“Kallas tá longe.” “Vazou.” As duas mensagens aparecem em uma sequência de diálogos analisada pela Polícia Federal sobre informações que, na avaliação dos investigadores, poderiam servir para antecipar medidas judiciais contra pessoas ligadas ao caso Banco Master. O “Kallas” citado na conversa é identificado pela própria PF como uma provável referência ao empresário Lucas Kallas, fundador da Cedro Participações. Nos diálogos captados pela PF, ele é citado em um suposto vazamento de informações sobre ação policial contra Henrique e Natália Vorcaro, pai e irmã de Daniel Vorcaro.
Em notas enviadas à Fórum, Lucas Kallas e a Cedro Participações afirmam que as citações partem de terceiros “especulando” sobre fatos que desconhecem. Kallas nega ter recebido informações privilegiadas ou estar “foragido”, enquanto a Cedro nega relação societária com Daniel Vorcaro e afirma que a suposta “sociedade no hospital” nunca existiu. Leia as duas notas na íntegra ao final da reportagem.
Em nota, o Instituto Iter afirma que “nem Lucas Prado Kallas nem o ministro André Mendonça participaram das tratativas sobre o aporte” e nega qualquer relação com Daniel Vorcaro e o Banco Master. Leia a nota na íntegra ao final da reportagem.
O nome de Lucas Kallas ganhou nova projeção nesta semana por outra conexão. Em abril de 2024, a Cedro Participações firmou com o Instituto Iter, criado pelo ministro André Mendonça, um contrato de mútuo conversível de até R$ 5,9 milhões. Segundo o instituto do ministro, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), os recursos foram destinados à estruturação e às atividades iniciais da entidade.
As mensagens foram localizadas na Informação de Polícia Judiciária nº 2700345/2026, enviadas ao próprio Mendonça. Pouco antes da referência a Kallas, Bruno Corrêa Lopes havia enviado uma informação que classificava como segura: “o HV é o próximo e Natália tornozeleira”. Logo depois, escreveu: “temos pouco tempo” e “muito pouco”. As informações foram obtidas pelo Fórum Investiga, o núcleo de jornalismo investigativo da Fórum.
Para a PF, “HV” seria Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Natália é Natália Bueno Vorcaro Zettel, filha de Henrique e irmã do ex-controlador do Banco Master. Ela também é casada com Fabiano Zettel, pastor da Igreja Lagoinha e operador de Vorcaro. O relatório registra que as mensagens provavelmente faziam referência a uma futura prisão de Henrique e à imposição de tornozeleira eletrônica a Natália.
O documento não afirma que Lucas Kallas tenha recebido informação antecipada, que fosse a origem de eventual vazamento ou que tenha praticado qualquer ilegalidade. O que os investigadores fazem é identificar seu nome dentro de uma sequência que interpretam como possível alerta prévio sobre medidas judiciais.
“Informação segura” e “vazou”
Os diálogos são de 6 de março de 2026. Depois de compartilhar imagens e notícias relacionadas a Daniel Vorcaro, Bruno encaminha a mensagem sobre Henrique e Natália. Minutos mais tarde, repassa trechos aparentemente originados de uma conversa com outra pessoa.
Em uma das mensagens encaminhadas, lê-se que Henrique e “kalas” seriam próximos. A resposta é: “Kallas tá longe”. Na mensagem seguinte aparece uma única palavra: “vazou”. O interlocutor então acrescenta: “é mas vira foragido”.
Mensagens reproduzidas pela PF trazem informação sobre Henrique e Natália Vorcaro e, na sequência, as frases “Kallas tá longe” e “vazou”. Reprodução/PF
PF fala em alerta sobre medidas judiciais
Logo após reproduzir a conversa, a própria Polícia Federal explicita como interpreta aquele conjunto de mensagens.
Segundo o relatório, “pode-se presumir que as mensagens recebidas por Bruno objetivavam alertar sobre medidas judiciais que seriam cumpridas contra determinados indivíduos”.
Na sequência, a PF afirma que, além de Henrique Vorcaro, a conversa menciona “kalas”, em provável referência a Lucas Prado Kallas, ligado à Cedro Participações e ao setor de mineração.
O relatório acrescenta, a partir de fontes abertas, que Kallas já teria sido sócio de Daniel Vorcaro em alguns negócios. Essa passagem não equivale a afirmar que Vorcaro tenha sido sócio da Cedro. A holding já sustentou publicamente que Daniel Vorcaro nunca integrou seu quadro societário nem o de suas controladas.
