O Partido dos Trabalhadores oficializa neste domingo (2) a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, em convenção nacional realizada no Expo Center Norte, na Zona Norte de São Paulo, a partir das 10h.
Lula chega à sua sétima disputa presidencial, das quais saiu vitorioso em três delas, enfrentando uma coalização internacional da ultradireita comandada por Donald Trump, que reúne figuras como Javier Milei e Benjamin Netanyahu, que interfere diretamente na disputa em favor de Flávio Bolsonaro (PL).
Alçado pelo pai ao posto, o filho “01” de Jair Bolsonaro ainda conta a blindagem explícita dos dois ministros indicados pelo ex-presidente às altas cortes do país. Na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques vem concentrando poder em decisões favoráveis ao senador. Vice na corte eleitoral, André Mendonça comanda a blindagem de Flávio Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF), em escândalos como do caso Master, enquanto avaliza ações de pesca probatória da ala lavajatista da Polícia Federal (PF) contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente.
A chapa reedita a parceria com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e reúne sete partidos do campo progressista. A escolha de São Paulo como palco do lançamento não é acidental: o estado concentra mais de 34 milhões de eleitores e foi justamente onde Lula ficou atrás de Jair Bolsonaro (PL) na disputa há quatro anos, o que torna a disputa pelo eleitorado paulista central para a estratégia de reeleição.
A convenção no Expo Center Norte deve reunir 3.500 pessoas e funcionará como vitrine política da aliança que o PT construiu para 2026. Além de Lula e Alckmin, subirão ao palco o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e o ex-ministro Fernando Haddad, candidato do partido ao governo de São Paulo. A presença de Haddad no evento alimentou, nos bastidores, as especulações sobre seu papel como possível sucessor de Lula no horizonte político do partido.
O evento reúne ainda governadores e senadores aliados de diferentes regiões do país. Estarão presentes Elmano de Freitas (CE), Fátima Bezerra (RN), Jerônimo Rodrigues (BA) e Rafael Fonteles (PI), além das candidatas ao Senado Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB). A composição do palanque foi deliberada: mostrar que a candidatura de Lula ancora uma frente que vai além do PT e projeta força em estados onde o governo tem aprovação consolidada.
A candidatura de Alckmin já havia sido formalizada em convenção do PSB na quarta-feira (29), com a presença do próprio Lula. A sequência dos eventos, com o PT oficializando a chapa dias depois, reforçou a coesão da aliança e encerrou a etapa formal de homologação antes do prazo de 5 de agosto estabelecido pela Justiça Eleitoral para as convenções partidárias.
A chapa e as alianças
Aos 80 anos, Lula busca o quarto mandato presidencial. Eleito em 2002, reeleito em 2006 e reconduzido ao Palácio do Planalto em 2022, o presidente monta agora a aliança mais ampla do campo progressista desde a redemocratização: sete partidos, PT, PV, PCdoB, PSB, PDT, PSOL e Rede, compõem a base formal da candidatura. Trata-se de um fato inédito desde 1989.
A estrutura da aliança se organiza em torno de duas federações partidárias. A Federação Brasil da Esperança, que reúne PT, PV e PCdoB, é a espinha dorsal do governo desde 2022. A Federação PSOL/Rede completa o arco progressista, com destaque para Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e candidata ao Senado em São Paulo na chapa encabeçada por Haddad. O PDT foi o primeiro a formalizar apoio, em 20 de julho, motivado pela defesa da pauta trabalhista e pelo enfrentamento à extrema-direita.
Alckmin, que em 2006 foi o principal adversário de Lula na disputa presidencial pelo PSDB, consolidou nos últimos quatro anos uma posição de confiança dentro do governo. Além da vice-presidência, chefiou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, fazendo a ponte entre o Palácio do Planalto e o empresariado. A manutenção da chapa sinaliza estabilidade política e continuidade de um modelo de aliança que já provou funcionar nas urnas.
O peso de São Paulo na estratégia eleitoral
A escolha de São Paulo para sediar a convenção nacional não foi protocolar. O estado concentra mais de 34,1 milhões de eleitores, o equivalente a 21,48% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Na prática, mais de um em cada cinco votos do país está em São Paulo, o que torna qualquer variação de desempenho no estado decisiva para o resultado nacional.
O histórico recente é um alerta para a campanha petista. Em 2022, mesmo vencendo no plano nacional, Lula foi derrotado em São Paulo com 44,76% dos votos válidos no segundo turno, contra 55,24% de Jair Bolsonaro, uma diferença de quase 2,7 milhões de votos. Reverter ou ao menos reduzir essa margem é um dos objetivos centrais da estratégia para 2026. Nos bastidores, a campanha definiu São Paulo como prioridade e prepara ações específicas para enfrentar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que coordenará a campanha de Flávio Bolsonaro no estado.
A convenção em São Paulo também carrega um componente simbólico que a campanha não ignora. Foi no ABC paulista que Lula se tornou metalúrgico, assumiu a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema em 1975 e ganhou projeção nacional como liderança sindical. Realizar o lançamento da candidatura nesse território é uma forma de conectar a trajetória pessoal do presidente à disputa eleitoral. A montagem de palanques estaduais sólidos, com candidatos competitivos ao governo e ao Senado, é considerada decisiva para melhorar o desempenho de Lula nas regiões onde encontrou maior resistência.
Desafios e o cenário político
A campanha começa em terreno mais favorável do que parecia há alguns meses, mas os desafios são concretos. Lula enfrenta um quadro de aprovação empatada com a desaprovação e um adversário que, apesar dos tropeços, mantém base eleitoral fiel. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é o principal nome da oposição, e a polarização com o bolsonarismo deve estruturar a disputa de 2026 da mesma forma que moldou a de 2022. Lula terá cerca de 20% a mais de tempo de televisão e de fundo eleitoral do que Flávio, vantagem que decorre da composição partidária de cada campo, mas que não resolve por si só o desafio de ampliar votos além da base consolidada.
Aliados do presidente avaliam que Lula tem se beneficiado dos erros do adversário. A briga pública entre Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e a divulgação de um áudio em que o senador pede dinheiro a Daniel Vorcaro para supostamente financiar um filme sobre Jair Bolsonaro geraram desgaste no campo oposicionista. A expectativa do entorno de Lula é que a campanha permita ao presidente mostrar seu legado e converter em votos medidas anunciadas às vésperas das eleições.
Esta é a sétima vez que Lula se candidata à Presidência da República. Disputou em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022. Em 2018, quando estava preso, teve a candidatura barrada pelo TSE. O saldo é de três vitórias (2002, 2006 e 2022) e três derrotas (1989, 1994 e 1998). Se vencer em outubro, será o primeiro brasileiro a conquistar quatro eleições diretas para presidente e o mais velho a ocupar o cargo, já que faz 81 anos em outubro deste ano.
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