Lula, Brizola e Maluf: relembre o debate histórico de 1989 que marcou a TV brasileira

Lula, Brizola e Maluf: relembre o debate histórico de 1989 que marcou a TV brasileira
- Dos ausentes no debate, dois nomes de peso haviam sido convidados: Fernando Collor de Mello (PRN), que liderava as...

Em uma noite de julho de 1989, Lula, Leonel Brizola, Paulo Maluf e outros seis candidatos à Presidência da República ficaram frente a frente em um estúdio de televisão. O encontro foi marcado por provocações, interrupções e momentos de tensão. A jornalista Marília Gabriela, responsável pela mediação, anos depois contou que chegou a chorar após a transmissão.
Era o primeiro debate presidencial da história da televisão brasileira, realizado pela TV Bandeirantes em 17 de julho daquele ano.
O encontro aconteceu em um momento histórico. Após quase três décadas sem eleger diretamente o presidente da República, os brasileiros se preparavam para voltar às urnas. A ditadura militar havia terminado em 1985, e a Constituição de 1988 consolidara uma nova etapa democrática. Agora, os diferentes projetos políticos que disputavam o comando do país chegavam às casas dos eleitores pela televisão.
O cenário econômico também era dramático. O governo de José Sarney chegava ao fim sob uma inflação elevada, que corroía salários e tornava a vida cotidiana cada vez mais difícil. A eleição de 1989 seria marcada pela busca de soluções para a crise e pelo confronto entre propostas econômicas e sociais bastante diferentes.
Nove candidatos e um confronto inédito
Participaram do debate Luiz Inácio Lula da Silva, do PT; Leonel Brizola, do PDT; Paulo Maluf, do PDS; Mário Covas, do PSDB; Aureliano Chaves, do PFL; Guilherme Afif Domingos, do PL; Roberto Freire, do PCB; Affonso Camargo, do PTB; e Ronaldo Caiado, do PSD.
O encontro foi idealizado por Fernando Mitre, então diretor de Jornalismo da Band. Como não existia um modelo brasileiro de debate presidencial televisionado, as regras precisaram ser elaboradas e negociadas com as campanhas. A experiência inaugurou uma tradição que atravessaria as eleições seguintes.
O formato permitia situações pouco comuns nos debates atuais. As interrupções e as disputas pelo tempo de fala tornavam o confronto imprevisível, e a mediadora precisava administrar os embates entre os candidatos ao vivo.
Fernando Collor de Mello, que liderava pesquisas e acabaria vencendo a eleição, não participou desse encontro. O candidato do PRN disputaria o segundo turno contra Lula em dezembro, em debates promovidos por um conjunto de emissoras.
Brizola chama Maluf de “filhote da ditadura”
Um dos episódios mais lembrados daquele encontro envolveu Brizola e Maluf. Durante uma discussão, Brizola pediu um aparte enquanto Maluf falava, mas o adversário se recusou a ceder espaço, alegando que tinha direito ao tempo previsto nas regras.
“Não lhe dou aparte, porque eu tenho este minuto”, respondeu Maluf. Brizola insistiu, e o candidato do PDS afirmou que não concederia a interrupção porque seria antirregimental.
Foi nesse contexto que Brizola disparou: “O filhote da ditadura está aqui se queixando”. Maluf reagiu chamando o adversário de “desequilibrado”. Brizola insistiu na provocação e acusou o rival de não ter coragem de defender a ditadura militar.
A troca de farpas não era apenas um embate pessoal. Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, era uma das principais lideranças do trabalhismo brasileiro. Maluf, por sua vez, tinha trajetória ligada à Arena, partido de sustentação da ditadura, e representava uma corrente política associada à direita.
A cena expôs as diferenças entre os candidatos em uma eleição que colocava em disputa não apenas nomes, mas também projetos para o país que emergia de duas décadas de regime autoritário.
Lula, Caiado e a disputa pelo tempo de fala
Lula também protagonizou momentos de tensão. Em uma das passagens do encontro, o petista escolheu Paulo Maluf para responder a uma pergunta, mas Ronaldo Caiado interveio e pediu que a questão fosse dirigida a ele.
As interrupções e disputas pelo uso da palavra ajudam a entender a dificuldade de conduzir um formato ainda inédito na televisão brasileira. Sem a experiência acumulada ao longo de décadas de debates, candidatos e organização precisavam lidar ao vivo com as regras e com os limites de um confronto que despertava grande interesse público.
Covas, Maluf e a discussão sobre o aborto
Outro episódio curioso envolveu Mário Covas e Paulo Maluf. Durante uma discussão sobre a legalização do aborto, Covas declarou ser pessoalmente contrário à medida.
Quando Maluf dispensou o tempo que tinha para responder, Covas perguntou à mediadora, Marília Gabriela, se poderia usar aquele minuto. Ela confirmou que ele tinha direito ao tempo, mesmo sem a resposta do adversário.
Maluf insistiu que, para ele, a questão estava encerrada. Covas então concluiu: “Se para o Maluf basta, para mim, basta”.
Marília Gabriela saiu chorando
Se os candidatos tiveram dificuldade para conter os ânimos, a tarefa de mediar o encontro também deixou marcas. Em entrevista ao programa Conversa com Bial, da TV Globo, em 2018, Marília Gabriela relembrou a experiência.
“Era uma noite gloriosa, a primeira eleição após a ditadura militar. Saí de lá, o diretor de jornalismo veio falar comigo e comecei a chorar. Não ganhava para aquilo. Queria salário insalubridade”, contou, aos risos.
A declaração revela o tamanho do desafio de conduzir um encontro em que os presidenciáveis nem sempre respeitavam os limites. A tensão, que hoje poderia render cortes e repercussão instantânea nas redes sociais, era acompanhada pelo público diretamente pela televisão.
No fim, Lula e Collor
O debate de julho foi apenas o começo de uma campanha que teria outros confrontos televisivos. No primeiro turno, realizado em 15 de novembro de 1989, Lula e Collor avançaram para a disputa final. Brizola terminou em terceiro lugar, depois de uma disputa apertada com o petista.
Lula recebeu cerca de 11,6 milhões de votos, contra aproximadamente 11,1 milhões de Brizola.
No segundo turno, Lula enfrentou Collor, que acabou eleito presidente em 17 de dezembro. Os debates entre os dois candidatos entrariam para a história da televisão brasileira, inclusive pela controvérsia em torno da edição de trechos de um dos confrontos exibidos pelo Jornal Nacional e manipulação, reconhecidas somente anos depois pela emissora.

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