Alexandre Caetano dos Reis, dono da Voga Serviços Contábeis e responsável pela contabilidade do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), está preso preventivamente desde dezembro de 2025. Em decisão proferida na PET 15.041, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), reproduziu elementos da Polícia Federal (PF) que situam o contador no núcleo administrativo-financeiro investigado pela Operação Sem Desconto.
A ligação de Alexandre Caetano com Flávio Bolsonaro aparece nos documentos fiscais da banca do senador. Como mostrou a Fórum nesta quinta-feira (30), uma nota fiscal de R$ 500 mil emitida pelo escritório traz no cabeçalho um endereço eletrônico da Voga. Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre, administra a sociedade individual de advocacia de Flávio.
Quem é Alexandre Caetano dos Reis
Alexandre Caetano dos Reis é contador e empresário com atuação em Brasília. Ele é proprietário da Voga Serviços Contábeis, empresa que presta serviços para o escritório de Flávio Bolsonaro e para companhias relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
A defesa afirma que Alexandre construiu uma longa carreira na capital federal e tem mais de mil clientes. Os advogados usam o tamanho da carteira para sustentar que a prestação de serviços contábeis a uma empresa investigada não significa participação nas atividades atribuídas ao cliente.
Alexandre foi preso em uma nova fase da Operação Sem Desconto, deflagrada em dezembro de 2025. A prisão é preventiva, medida cautelar utilizada durante a investigação, e não equivale a uma condenação.
Voga aparece em nota fiscal do escritório de Flávio
O vínculo profissional com Flávio Bolsonaro tornou-se público a partir de uma nota fiscal emitida em abril de 2025. O escritório do senador cobrou R$ 500 mil da Contábil Corrêa por serviços de assessoria jurídica. No documento, o endereço eletrônico da Voga aparece como contato da contabilidade responsável pela banca.
A Contábil Corrêa pertence ao contador Rogério Lourenço Novo, também relacionado à Copenhagen Consultoria. A Copenhagen recebeu R$ 58 milhões do Banco Master, instituição então controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
A Fórum também revelou que o escritório de Flávio teve apenas dois clientes registrados em seu faturamento. Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre, é a administradora da banca desde sua abertura.
A presença da Voga nos documentos comprova a relação profissional entre o contador e o escritório. Isoladamente, porém, o registro não demonstra que Flávio Bolsonaro tenha participado das fraudes investigadas no INSS.
O que a Polícia Federal atribui ao contador
A decisão que decretou a prisão de Alexandre afirma, com base na representação da Polícia Federal, que ele teria participado do gerenciamento financeiro, do controle de pagamentos e da intermediação de operações usadas para ocultação patrimonial.
Segundo o documento, Alexandre atuou como contador de diferentes empresas vinculadas ao Careca do INSS e tinha acesso a planilhas internas, documentos estratégicos e operações financeiras consideradas sensíveis pelos investigadores.
A PF também afirma que conversas obtidas durante a investigação mostram Alexandre em tratativas relacionadas a pagamentos, valores elevados e compra ou negociação de veículos. Essas informações ainda estão sob apuração e são contestadas pela defesa.
Outra empresa citada na decisão é a Vênus Consultoria e Assessoria Empresarial. Alexandre aparece como contador responsável pela companhia. De acordo com a Polícia Federal, a Vênus teria sido utilizada para formalizar contratos simulados, emitir notas fiscais sem prestação efetiva de serviços e receber recursos provenientes dos descontos indevidos em benefícios previdenciários.
Offshore comprou quatro imóveis por R$ 11 milhões
A Polícia Federal aponta Alexandre como sócio do Careca do INSS na Camilo & Antunes Limited, empresa sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. Antônio Carlos Camilo Antunes aparece como procurador e representante legal da companhia.
Segundo a representação policial reproduzida na decisão do STF, a offshore comprou quatro imóveis no Brasil em 2024, pelo valor total de R$ 11,05 milhões. Os investigadores suspeitam que a estrutura no exterior tenha sido utilizada para internacionalização e ocultação de patrimônio.
As informações também foram citadas em requerimentos apresentados à CPMI do INSS. Os pedidos registram que a atribuição da sociedade e da finalidade da offshore partiu do relatório da Polícia Federal.
A defesa de Alexandre nega que ele tenha sido sócio empresarial do Careca do INSS. Os advogados sustentam que a relação estava restrita à prestação de serviços contábeis.
