Uma casa de apostas bloqueada no Brasil e que recebeu investimentos de um fundo ligado a Donald Trump Jr. divulgou que Flávio Bolsonaro (PL) havia alcançado 58% de chance de vencer a eleição presidencial. A publicação da Polymarket, feita em 20 de setembro, trazia um código de rastreamento no endereço de apostas.
Nas horas seguintes, a cotação circulou em perfis estrangeiros, enquanto publicações sobre o mesmo indicador exibiam o selo de parceria paga do X. A porcentagem não era resultado de pesquisa eleitoral, mas das apostas realizadas na plataforma.
Um minuto depois, o código da Polymarket
Às 11h43 do domingo, 20 de setembro, a conta oficial da Polymarket no X anunciou que Flávio chegara a 58% de chance de vitória, “a maior de todos os tempos”. Não se tratava de pesquisa eleitoral, mas da cotação das apostas.
https://x.com/Polymarket/status/2101683638064607551
Um minuto depois, a Polymarket respondeu ao post com o link para apostar. No fim do endereço estava o trecho “via=x-afr2”.
O trecho “via=x-afr2” permite identificar a origem de acessos. A Polymarket mantém um programa que remunera indicações com 10% das taxas de apostas dos usuários encaminhados. A página do programa não explica esse código específico nem comprova que houve pagamento por ele.
Uma onda de publicações em 25 horas
Os identificadores públicos do X permitem reconstruir os horários. A sequência levantada pela Fórum foi a seguinte:
20/09, 11h43: o post oficial da Polymarket;
20/09, 16h21: o perfil americano Geiger Capital;
20/09, 21h28: o perfil Visegrád24;
21/09, em menos de 45 minutos: o ex-deputado americano Matt Gaetz, a rede UHN Plus e o perfil EricLDaugh.
A divulgação atravessou perfis americanos e europeus, em inglês e espanhol.
Entre 18 e 21 de setembro, ao menos 11 contas estrangeiras postaram sobre a cotação de Flávio com o selo de “parceria paga” do X, segundo a agência Aos Fatos. Entre elas estão a UHN Plus e Matt Gaetz. Pelas regras do X, o selo avisa que o post é conteúdo pago.
Os cinco perfis da sequência são citados numa representação do Partido Missão contra o X Brasil no TSE, o Tribunal Superior Eleitoral. A ação, relatada pelo ministro André Mendonça, trata de posts do Visegrád24, de Matt Gaetz, do Geiger Capital, de Eric Daugherty (@EricLDaugh) e da UHN Plus, segundo o NC News.
Em 21 de setembro, Flávio republicou o gráfico da Polymarket nos Stories do Instagram. No dia seguinte, a Secretaria de Prêmios e Apostas pediu a derrubada do perfil brasileiro da Polymarket no Instagram, e ele saiu do ar. O pedido veio depois de apuração do Núcleo, segundo a Agência Pública.
O fundo de Trump Jr. e os influenciadores
Na Polymarket, as pessoas apostam nos resultados de eleições e de outros eventos. A porcentagem mostrada é uma cotação de mercado: não resulta de entrevistas com eleitores e não equivale a intenção de voto.
Desde 24 de abril de 2026, a plataforma está bloqueada no país por determinação do Ministério da Fazenda e da Anatel, porque não possui autorização para operar.
O investimento do 1789 Capital veio em agosto de 2025, segundo a agência Reuters. Trump Jr. também entrou no conselho consultivo da Polymarket. O mesmo fundo investe na Vulcan Elements, fábrica americana de ímãs cuja parceira quer explorar terras raras na Bahia, como a Fórum mostra em Fundo do filho de Trump na casa de apostas e na corrida pelo “ouro” do Brasil.
A Polymarket paga influenciadores, segundo reportagem do site americano POLITICO, republicada pelo Business Insider. O diretor de marketing da empresa, Matthew Modabber, mandou mais de US$ 2,5 milhões (R$ 12,5 milhões), pela própria conta de PayPal, a mais de 800 pessoas. A empresa disse que parcerias com influenciadores são “prática padrão”.
A UHN Plus dizia na própria bio: “Powered by @Polymarket”, ou “movida pela Polymarket”. O espanhol Javier Negre é vice-presidente da UHN Plus e se apresenta como dono dela, segundo o Factchequeado. Ele é dono de veículos de direita em três países. Negre entrevistou Flávio num evento nos EUA e perguntou sobre “possível fraude eleitoral”.
Negre também é sócio do marqueteiro Fernando Cerimedo, autor da live “o Brasil foi roubado” e premiado por Eduardo Bolsonaro (PL) em Mar-a-Lago. A relação de Cerimedo com a tecnologia de Brad Parscale está em Israel, US$ 136 mil e Mar-a-Lago: o dinheiro na ferramenta anunciada por Cerimedo.
Outro perfil da sequência, o Visegrád24, é mantido por uma fundação americana que declarou zero salários e US$ 365 mil (R$ 1,8 milhão) em serviços sem identificar os beneficiários. As contas são tema de Fundo de doadores ocultos deu R$ 875 mil à fundação de perfil que entrevistou Flávio.
Quem pagou pelos posts?
Os perfis exibiam o selo de “parceria paga”, mas não identificavam os financiadores. A Lei 9.504/1997 restringe a propaganda eleitoral paga na internet e proíbe ajuda de entidades estrangeiras a candidatos. O selo, sozinho, não revela quem contratou as publicações.
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