Ministério Público registra 530 denúncias de assédio eleitoral pós-eleições; listas de boicote viram alvo da Justiça

Ministério Público registra 530 denúncias de assédio eleitoral pós-eleições; listas de boicote viram alvo da Justiça
- Voto na urna: assédio eleitoral é crime (Fabio Pozzebom/Agência Brasil)

As eleições acabaram, mas o assédio eleitoral não. O MPT registrou 530 novas denúncias em menos de 48 horas após o encerramento da votação, no último domingo (25), um ritmo que o próprio órgão destacou como sinal de que as práticas de pressão política sobre trabalhadores continuam mesmo depois do resultado. O número equivale a 21,4% das 2.467 denúncias acumuladas pela instituição em todo o ano de 2026.
Para ter dimensão do que esse volume representa: até o fim do primeiro turno, o MPT havia recebido 991 denúncias; no segundo turno, foram registrados 946 novos casos. O salto pós-eleição, concentrado em dois dias, indica que a derrota nas urnas não freou as tentativas de retaliação, mas as intensificou. O órgão alertou que ameaças de demissão, dispensas efetivas, recusa de contratação e outras formas de represália motivadas pela escolha do voto podem configurar assédio eleitoral e serão investigadas.
O procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, foi direto ao ponto em declaração divulgada pelo MPT: “O empresário é dono do negócio, e não do voto do seu empregado. Demitir trabalhadores por sua convicção política é ilegal e será alvo de atuação do MPT perante a Justiça do Trabalho”.
O MPT anunciou que investigará ameaças de demissão, dispensas, recusa de contratação e qualquer outra forma de retaliação motivada pelo voto. No Paraná, a atuação já saiu do campo declaratório: o Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR) expediu uma recomendação formal para que o vereador e deputado federal eleito Guilherme Kilter (Novo), de Curitiba, publique uma retratação pública sobre declarações em que incitava empresários a demitirem trabalhadores que votaram em Lula. A recomendação foi expedida após o recebimento de denúncia de assédio eleitoral envolvendo o político.
Casos de assédio e listas de boicote
O caso de Kilter não é isolado. Nas redes sociais, políticos, empresários e influenciadores de direita produziram uma enxurrada de publicações incentivando demissões e boicotes com base na escolha eleitoral. A influenciadora Josiflora, com base superior a 1 milhão de seguidores no Instagram, foi além das demissões: recomendou isolamento total dos eleitores do presidente reeleito, pedindo que o público negasse desde oportunidades de trabalho até favores básicos ou um copo de água. O criador de conteúdo Rapha Hanzol anunciou a demissão de uma profissional por “falta de alinhamento à cultura” da empresa, formulação que camufla o componente político sob jargão corporativo.
Paralelamente, listas de boicote a estabelecimentos comerciais se pulverizaram em aplicativos de mensagens, mapeando ideologicamente o comércio local em praças de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. O objetivo declarado era atacar o faturamento de empresas e empreendedores identificados como apoiadores de Lula. O que antes se limitava a discussões acaloradas em período de campanha ganhou, no pós-eleição, a forma de ações coordenadas para asfixiar financeiramente trabalhadores e pequenos empreendedores.
O MPT-PR foi explícito sobre o enquadramento jurídico dessas práticas: segundo o órgão, trabalhadoras e trabalhadores têm o direito de escolher livremente suas candidatas e candidatos, sendo proibido aos empregadores adotar qualquer medida de caráter retaliatório em razão da escolha eleitoral, incluindo ameaça ou perda do emprego. A atuação do MPT perante a Justiça do Trabalho tem como objetivo garantir que demissões motivadas por convicção política sejam reconhecidas como ilegais e combatidas.
O alcance social do fenômeno vai além do vínculo empregatício formal. As listas de boicote e os chamados ao isolamento de eleitores atingem também pequenos empreendedores e trabalhadores autônomos, que não têm a proteção de um contrato de trabalho mas sofrem pressão econômica direta. A escalada revela que a polarização política, quando se converte em retaliação organizada, deixa de ser apenas um problema eleitoral e passa a ameaçar direitos fundamentais no cotidiano do trabalho e do comércio.

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