Kallas e Vorcaro também estiveram em Caracas no mesmo período, no fim de novembro de 2023. E-mails encontrados no celular do banqueiro, segundo reportagem do UOL, registram duas suítes no mesmo hotel, pagas por Vorcaro. Kallas sustenta que as agendas de prospecção eram independentes.
Polícia Federal afirma que as mensagens poderiam ter o objetivo de alertar sobre medidas judiciais e identifica “kalas” como provável referência a Lucas Kallas. Reprodução/PF
Possível origem policial das informações
Outro trecho do diálogo chamou a atenção dos investigadores. Depois das mensagens, Manoel Mendes Rodrigues pergunta a Bruno: “esse não e o tal do Pf do Felipe não né”.
Bruno responde que não e menciona “marilson”, referência que a PF associa a Marilson Roseno da Silva, policial federal preso na 3ª fase da Operação Compliance Zero.
O relatório então registra que a conversa “reforça a ideia de que as informações relativas a investigados poderiam advir de outros integrantes da Polícia Federal”, além de Marilson.
O documento não identifica quem teria fornecido a informação sobre Henrique e Natália e tampouco atribui a Kallas a origem dos dados.
A hipótese de obtenção indevida de informações sigilosas já aparece em outro braço da Compliance Zero. Em julho, ao anunciar oficialmente a 10ª fase da operação, a Polícia Federal informou que investigava uma possível organização criminosa dedicada, entre outras condutas, à obtenção indevida de informações sigilosas e à adoção de medidas destinadas a interferir em investigações criminais.
Isso não significa que Kallas esteja vinculado a esse núcleo específico. A relevância do novo documento está no fato de que a própria PF levanta, na análise das mensagens em que seu nome aparece, a possibilidade de que informações sobre investigados tivessem origem dentro da corporação.
“Sócio dele na mineração” e “no hospital”
Depois da conversa sobre a possível fonte policial, Bruno volta ao nome de Lucas Kallas.
“Kallas é um bilionário sócio dele na mineração”, escreve. Logo depois acrescenta: “e no hospital”.
A PF registra que a expressão “dele” provavelmente se refere a Daniel Vorcaro. O relatório, porém, não informa qual negócio de mineração estaria sendo mencionado e tampouco identifica o empreendimento hospitalar.
Bruno Corrêa Lopes descreve Lucas Kallas como “sócio dele na mineração” e “no hospital”; para a PF, a referência seria provavelmente a Daniel Vorcaro. Reprodução/PF
A pista da Oncoclínicas
O Fórum Investiga cruzou a referência a “hospital” com os negócios conhecidos de Kallas e da Cedro no setor de saúde. A conexão empresarial hospitalar mais consistente encontrada nesse levantamento aponta para a Oncoclínicas.
Isso não permite afirmar que Bruno estivesse falando da companhia. O nome Oncoclínicas não aparece nesse trecho do relatório da PF. Os documentos públicos, porém, mostram relações empresariais concretas entre o grupo de Kallas e a rede de tratamento oncológico.
Em fato relevante apresentado à Comissão de Valores Mobiliários, a própria Oncoclínicas informou que mantinha contratos com empresas afiliadas à Cedro para o desenvolvimento de complexos hospitalares.
Um deles envolvia um centro de tratamento oncológico em Belo Horizonte. O documento registra ainda que um cancer center em Goiânia era o único remanescente entre três empreendimentos contratados com aquela contraparte. Em outro fato relevante, a companhia informou o distrato de um projeto built to suit em São Paulo que também seria desenvolvido por sociedade afiliada da Cedro.
No distrato de Belo Horizonte, o valor ajustado chegou a R$ 210 milhões. Segundo o comunicado à CVM, a obrigação foi convertida em instrumento financeiro e seria utilizada integralmente por um veículo de investimento da Cedro para integralizar novas ações da própria Oncoclínicas.
Há também uma relação direta de Kallas com o capital da companhia. A própria Cedro informa em seu site que o empresário deixou de ser investidor da Oncoclínicas ao vender, em 2026, sua participação na gestora Latache Capital, acionista da rede de saúde.
A Oncoclínicas também aparece em documentos oficiais envolvendo o Banco Master. Em dezembro de 2025, a empresa informou à CVM que as cotas do fundo Tessália, controlador indireto de ações da Oncoclínicas por meio do fundo Quíron, haviam sido transferidas pelo Banco Master ao BRB.
