Governo Trump anuncia uso de energia de Itaipu para empresas de IA dos EUA, Brasil não é citado

Governo Trump anuncia uso de energia de Itaipu para empresas de IA dos EUA, Brasil não é citado
- Donald Trump e Santiago Peña no "Escudo das Américas". (SAUL LOEB / AFP)

O governo Donald Trump, dos Estados Unidos anunciou, em 21 de fevereiro, uma parceria com o Paraguai, do direitista Santiago Peña, para utilizar a energia da usina hidrelétrica de Itaipu no abastecimento de infraestrutura de inteligência artificial.
O acordo, firmado entre a empresa americana Crusoe e a desenvolvedora paraguaia Araico, foi divulgado pelo Departamento de Estado durante visita do vice-secretário Christopher Landau ao Paraguai, sem qualquer menção ao Brasil, que administra a usina em conjunto com o país vizinho desde o Tratado de 1973. A ausência brasileira no anúncio levanta questões sobre soberania energética e os interesses geopolíticos de Washington na região.
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Segundo o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o acordo foi firmado entre a Crusoe, empresa americana especializada em infraestrutura para inteligência artificial, e a Araico, desenvolvedora paraguaia de projetos de energia e infraestrutura. O objetivo é construir uma estrutura de computação de alto desempenho abastecida pela energia de Itaipu para atender clientes de serviços de computação em nuvem nos Estados Unidos e na América Latina. A primeira fase da instalação está prevista para entrar em operação em meados de 2027.
O comunicado oficial, no entanto, é notável pelo que omite: não há detalhamento da capacidade de geração destinada ao projeto, do volume de energia contratado nem do valor do investimento das duas empresas. O Brasil, coproprietário da maior hidrelétrica do mundo em geração de energia, simplesmente não foi citado.
O anúncio foi feito durante a visita do vice-secretário de Estado Christopher Landau ao Paraguai, entre os dias 19 e 21 de fevereiro, quando Landau se reuniu com o presidente paraguaio Santiago Peña e com o ministro das Relações Exteriores Rubén Ramírez Lezcano para discutir a ampliação da cooperação econômica e estratégica bilateral.
O papel do Brasil e de Itaipu
A Usina de Itaipu é administrada em conjunto por Brasil e Paraguai. Conforme informou a Itaipu Binacional, a divisão da energia produzida pela hidrelétrica é estabelecida pelo Tratado de Itaipu, assinado em 1973, que garante a cada país o direito a 50% da energia gerada. A posição oficial da usina sobre o acordo foi direta: “A Itaipu não interfere na demanda nacional de cada país, razão pela qual projetos desta natureza não são de competência da Usina.
A visita da delegação norte-americana ocorreu sem a participação da diretoria ou do governo brasileiro. A agenda foi organizada pelo Paraguai e aconteceu no lado paraguaio da usina. Segundo a Itaipu, ações desse tipo podem ocorrer sem a necessidade de autorização do outro país. A resposta, tecnicamente correta dentro dos marcos do tratado, funciona também como um escudo institucional: transfere a responsabilidade política para os governos nacionais e deixa o Brasil sem interlocução visível num acordo que envolve diretamente um bem binacional.
O acordo para a estrutura de computação não é um episódio isolado. Ele integra uma série de iniciativas anunciadas pelo Departamento de Estado para ampliar os investimentos americanos no Paraguai. Durante a mesma visita de Landau, uma delegação empresarial dos EUA discutiu oportunidades em setores como tecnologia, minerais críticos, infraestrutura fluvial e logística. A Uranium Energy Corp. anunciou um investimento de US$ 12 milhões para desenvolver uma concessão de urânio no país.
Os dois governos também assinaram um acordo de assistência para interceptação aérea e iniciaram negociações para cooperação no uso pacífico da energia nuclear. O conjunto de movimentos revela uma estratégia deliberada de Washington para consolidar o Paraguai como parceiro estratégico na América do Sul, com acesso a recursos energéticos, minerais e infraestrutura logística. Juan Pablo Segura, secretário de Estado assistente para Assuntos do Hemisfério Ocidental, foi explícito ao comentar a visita: “A segurança energética é segurança econômica. A represa de Itaipu demonstra o enorme potencial do Paraguai como centro energético regional, onde as empresas norte-americanas podem acessar energia acessível e confiável.”
 

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