O almoço entre a cúpula da Globo e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), realizado na sexta-feira (16), teve entre os assuntos a intenção de rever o fim da escala 6×1. A conversa ocorreu no mesmo dia em que o Congresso Nacional promulgou a mudança constitucional que garante dois dias de descanso semanal remunerado aos trabalhadores brasileiros.
Segundo revelou o jornalista João Paulo Biage, em coluna publicada no jornal O Povo neste sábado (17), Flávio e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha presidencial, disseram aos executivos da Globo que pretendem revisar o fim da escala 6×1.
Participaram do encontro João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais. A reunião ocorreu na sede da emissora, no Rio de Janeiro, poucas horas antes da sabatina de Flávio no Jornal Nacional.
A apuração de Biage também revela que o Grupo Globo atuou durante a tramitação da proposta trabalhista e contou com uma emenda para excluir empregados de empresas de comunicação dos benefícios da redução da jornada.
A proposta, apelidada de “Emenda Globo”, foi rejeitada, segundo o colunista. Caso tivesse sido acolhida, permitiria que trabalhadores de empresas de comunicação ficassem de fora de uma mudança aprovada para beneficiar milhões de brasileiros.
Almoço da Globo com Flávio expõe disputa pelo fim da 6×1
A revelação ocorre depois de Flávio Bolsonaro mudar publicamente de posição sobre a redução da jornada de trabalho. O candidato, que havia criticado a proposta do governo Lula e classificado a iniciativa como “oportunista”, anunciou voto favorável à PEC na terça-feira (13), após visitar o pai, Jair Bolsonaro.
O apoio, entretanto, não significou o abandono da proposta alternativa defendida pelo PL.
Em 14 de outubro, antes da votação no Senado, a jornalista Débora Bergamasco, da CNN Brasil, revelou que Flávio havia sinalizado a empresários a possibilidade de rever o fim da escala 6×1 caso fosse eleito presidente. Aliados do candidato defendiam alterações a partir de 2027, mesmo com a aprovação da PEC.
A alternativa articulada por Rogério Marinho prevê maior flexibilização das relações de trabalho, com remuneração proporcional às horas trabalhadas. O modelo defendido pela campanha mantém a possibilidade de negociação de jornadas sem assegurar, nos mesmos termos da emenda promulgada, dois dias de descanso remunerado e redução do limite semanal para 40 horas.
Marinho também atuou diretamente na tramitação da PEC 221/2019. Conforme os registros oficiais do Senado, apresentou diversas emendas ao texto, incluindo propostas sobre repouso remunerado e regimes diferenciados de trabalho.
As 36 emendas apresentadas na Comissão de Constituição e Justiça foram rejeitadas. O relator, senador Omar Aziz (PSD-AM), manteve a redação aprovada pela Câmara dos Deputados. Rogério Marinho votou contra o parecer na comissão.
Na quarta-feira (14), o Senado aprovou o fim da escala 6×1 por 75 votos a um, em ambos os turnos. Flávio votou favoravelmente, enquanto Rogério Marinho não registrou voto.
Dois dias depois, a Emenda Constitucional 141 foi promulgada pelo Congresso, com a presença de Lula. A nova regra reduz a jornada máxima de 44 para 42 horas semanais após 60 dias e estabelece o limite de 40 horas depois de mais 12 meses, sem redução salarial.
Jornalistas também entraram na disputa pela jornada
A aplicação do fim da escala 6×1 aos profissionais da comunicação já havia provocado mobilização sindical durante a tramitação da PEC.
Em 1º de setembro, representantes da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) reuniram-se com Omar Aziz para defender a preservação da jornada especial de cinco horas diárias prevista na legislação profissional.
A entidade alertou para o risco de empresas de comunicação utilizarem o segundo dia de descanso para redistribuir horas de trabalho, ampliando a jornada diária dos jornalistas e reduzindo pagamentos adicionais.
Segundo a FENAJ, a ampliação da jornada normal de cinco para seis horas, sem a correspondente compensação, poderia representar perda financeira para profissionais que atualmente recebem pelo trabalho realizado além do limite especial da categoria.
A federação defendeu que a conquista de mais um dia de descanso não poderia servir de justificativa para reduzir direitos trabalhistas já assegurados aos jornalistas.
Bets foram o principal assunto do almoço
A discussão sobre a escala 6×1 não foi, porém, o principal motivo do encontro entre os dirigentes da Globo e Flávio Bolsonaro.
De acordo com João Paulo Biage, a preocupação central dos executivos era a possibilidade de retomada das casas de apostas esportivas, proibidas pelo governo Lula por meio da Medida Provisória 1.394, publicada em 25 de setembro.
A medida proibiu a exploração, a oferta e a publicidade das apostas de quota fixa em território nacional. A decisão atingiu diretamente o Grupo Globo, que não apenas recebia receitas publicitárias do setor, mas também mantém participação societária em uma empresa de apostas.
Em agosto de 2024, o conglomerado anunciou uma parceria com a norte-americana MGM Resorts International para explorar o mercado brasileiro. A operação deu origem à BetMGM, administrada no país pela empresa Boa Lion, sociedade entre os dois grupos.
A BetMGM iniciou suas operações no Brasil em 2025. Em junho deste ano, a Boa Lion também avançou sobre o mercado de jogos virtuais com a aquisição do Bingão do Brasil, negócio que tinha o apresentador Luciano Huck entre seus investidores indiretos.
Com a proibição das bets, a Globo perdeu tanto uma frente de negócios própria quanto receitas de publicidade nas transmissões esportivas e em outros produtos comerciais.
Segundo a coluna de O Povo, João Roberto Marinho e Paulo Tonet ouviram de Flávio Bolsonaro que já existiria um acordo no Congresso Nacional para permitir o retorno das apostas.
A negociação ainda dependeria de uma definição sobre os chamados cassinos virtuais, que incluem jogos como o “tigrinho” e o “aviãozinho”. A existência desse acordo foi relatada pelo candidato aos executivos, conforme a publicação.
Cortes atingiram funcionários da Globo
A perda das receitas das bets também teria provocado medidas de contenção de despesas dentro do Grupo Globo.
Segundo fontes da emissora ouvidas por O Povo, os funcionários foram informados de que as comemorações mensais de aniversariantes e a tradicional festa de fim de ano seriam canceladas.
A comunicação teria sido acompanhada de uma pressão sobre os empregados: a manutenção das confraternizações poderia comprometer a Participação nos Lucros e Resultados (PLR), remuneração adicional recebida pelos trabalhadores.
A informação sobre os cortes acrescenta uma dimensão financeira ao almoço, que a Globo havia apresentado publicamente como uma visita institucional.
Na sexta-feira, a emissora confirmou a reunião e afirmou que não houve participação da direção de Jornalismo. Segundo a empresa, pedidos de visitas institucionais fazem parte da rotina de executivos de empresas de comunicação.
A Revista Fórum noticiou o encontro no próprio dia 16, quando a reunião provocou reação da campanha de Lula. O presidente criticou a emissora por receber seu adversário horas antes da sabatina eleitoral.
O encontro reuniu, portanto, dirigentes de um grupo empresarial diretamente atingido pela proibição das apostas e um candidato cuja campanha defende a revisão da jornada de trabalho recém-aprovada pelo Congresso.
Almoço da Globo com Flávio tratou de rever fim da 6×1; “Emenda Globo” excluía trabalhadores
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