Eleito pela segunda vez presidente do Senado Federal em fevereiro de 2025, com 73 dos 81 votos, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), natural do Amapá, construiu sua carreira política no estado natal e, após três mandatos na Câmara dos Deputados, chegou ao Senado em 2015 e se tornou, em 2019 (aos 41 anos), o mais jovem presidente da Casa.
Filho de comerciantes e descendente de uma família de origem judaica e marroquina, Alcolumbre nasceu em 19 de junho de 1977, em Macapá, onde a família construiu negócios nos setores comercial e imobiliário. Ele cursou Ciências Econômicas no Centro de Ensino Superior do Amapá (Ceap), mas não concluiu a graduação. Antes de se dedicar à política, atuou no comércio e participou da Associação Comercial e Industrial de Macapá.
A trajetória eleitoral começou em 1999, quando se filiou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT). Em 2000, foi eleito vereador de Macapá e, durante sua atuação municipal, pautou principalmente atividades ligadas à indústria e ao comércio.
Elegeu-se deputado federal pelo Amapá pela primeira vez em 2002, mandato para o qual foi reeleito em 2006 e 2010. Até 2014, quando encerrou sua passagem pela Câmara, integrou comissões nas áreas de ciência e tecnologia, defesa do consumidor e desenvolvimento rural.
Deixou o PDT para ingressar no então Partido da Frente Liberal (PFL) em 2005. O PFL passaria a se chamar Democratas (DEM) em 2007. Ele acompanhou a reorganização partidária que levou à formação do União Brasil, legenda à qual está filiado atualmente.
Em 2014, Alcolumbre foi eleito senador pelo Amapá, com 36,26% dos votos válidos, para um mandato iniciado em fevereiro de 2015. No Senado, presidiu a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo e, depois, a Comissão de Meio Ambiente. Em 2018, afastou-se temporariamente do mandato para disputar o governo do Amapá, mas não foi eleito.
O salto para o centro da política nacional aconteceu em fevereiro de 2019, quando disputou a presidência do Senado contra Renan Calheiros (MDB-AL), que já havia comandado a Casa em outros períodos. A eleição foi marcada por uma disputa intensa sobre as regras de votação e a legitimidade da condução da sessão preparatória.
Alcolumbre defendia a votação aberta, mas adversários questionavam sua atuação por também ser candidato ao cargo. A senadora Kátia Abreu (então no PDT-TO) chegou a contestar publicamente a condução dos trabalhos, alegando que Alcolumbre era candidato à disputa.
Ele, no entanto, continuou a conduzir os trabalhos durante sete horas e usou uma fralda geriátrica para não interromper a sessão.
Alcolumbre foi eleito presidente do Senado em 2019, com 42 votos no primeiro turno e o apoio de parlamentares alinhados ao governo do então presidente Jair Bolsonaro (PL).
Em novembro de 2019, o The Intercept Brasil publicou uma reportagem sobre propriedades atribuídas a integrantes da família de Alcolumbre e disputas fundiárias no Amapá.
Segundo a reportagem, a família do parlamentar estava envolvida em questões relacionadas a multas ambientais e processos judiciais sobre terrenos públicos, em casos associados à prática conhecida como grilagem de terras.
A revista piauí também mostrou, neste ano, com base em relatórios do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) e da Polícia Federal, alegações de envolvimento dos avós de Alcolumbre com a extração e o contrabando ilegal de ouro, além de abordar a influência política do senador sobre a distribuição de recursos públicos e os negócios de um primo que atua no setor de construção civil no Amapá.
A primeira gestão no Senado
Durante o primeiro mandato à frente da Casa, entre 2019 e 2021, Alcolumbre atuou como articulador entre o governo Bolsonaro e o Congresso. No ano de sua eleição, participou da formalização da transferência definitiva de terras da União para o estado do Amapá, uma reivindicação regional histórica, defendida por setores políticos e econômicos locais.
A gestão também foi marcada pela mediação de disputas econômicas e orçamentárias entre o Executivo e as bancadas parlamentares.
