com indícios de crimes financeiros na instituição. As mensagens, obtidas pelo próprio jornal, mostram que Vorcaro comunicou a intenção a Lilian Tahan, CEO do portal Metrópoles, que respondeu minimizando o impacto da ameaça sobre o jornalista. O episódio expõe uma tentativa de intimidação da imprensa para silenciar denúncias de irregularidades que envolvem bilhões de reais e a negociação de venda de parte do banco ao Banco de Brasília (BRB).
Ameaça e reação
Na manhã de 20 de agosto de 2025, enquanto o Estadão publicava reportagem inédita sobre suspeitas de crimes financeiros no Banco Master, Daniel Vorcaro abriu o WhatsApp e anunciou a Lilian Tahan, CEO do portal Metrópoles, que iria processar criminalmente o repórter responsável. “Vamos entrar com criminal. Não existe processo. Não existe nada. Colocar que tem ligação com minha irmã porque o escritório de contabilidade que a empresa usa é o mesmo. Essas coisas não dá pra deixar mais”, escreveu o banqueiro, segundo diálogos obtidos pelo Estadão.
Tahan havia aberto a conversa preocupada com a repercussão da matéria: “Então, muito ruim a manchete do Estadão. Eu pedi para verificarem como será a repercussão na parte da manhã.” Diante da ameaça de Vorcaro contra o jornalista, a executiva não manifestou qualquer solidariedade ao profissional. Sua resposta foi: “Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal.” Procurada pelo Estadão, Tahan não respondeu. Em outro diálogo no mesmo dia, Vorcaro disse a uma funcionária do banco que já havia consultado seu advogado: “Falei com walfrido. Vamos entrar contra o estadao.”
As denúncias do Estadão e da CVM
A reportagem que provocou a ira do banqueiro revelou a existência de um relatório da CVM sobre suspeitas de desvios milionários no Banco Master, documento obtido pelo Estadão. Segundo a investigação do órgão regulador, o banco investiu R$ 2,1 bilhões em empresas sem capacidade econômica para dar retorno aos aportes. A principal suspeita da CVM é que essas operações serviram para inflar artificialmente o patrimônio da instituição, tornando-a mais atrativa na negociação de venda de 58% do seu capital ao Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal.
O esquema descrito pelos investigadores envolve injeção de recursos em empresas de fachada. Uma pequena clínica médica, registrada formalmente em nome de uma recepcionista, teria recebido R$ 361 milhões. Numa segunda reportagem publicada na mesma data, o Estadão revelou que o Master fez aportes de R$ 1,2 bilhão em empresas vinculadas a Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, tornando público pela primeira vez o nome dela em conexão com as suspeitas.
Implicações
A CVM concluiu que há indícios do crime de gestão fraudulenta e alertou que a manobra “pode comprometer severamente a solidez patrimonial da instituição financeira.” O peso da conclusão regulatória torna a ameaça de Vorcaro ao jornalista ainda mais reveladora: em vez de contestar os fatos por vias institucionais, o banqueiro escolheu a intimidação direta ao repórter como primeiro movimento.
A Polícia Federal também aprofundou as investigações. Segundo apuração do Estadão, a PF concluiu que Vorcaro fabricava reputação digital positiva para neutralizar críticas. Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, foi alvo de buscas e apreensões da PF. Os próprios diálogos de Vorcaro obtidos pelo Estadão indicam que ele elaborou pessoalmente a resposta da clínica médica aos questionamentos do jornal, ainda que negue qualquer vínculo com a empresa.
Vorcaro ameaçou repórter do Estadão por matéria sobre o Master
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