CPMI terminou sem relatório final
A CPMI do INSS aprovou requerimentos para convocar Alexandre Caetano dos Reis, mas a comissão terminou em 28 de março de 2026 sem aprovar um relatório final.
O parecer apresentado pelo relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), foi rejeitado por 19 votos a 12. Após o resultado, o presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), encerrou os trabalhos sem colocar em votação o relatório alternativo elaborado por parlamentares governistas.
Isso significa que pedidos de indiciamento e conclusões presentes nos dois pareceres não representam uma posição formal da CPMI. Os dados sobre Alexandre utilizados nesta reportagem estão ancorados na decisão do STF, na representação da Polícia Federal e nos requerimentos oficiais apresentados durante a comissão.
Conselho fiscalizou declarações da Voga
Alexandre Caetano dos Reis também foi alvo de fiscalizações do Conselho Regional de Contabilidade do Distrito Federal (CRC-DF) antes de a Operação Sem Desconto vir a público. As informações foram reveladas pela colunista Natália Portinari, do portal UOL.
A primeira fiscalização começou em julho de 2018. O conselho solicitou à Voga uma lista de clientes com dados como CNPJ, regime de tributação e início dos contratos. O contador recorreu à Justiça contra a exigência.
Em 2022, o Superior Tribunal de Justiça deu razão a Alexandre nesse processo e o desobrigou de fornecer as informações pedidas pelo conselho.
Uma segunda fiscalização, aberta em 2019, analisou 21 Declarações Comprobatórias de Percepção de Rendimentos, conhecidas como Decores. O CRC apontou problemas em dez documentos e afirmou que as declarações não estavam acompanhadas do lastro documental exigido.
As Decores são emitidas por contadores para comprovar a renda de profissionais autônomos e podem ser apresentadas em operações de crédito ou licitações. As constatações administrativas do CRC não constituem condenação criminal e são distintas da investigação sobre as fraudes no INSS.
O conselho informou ao portal UOL que não comentaria procedimentos ainda em apuração, em respeito ao devido processo legal, à ampla defesa e ao sigilo administrativo. A defesa de Alexandre não se manifestou ao veículo sobre as fiscalizações. Flávio Bolsonaro também não respondeu aos questionamentos encaminhados pela reportagem.
O que diz Alexandre Caetano dos Reis
Em depoimento à Polícia Federal, Alexandre negou ter administrado o dinheiro das empresas relacionadas ao Careca do INSS.
“O meu envolvimento com a movimentação financeira é zero.”
O contador declarou que não tinha acesso às contas bancárias, não efetuava pagamentos e não decidia quais compromissos financeiros deveriam ser quitados. A defesa também afirma que ele não participou de fraudes ou de qualquer esquema de desvio de recursos de aposentados.
Os advogados pediram ao STF a revogação da prisão preventiva. Eles argumentam que Alexandre tem carreira consolidada, uma ampla carteira de clientes e não poderia ser responsabilizado automaticamente por supostos crimes atribuídos a empresas para as quais prestava serviços.
Caso Lulinha recoloca o contador no centro do debate
O nome de Alexandre voltou ao centro da disputa política após a abertura de uma nova frente de investigação sobre alegações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o Careca do INSS.
No inquérito anterior da Operação Sem Desconto, a Polícia Federal indiciou 48 pessoas, mas não incluiu Lulinha. Segundo a PF, não foram encontrados naquele procedimento elementos suficientes para relacionar o filho do presidente Lula às fraudes nos descontos associativos.
A nova apuração investiga alegações que já haviam sido analisadas parcialmente. Sua abertura não altera o resultado do inquérito concluído e tampouco representa condenação ou confirmação das acusações contra Lulinha.
As situações jurídicas são distintas. Lulinha não foi indiciado no inquérito concluído em julho. Alexandre permanece preso preventivamente e é citado nominalmente na decisão do STF que reproduz as suspeitas da Polícia Federal sobre o núcleo administrativo-financeiro investigado.
A documentação também estabelece que Alexandre presta serviços contábeis ao escritório de Flávio Bolsonaro e que sua irmã administra a banca. Até o momento, porém, os documentos consultados não demonstram que o senador tenha participado das fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.
Quem é Alexandre Caetano dos Reis, contador de Flávio ligado ao Careca do INSS
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