Em 2021, quando ocupava a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Alcolumbre demorou quase cinco meses para marcar a sabatina de André Mendonça, indicado pelo então presidente para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).
Depois de deixar a presidência do Senado em 2021, foi eleito novamente em 2022 para um mandato até 2031 e presidiu a CCJ, onde participou da tramitação de propostas centrais para o governo Lula (PT), como a PEC da Transição, a reforma tributária e o novo arcabouço fiscal.
Em 1º de fevereiro de 2025, Alcolumbre derrotou Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) e Eduardo Girão (Novo-CE) na votação para a presidência do Senado, realizada em sessão com votação secreta. Ele recebeu 73 votos, contra apenas quatro de cada um dos concorrentes.
Controvérsias políticas
A trajetória de Alcolumbre é marcada pela capacidade de estabelecer alianças com grupos políticos distintos. Sua eleição, em 2019, contou com o apoio de setores ligados a Bolsonaro e de adversários de Renan Calheiros, mas ele manteve espaço próprio de negociação no cargo, característica que se destacou durante o governo Lula, na interlocução com o Executivo.
O senador defendeu que o Congresso tivesse autonomia para destinar recursos do Orçamento federal, em consonância com os interesses de representação política e regional dos parlamentares.
Um dos casos controversos relacionados à atuação de Alcolumbre foi o chamado orçamento secreto, mecanismo de distribuição de emendas parlamentares de relator que ganhou força durante o governo Bolsonaro, quando parte significativa dos recursos federais passou a ser distribuída por meio de indicações parlamentares.
Nesse modelo, os critérios de alocação dos recursos não eram suficientemente claros, e o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional o formato que não permitia identificar adequadamente os responsáveis pelas indicações e os beneficiários dos recursos.
Alcolumbre esteve entre as lideranças influentes na distribuição do orçamento secreto e indicou cerca de R$ 1,1 bilhão em emendas de relator, dos quais R$ 935 milhões estavam empenhados.
Ele foi o parlamentar que mais indicou recursos para obras de infraestrutura financiadas pelo Ministério da Defesa em uma manobra orçamentária que destinou cerca de R$ 1 bilhão a redutos eleitorais de integrantes do Centrão, segundo apuração publicada pelo UOL em 2023. Foram R$ 264 milhões em indicações atribuídas ao senador.
Já em fevereiro de 2025, segundo o UOL, Alcolumbre direcionou cerca de R$ 430 milhões para obras dos ministérios da Integração e do Desenvolvimento Regional e das Cidades, em sua maioria relacionadas à infraestrutura, em meio a questionamentos sobre a transparência e os critérios de distribuição dos recursos.
O debate sobre o modelo de distribuição das emendas parlamentares tornou-se um dos principais pontos de tensão entre o Congresso, o governo federal e o Judiciário. Alcolumbre participou, em março de 2025, da discussão de novas regras para a distribuição desses recursos.
Algumas das obras financiadas por emendas parlamentares indicadas por Alcolumbre foram executadas por uma empresa ligada ao segundo suplente do presidente do Senado, e entrou no centro do escândalo uma licitação para a pavimentação da BR-156 na qual teriam sido identificados indícios de fraude.
Alcolumbre, no entanto, negou envolvimento irregular na destinação de recursos e afirmou que as emendas para as quais indicou beneficiários constam de documentos públicos.
Em 2013, quando ainda era deputado federal, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que o parlamentar utilizava recursos destinados ao abastecimento de veículos do gabinete em um posto pertencente a seu tio Salomão Alcolumbre. Na ocasião, o deputado justificou que a família detinha grande parte dos postos de combustíveis do Amapá, o que, segundo ele, tornava difícil abastecer os veículos em estabelecimentos sem vínculo familiar.
Ele também foi investigado por suspeitas de irregularidades nas contas da campanha ao Senado de 2014. As apurações envolviam, entre outros pontos, questionamentos sobre documentos fiscais e despesas eleitorais do senador.
Davi Alcolumbre: conheça a biografia do presidente do Senado
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