Juristas pela Democracia pedem suspeição de Kássio Nunes Marques no TSE por decisões contra ‘Exército do Lula’

Juristas pela Democracia pedem suspeição de Kássio Nunes Marques no TSE por decisões contra ‘Exército do Lula’
O ministro Kassio Nunes Marques - O ministro Kassio Nunes Marques (Fellipe Sampaio /SCO/STF)

A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) protocolou no Tribunal Superior Eleitoral um pedido de suspeição por parcialidade partidária contra o ministro Kassio Nunes Marques, presidente da corte. A entidade questiona a sequência de decisões que, entre 11 e 14 de outubro, suspenderam, restabeleceram e voltaram a restringir o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG) e com mais de 4 milhões de membros.
pedido foi apresentado no processo movido pela campanha de Flávio Bolsonaro contra o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e Janones. A ABJD alega que as intervenções de Kassio ultrapassaram suas atribuições administrativas e que um canal ligado à campanha de Flávio Bolsonaro não foi submetido a restrições equivalentes.
A ABJD alega na petição que o ministro Kassio Nunes Marques adotou medidas que teriam ultrapassado suas atribuições administrativas como presidente do TSE e se sobreposto à atuação do corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, relator da ação que discute o caso.
Enquanto Cueva pediu mais informações à campanha de Flávio Bolsonaro antes de analisar a solicitação de restrição ao canal, Kassio agiu por conta própria, impondo e depois revertendo medidas em sequência acelerada.
A acusação central é de parcialidade partidária: a associação sustenta que a conduta do ministro, somada à possível diferença de tratamento em relação a um canal de apoio a Flávio Bolsonaro, justifica a apuração de eventual parcialidade.
O pedido foi apresentado formalmente no processo movido pela campanha do senador contra o presidente Lula (PT), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o próprio Janones, o que torna o contexto político da disputa inseparável da análise jurídica que a ABJD pede ao tribunal.
As decisões de Kassio Nunes Marques e o ‘Exército do Lula’
Em 11 de outubro, Kassio Nunes Marques suspendeu administrativamente o canal “Exército do Lula”. No mesmo dia, reverteu a própria decisão, considerando insuficientes as justificativas apresentadas para mantê-lo fora do ar por completo. Dois dias depois, em 13 de outubro, o ministro voltou a impor restrições: proibiu novas publicações e a entrada de novos seguidores, além de exigir que o endereço do canal fosse informado formalmente à Justiça Eleitoral. O canal só voltou ao ar na noite de quarta-feira, dia 14.
Para a ABJD, essa sequência de idas e vindas não foi juridicamente neutra. A associação afirma que as decisões criaram insegurança jurídica e prejudicaram concretamente a divulgação de conteúdo e a mobilização de apoiadores de Janones durante a campanha. Um canal com mais de 4 milhões de membros fora do ar, ainda que por horas, representa impacto direto na capacidade de comunicação política de uma das partes do processo, argumento que a entidade usa para sustentar que as intervenções tiveram efeito prático sobre a disputa eleitoral.
Comparativo com o canal ‘Tropa do Flávio’ e as alegações de parcialidade
O ponto mais sensível do pedido da ABJD é o contraste entre o tratamento dado ao “Exército do Lula” e ao canal “Tropa do Flávio”, ligado à campanha do senador Flávio Bolsonaro. A “Tropa do Flávio” foi comunicada ao TSE na terça-feira, dia 13, depois de já estar em funcionamento, mas não foi submetida à suspensão de 48 horas aplicada por Kassio ao canal de Janones. A associação pede que o tribunal esclareça formalmente essa diferença de tratamento.
O próprio desenrolar dos eventos reforça a suspeita levantada pela entidade. O ministro antecipou a liberação do “Exército do Lula” após o PT protocolar pedido de suspensão da “Tropa do Flávio”, o que, segundo a leitura da ABJD, sugere que a pressão política, e não critérios técnicos uniformes, orientou o ritmo das decisões. Na justificativa que acompanhou sua decisão, Kassio afirmou que as medidas adotadas pela Presidência do TSE “tiveram por finalidade preservar a integridade do ambiente informacional das Eleições 2026, especialmente diante dos riscos decorrentes da disseminação de desinformação e do uso indevido dos meios de comunicação social”. A ABJD contesta que esse argumento explique a assimetria de tratamento entre os dois canais.
Segundo a associação, as medidas até agora adotadas pela Presidência do TSE “tiveram por finalidade preservar a integridade do ambiente informacional das Eleições 2026, especialmente diante dos riscos decorrentes da disseminação de desinformação e do uso indevido dos meios de comunicação social”.
O que o pedido da ABJD busca e os próximos passos
A ABJD solicita que o incidente de suspeição seja levado ao plenário do TSE, retirando a análise do caso das mãos do próprio ministro questionado. A associação também pede que sejam reunidos todos os documentos relativos às decisões de Kassio Nunes Marques e ao registro dos canais “Exército do Lula” e “Tropa do Flávio”, de modo a permitir uma comparação objetiva do tratamento dispensado a cada um deles. A reunião desse conjunto documental é condição para que o plenário possa avaliar se houve, de fato, desequilíbrio nas intervenções.
Procurado, o ministro Kassio Nunes Marques não se manifestou sobre o pedido da ABJD. A ausência de resposta deixa sem contestação, por ora, os argumentos da associação sobre a sobreposição de atribuições e o possível tratamento desigual entre canais de campos políticos opostos. O desfecho depende da disposição do plenário do TSE de examinar a conduta de seu próprio presidente, o que torna o caso um teste sobre a capacidade da corte de fiscalizar a si mesma em pleno período eleitoral.

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