Vereador bolsonarista carrega pistola em vídeo e colega diz temer pela própria vida
Um homem senta diante da câmera, põe uma pistola sobre a mesa e começa a carregá-la, bala por bala. Na tela aparece a frase: “Ratos morrem em ratoeiras porque não entendem a razão de o queijo ser grátis”. Logo depois vem o aviso: “Isso não é sobre ratos.”
O vídeo foi publicado em 1º de novembro por Malcon Mazzucatto (União Brasil), vereador de Vinhedo, no interior de São Paulo, para os 574 mil seguidores que ele tem no Instagram. A legenda diz “Ah, se eles soubessem…”. O perfil não deixa dúvida sobre quem são “eles”. Na bio, Malcon se apresenta como vereador “combatendo a esquerda sem medo” e defende “escolas sem PT”, um caso clássico de extremismo bolsonarista.
Para a vereadora Nayla de Souza (Rede), colega de plenário, o vídeo é o ponto final de uma escalada. “Eu acho muito sério que um vereador grave um vídeo depois dizendo que vai atacar na garganta pessoas que pensam diferente dele”, disse ela em vídeo publicado nas redes. Segundo Nayla, Malcon havia afirmado antes que “na cidade temos os esquerdistas, que eu vou na garganta deles”.
Nayla promoteu que vai entregar o mandato se a população de Vinhedo tratar o caso como normal. “Se a população acha que um vereador ameaçar publicamente quem pensa diferente dele e depois fazer um vídeo com uma arma de fogo não representa risco nenhum, eu entrego o meu mandato. Porque eu não vou colocar a minha vida em risco se as pessoas estão concordando com isso.”
Ela também fez questão de dizer que a questão não é ideológica. “Não é sobre as pessoas serem de esquerda, de direita. Aqui nessa casa praticamente todos os vereadores são de direita. E eu não vejo os outros vereadores com esse tipo de conduta. Agora, um vereador fazer o que esse vereador faz, no meu entendimento, ele não é digno do cargo que ocupa.”
Veja o vídeo com o uso da arma e a denúncia da vereadora:
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Histórico de confronto
O vídeo da pistola não é um episódio isolado. Em janeiro, Malcon foi citado pelo Metrópoles entre os bolsonaristas envolvidos em uma briga com militantes de esquerda durante um ato na Faculdade de Direito da USP. Nayla lista outros episódios que atribui ao colega: xingamentos no plenário contra moradores que protestavam contra o aumento do IPTU, ofensas a professores da rede municipal e a conselheiros do Conselho Municipal de Educação, e uma nota de repúdio do Conselho Tutelar que questiona o decoro dele.
Malcon já sabe que suas publicações viraram caso de polícia, e trata isso como piada. Em 28 de outubro, quatro dias antes do vídeo com a arma, ele escreveu: “Satirizar, criticar e fiscalizar agora virou motivo de BO para a militância! Se cada crítica virar boletim de ocorrência, vai faltar delegado para tanto chororô!”
Câmara diante do caso
Um pedido de abertura de processo de cassação por quebra de decoro foi protocolado e, segundo apoiadores do movimento, deve ser analisado na sessão da própria segunda-feira (9), às 14h. A Câmara de Vinhedo tem maioria conservadora. O Decreto-Lei 201/1967, que regula a cassação de vereadores, prevê a perda do mandato de quem “proceder de modo incompatível com a dignidade da Câmara ou faltar com o decoro na sua conduta pública”.
Um abaixo-assinado endereçado à Mesa Diretora, criado em 5 de novembro, pede a abertura do processo. O texto diz que o vídeo tem “potencial caráter intimidatório” e já reunia mais de 2,2 mil assinaturas ate este sábado (7). Nos comentários do vídeo, moradores cobram o presidente da Câmara: “Isso é quebra de decoro. Cadê o presidente da câmara e os demais? Pensam como o vereador?”
A reportagem da Fórum procurou o vereador Malcon Mazzucatto para que se manifestasse sobre o assunto, mas até o momento não recebeu retorno. O espaço segue aberto para o posicionamento do parlamentar.
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