O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara e candidato à reeleição, declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de R$ 600 mil. Desse total, R$ 500 mil estão registrados como dinheiro em espécie e outros R$ 100 mil correspondem a um terreno no Jardim Botânico, em Brasília.
A declaração eleitoral cruza diretamente com uma investigação da Polícia Federal sobre a origem dos R$ 468,7 mil encontrados em dezembro de 2025 escondidos dentro de um saco plástico, guardado em um armário no flat utilizado pelo parlamentar em Brasília.
Procurado pelo jornal O Globo, Sóstenes confirmou que os R$ 500 mil declarados à Justiça Eleitoral correspondem ao dinheiro apreendido pela PF, que permanece sob custódia das autoridades. O deputado afirma que pretende recuperar o valor por meio de seus advogados.
Dinheiro apreendido aparece na declaração eleitoral
Na descrição apresentada ao TSE, Sóstenes afirma que os R$ 500 mil correspondem ao “preço certo e ajustado pela venda de uma casa, decorrente de transação comercial registrada em escritura pública e contrato particular de compra e venda celebrado”.
O registro formal do dinheiro como parte de seu patrimônio, no entanto, não responde à questão central investigada pela PF: qual é a origem dos R$ 468,7 mil encontrados no flat e se a documentação apresentada pelo deputado comprova efetivamente a versão da venda do imóvel.
A Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) sustentam que, até o atual estágio das investigações, a procedência do dinheiro não foi comprovada. Para a PGR, o valor apreendido ainda carece de documentação idônea capaz de justificar sua posse e origem lícita.
Quando a operação foi realizada, em 19 de dezembro de 2025, a quantia encontrada foi inicialmente divulgada como cerca de R$ 430 mil. A contagem registrada posteriormente nos documentos da investigação apontou o valor exato de R$ 468,7 mil. O dinheiro estava dentro de sacos plásticos, em notas de R$ 100, guardado no armário do flat alugado por Sóstenes.
Escritura registrada depois da apreensão
Desde que o dinheiro foi encontrado, Sóstenes afirma que os recursos vieram da venda de uma casa em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, ao advogado Thiago Ferreira de Paula. Segundo a escritura, o imóvel teria sido negociado por R$ 500 mil, pagos integralmente em espécie no dia 24 de novembro de 2025.
O deputado justificou o fato de não ter depositado o dinheiro em uma instituição bancária dizendo que se esqueceu por causa da rotina de trabalho.
“Foi simplesmente um lapso. Eu recebi o dinheiro e guardei”, declarou. Em outra entrevista, afirmou que o dinheiro era lícito e que pretendia utilizá-lo em novos negócios.
A cronologia dos documentos, porém, despertou a atenção dos investigadores. Embora o suposto pagamento tenha ocorrido em 24 de novembro, a escritura pública somente foi lavrada em cartório no dia 30 de dezembro de 2025 — 11 dias depois de a PF encontrar o dinheiro no flat do parlamentar.
Para a Polícia Federal, o registro posterior à apreensão levanta a suspeita de que a documentação tenha sido produzida para conferir respaldo formal, de maneira retroativa, à explicação apresentada para o dinheiro vivo.
Além disso, a análise de quebras de sigilo e de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) não identificou saques feitos pelo suposto comprador em datas próximas ao pagamento dos R$ 500 mil.
A investigação também apontou movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada pelo advogado. Segundo a PF, o total de créditos movimentados por Thiago Ferreira de Paula teria sido cerca de 17 vezes superior à renda informada, sem que fossem apresentados documentos suficientes para explicar as transações.
Desvio de cota parlamentar e suspeita de fraude processual
A investigação sobre a origem do dinheiro é um dos desdobramentos da Operação Rent a Car, que apura o suposto desvio de recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar — verba pública destinada ao pagamento de despesas relacionadas ao mandato dos deputados.
Segundo a PF, contratos de locação de veículos teriam sido utilizados para dar aparência de legalidade à retirada e à movimentação desses recursos. Uma das empresas investigadas teria continuado recebendo pagamentos da Câmara mesmo depois de ser dissolvida irregularmente.
Em dezembro de 2025, a Operação Galho Fraco, derivada da Rent a Car, teve Sóstenes e o deputado Carlos Jordy (PL-RJ) como alvos. Foi durante essa ação que o dinheiro foi apreendido no flat utilizado pelo líder do PL.
Como a Fórum mostrou na ocasião, os agentes encontraram inicialmente cerca de R$ 430 mil em espécie no endereço ligado a Sóstenes. O montante exato, de R$ 468,7 mil, tornou-se posteriormente um dos principais eixos da investigação.
Em 1º de julho de 2026, a PF deflagrou a terceira fase da Rent a Car, denominada Galho Fraco II. Sóstenes não foi alvo direto das buscas nessa etapa, que atingiu advogados, empresários e pessoas ligadas ao parlamentar no Distrito Federal, em Goiás e em Minas Gerais.
A nova fase foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF, e busca esclarecer tanto a movimentação do dinheiro supostamente desviado da cota parlamentar quanto possíveis tentativas de ocultação ou alteração de provas. São investigadas suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa.
Patrimônio saltou de menos de R$ 5 mil para R$ 600 mil
A declaração apresentada para as eleições de 2026 também expõe uma mudança expressiva no patrimônio informado por Sóstenes à Justiça Eleitoral.
Em 2022, o deputado havia declarado apenas R$ 4.926,76, distribuídos em contas bancárias. Na declaração atual, o patrimônio chegou a R$ 600 mil — dos quais R$ 500 mil estão concentrados justamente no dinheiro em espécie apreendido e cuja origem permanece sob investigação.
O aumento patrimonial, isoladamente, não comprova a prática de qualquer irregularidade. No entanto, ganha relevância política no contexto das inconsistências cronológicas e financeiras apontadas pela PF sobre a venda do imóvel apresentada para justificar a quantia.
Sóstenes Cavalcante nega qualquer ilegalidade. O parlamentar sustenta que o dinheiro tem origem lícita, afirma que a compra e venda ocorreu antes da operação policial e diz ser vítima de perseguição por integrar a oposição. A investigação continua em andamento, e não há condenação contra o deputado nesse caso.
Após PF achar R$ 468 mil escondidos em armário, Sóstenes declara R$ 500 mil em dinheiro vivo ao TSE
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