O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, declarou à Polícia Federal, em delação premiada, que Daniel Vorcaro, do Banco Master, omitiu que transferências milionárias a um fundo nos Estados Unidos seriam destinadas ao financiamento do filme Dark Horse, sobre a biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os repasses, realizados entre fevereiro e novembro do ano passado, totalizaram US$ 12,3 milhões e foram feitos via fundo Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. A PF, no entanto, identificou contradições entre o depoimento do delator e documentos obtidos na investigação, e encaminhou ao Supremo Tribunal Federal um pedido de prorrogação do inquérito por mais 90 dias.
Em depoimento prestado em 1º de outubro, Mineiro afirmou que a operação lhe foi apresentada como uma oportunidade de investir em fundo voltado ao desenvolvimento de empreendimentos imobiliários nos Estados Unidos, especialmente nos estados do Texas e da Flórida, associado à empresa de Paulo Calixto.
Segundo o delator, “em momento algum lhe foi informado que os recursos se destinavam ao financiamento de um filme ou cinebiografia”. Ele declarou ainda que não aceitaria participar de uma operação “com esse viés em razão do elevado risco reputacional para seu portfólio de empresas”.
A demanda para realizar as transferências, segundo Mineiro, partiu de Fabiano Zettel e foi confirmada por Vorcaro. O delator disse também que não teve contato com autoridades políticas na operação, como o senador Flávio Bolsonaro.
Quando soube do “verdadeiro propósito do fundo e da destinação dos recursos” por informações divulgadas pela imprensa, Mineiro afirmou ter pedido o “resgate integral dos valores” transferidos e a apresentação do balancete demonstrativo dos investimentos do fundo, sem obter resposta dos gestores.
As contradições apontadas pela PF
A Polícia Federal reconhece que os documentos entregues por Mineiro confirmam valores e instituições envolvidas, mas aponta “pontos que divergem do depoimento ou que merecem aprofundamento”. Entre as inconsistências identificadas pelos investigadores, a mais direta diz respeito ao conhecimento do destino dos recursos: uma carta-acordo dirigida à Entre Investimentos, empresa de Mineiro, estabelece compromisso de aporte de US$ 24 milhões e menciona expressamente a produção de um filme, o que contraria a versão de que o delator desconhecia a finalidade do investimento.
A PF também questiona a origem declarada dos recursos. Segundo planilha de controle dos repasses analisada pelos investigadores, o primeiro aporte não foi custeado por saque da conta garantida no Banco Master nem por outras fontes declaradas por Mineiro, mas sim por um depósito de R$ 12 milhões da Super Empreendimentos realizado na véspera da remessa.
Além disso, a corporação apontou fragilidades nos documentos de comprovação dos pagamentos, citando a ausência de papéis relativos a parte das remessas. O conjunto dessas divergências é o que sustenta o pedido de mais tempo para a investigação.
Elo com Eduardo Bolsonaro
Os repasses foram realizados por Mineiro por meio da Entre Investimentos para o fundo Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. A previsão total era de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para o financiamento do filme, embora os aportes confirmados até o momento somem US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 62 milhões).
Segundo Mineiro, a orientação para enviar o dinheiro ao Havengate partiu de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, sob a justificativa de que a empresa de Zettel enfrentava entraves cadastrais para investir no exterior. O fundo, vale notar, permaneceu “operacionalmente inerte” por quatro anos antes de receber, em fevereiro de 2025, a primeira remessa de US$ 2 milhões destinada ao filme.
A conexão política da operação vai além dos intermediários financeiros. O The Intercept Brasil mostrou que Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Daniel Vorcaro o repasse. Uma das linhas de investigação da PF é apurar se o dinheiro enviado ao fundo Havengate também serviu para financiar o autoexílio de Eduardo Bolsonaro no Texas, para onde ele se mudou em fevereiro de 2025 após ser cassado pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados por excesso de faltas. A hipótese conecta o financiamento do filme a movimentos mais amplos da família Bolsonaro no período.
A Polícia Federal encaminhou ao STF o material produzido até agora e formalizou o pedido de prorrogação do inquérito por mais 90 dias, direcionado ao ministro André Mendonça, relator do caso. A corporação investiga Flávio e Eduardo Bolsonaro no inquérito sobre o financiamento do Dark Horse.
Um dos obstáculos concretos apontados pelos investigadores é que os documentos analisados “não permitem identificar as contas bancárias de origem dos recursos remetidos pela Go UP”, produtora do filme, o que impede rastrear com precisão o fluxo financeiro completo da operação.
Dark Horse: delator diz que Vorcaro ocultou destino dos dólares enviados a fundo ligado a Eduardo Bolsonaro
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