A potência da mineração africana que pode se tornar a nova integrante dos BRICS

A potência da mineração africana que pode se tornar a nova integrante dos BRICS
A potência da mineração africana que pode se tornar a nova integrante dos BRICS 1

Gana, país da África Ocidental que se tornou o maior produtor de ouro do continente, quer ampliar sua presença no cenário internacional e estreitar relações com as principais economias emergentes. O governo anunciou, em outubro de 2026, a intenção de se aproximar do BRICS, bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros países do Sul Global.
A iniciativa faz parte de uma estratégia para diversificar as parcerias comerciais, atrair investimentos e ampliar as possibilidades de industrialização. Rica em ouro, manganês, bauxita e petróleo, além de ser um dos principais produtores mundiais de cacau, Gana busca transformar sua riqueza natural em uma base mais ampla de desenvolvimento econômico.
O BRICS vem ampliando sua atuação para diferentes áreas – Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
O movimento, porém, tem uma ressalva importante: em 12 de outubro, o ministro das Relações Exteriores, Samuel Okudzeto Ablakwa, esclareceu que o objetivo do governo era solicitar o status de país parceiro do BRICS, e não a adesão como membro pleno. A modalidade de parceria permite aprofundar a cooperação com o grupo, mas não equivale à participação integral no bloco.
Ouro coloca Gana entre as potências da mineração mundial
A mineração é um dos pilares da economia ganesa. O ouro ocupa posição central tanto na produção nacional quanto nas exportações, e os números mais recentes mostram a dimensão dessa atividade.
Em 2025, Gana produziu aproximadamente 5,94 milhões de onças de ouro, cerca de 185 toneladas. O resultado representou um aumento de 23,4% em relação às 4,82 milhões de onças registradas em 2024, estabelecendo um recorde histórico para o país, segundo dados divulgados pela Câmara de Minas de Gana e pela agência nacional de notícias Ghana News Agency.
O avanço foi impulsionado principalmente pela mineração artesanal e de pequena escala. Esse segmento produziu 3,11 milhões de onças em 2025, o equivalente a 52,4% da produção nacional. A mineração industrial de grande escala, por sua vez, registrou 2,83 milhões de onças.
Os números evidenciam uma característica importante do setor ganês: a produção não está concentrada exclusivamente nas grandes empresas internacionais. Milhares de trabalhadores e operadores de menor porte participam da cadeia de extração, embora a formalização das atividades, a fiscalização ambiental e o combate à mineração ilegal continuem sendo desafios.
O ouro também ganhou peso nas contas externas do país. De acordo com dados do Banco de Gana, as receitas com exportações do metal alcançaram aproximadamente US$ 21 bilhões em 2025, ante US$ 10,3 bilhões no ano anterior. A alta refletiu tanto o aumento do volume exportado quanto a valorização internacional do produto.
No mesmo ano, as exportações totais de mercadorias chegaram a US$ 31,1 bilhões, contra US$ 19,1 bilhões em 2024. O resultado gerou um superávit comercial de aproximadamente US$ 13,66 bilhões.
Os números mostram a importância estratégica da mineração, mas também revelam uma vulnerabilidade: a economia fica exposta às oscilações dos preços internacionais e à concentração das receitas em um único produto. Segundo o Serviço de Estatística de Gana, o ouro respondeu por 63,1% das exportações do país em 2025.
Manganês, bauxita e outros recursos estratégicos
A riqueza mineral de Gana vai além do ouro. O país também possui reservas e produção de manganês e bauxita, matérias-primas importantes para cadeias industriais globais.
O manganês é utilizado principalmente na fabricação de aço e tem aplicações em tecnologias relacionadas à transição energética. Em 2024, Gana foi o quarto maior produtor mundial do minério, respondendo por aproximadamente 7% da produção global, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
Naquele ano, a produção ganesa de minério de manganês chegou a cerca de 5 milhões de toneladas, um aumento expressivo em relação aos anos anteriores. O país também anunciou planos para construir uma refinaria de manganês, com investimento previsto de US$ 450 milhões, destinada a processar o minério localmente.
A bauxita, por sua vez, é a principal matéria-prima para a produção de alumínio. O desenvolvimento de capacidade de processamento doméstico pode ajudar Gana a capturar uma parcela maior do valor gerado pela transformação dos recursos naturais.
Esse é um dos pontos centrais da estratégia econômica do governo: deixar de depender tanto da exportação de matérias-primas e ampliar a produção industrial dentro do próprio país.
A transformação local dos recursos, entretanto, exige energia confiável, infraestrutura de transporte, financiamento e acesso a mercados consumidores. A existência de reservas minerais, por si só, não garante a construção de uma indústria competitiva.
Cacau e petróleo completam a riqueza produtiva
Além da mineração, Gana ocupa posição de destaque na produção agrícola. O país é historicamente o segundo maior produtor mundial de cacau, atrás da vizinha Costa do Marfim, e o produto é uma fonte tradicional de receitas de exportação e de renda para milhões de pessoas ligadas à cadeia agrícola.
A produção, porém, enfrentou dificuldades nos últimos anos, incluindo doenças nas plantações, condições climáticas adversas e envelhecimento dos cacaueiros. O processamento local dos grãos em manteiga, pó e outros derivados é uma das alternativas para ampliar o valor agregado da atividade.
O petróleo também integra a pauta exportadora ganesa. A produção offshore contribui para as receitas externas e para o abastecimento energético, embora as receitas com as exportações de petróleo bruto tenham caído em 2025, para aproximadamente US$ 2,62 bilhões, segundo o Banco de Gana.
A combinação de ouro, manganês, bauxita, cacau e petróleo oferece ao país uma base diversificada de recursos. O desafio é fazer com que essa diversidade se traduza em uma estrutura produtiva menos dependente de commodities e mais capaz de gerar empregos industriais, tecnologia e renda.
BRICS como alternativa para ampliar comércio e investimentos
Foi nesse contexto que o governo ganês anunciou sua intenção de se aproximar do BRICS. A decisão do gabinete do presidente John Dramani Mahama foi divulgada em 6 de outubro de 2026, durante uma entrevista coletiva em Acra, capital do país, com a participação do ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar.
Na ocasião, o chanceler ganês afirmou que a iniciativa buscava diversificar as parcerias internacionais e criar novas oportunidades para o desenvolvimento econômico. A proposta também foi apresentada como parte de uma estratégia para atrair investimentos, estimular a industrialização e ampliar o controle nacional sobre o aproveitamento dos recursos naturais.
Em 12 de outubro, entretanto, Ablakwa esclareceu que Gana pretende solicitar o status de país parceiro do BRICS, e não a condição de membro pleno. A distinção é importante: a adesão depende das regras e decisões do grupo, e o governo ganês ainda precisa avançar no processo de aproximação.
A Índia aparece como um interlocutor relevante nessa estratégia. Segundo Ablakwa, o comércio bilateral entre Gana e Índia passou de aproximadamente US$ 3 bilhões em 2024 para cerca de US$ 7 bilhões. O ministro também destacou a importância das relações econômicas com China e Brasil.
A iniciativa não significa, segundo o governo, um rompimento com os parceiros tradicionais do Ocidente. Gana pretende manter seus vínculos com instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, ao mesmo tempo que amplia as alternativas de cooperação com economias emergentes.
A estratégia está relacionada à busca por maior autonomia econômica. Ao ampliar o número de parceiros comerciais e investidores, o país pretende criar condições mais favoráveis para negociar contratos, financiar projetos de infraestrutura e desenvolver setores industriais.

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