Outro fato relevante mostrou que a própria Oncoclínicas mantinha aproximadamente R$ 433 milhões em CDBs emitidos pelo Banco Master de Investimento quando ocorreu a liquidação da instituição.
O cruzamento, portanto, estabelece uma conexão documentada entre Kallas/Cedro, Oncoclínicas e negócios relacionados ao Master. Não estabelece que essa seja a sociedade “no hospital” mencionada por Bruno nem prova participação conjunta de Kallas e Vorcaro nesse empreendimento.
R$ 5,2 milhões para o Iter
O nome de Lucas Kallas ganhou nova projeção nesta semana por outra conexão. Em abril de 2024, a Cedro Participações celebrou com o Instituto Iter um contrato de mútuo conversível de até R$ 5,9 milhões.
Do total previsto, aproximadamente R$ 5,2 milhões foram efetivamente repassados. O instrumento era um empréstimo conversível, e não uma contratação da instituição para prestar serviços à Cedro.
Segundo o Iter, os recursos foram destinados à estruturação e às atividades iniciais da entidade. A instituição informou ainda que interrompeu os repasses e iniciou a devolução em janeiro de 2026.
O Iter foi cofundado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça em 2023. Em 3 de setembro deste ano, Mendonça anunciou que deixaria a sociedade e que suas cotas e as de sua mulher seriam destinadas a finalidades sociais e educacionais. A decisão foi confirmada publicamente pelo ministro.
A relação entre o Iter e o entorno do caso Master já vinha sendo acompanhada pelo Fórum Investiga. Em reportagem anterior, a Fórum revelou que o Cioeste firmou contrato de R$ 1,2 milhão com o Instituto Iter em um contexto no qual o instituto de previdência de São Roque havia aplicado R$ 93 milhões no Banco Master.
Em fevereiro, Mendonça já atuava como relator de procedimentos da Compliance Zero no STF. Naquele mês, o Supremo informou que o ministro havia autorizado o fluxo de perícias da Polícia Federal sobre cerca de cem dispositivos eletrônicos apreendidos no âmbito da investigação.
A existência do mútuo entre Cedro e Iter não demonstra relação entre o instituto e as mensagens sobre possível informação antecipada. São núcleos distintos da apuração que se encontram na figura de Lucas Kallas.
Contraditório
A Fórum procurou a Cedro Participações e Lucas Kallas para esclarecer se o empresário manteve sociedade, parceria, investimento conjunto ou outro vínculo com Daniel Vorcaro nos setores de mineração ou saúde, a qual negócio poderia se referir a expressão “no hospital” e se Kallas recebeu, direta ou indiretamente, qualquer informação antecipada sobre operações ou medidas judiciais envolvendo Henrique ou Natália Vorcaro.
A reportagem também questionou a Cedro sobre o contrato de mútuo conversível com o Instituto Iter e perguntou se Daniel Vorcaro participou de alguma forma da aproximação, negociação ou apresentação entre as partes.
Ao Instituto Iter, a Fórum perguntou quem negociou e aprovou o mútuo, se André Mendonça participou ou teve conhecimento prévio das tratativas com a Cedro e se Daniel Vorcaro participou direta ou indiretamente da aproximação. A defesa de Vorcaro também foi procurada sobre a relação empresarial com Kallas, as referências a mineração e hospital e eventual conhecimento antecipado de medidas policiais ou judiciais envolvendo integrantes da família.
Veja a nota enviada por Lucas Kallas
Nota de Esclarecimento – Assessoria de Imprensa de Lucas Kallas
As mensagens interceptadas mostram terceiros especulando sobre fatos que desconhecem.
O empresário nunca foi sócio de Daniel Vorcaro na mineração e não tem qualquer relação com a Itaminas.
É absurda a alegação de que ele teria recebido informações privilegiadas ou de que estaria “foragido”. Lucas Kallas reside legalmente nos Estados Unidos com sua família há aproximadamente três anos, muito antes dos fatos citados. De lá, conduz a expansão internacional dos negócios, com viagens regulares de prospecção — apenas no ano passado, visitou mais de 17 países.
Veja a nota enviada pela Cedro Participações
Nota de Esclarecimento – Assessoria de Imprensa da Cedro Participações
A Cedro Participações lamenta que diálogos especulativos de terceiros sejam tratados como fatos. Daniel Vorcaro jamais teve relação societária com a Cedro. A suposta “sociedade no hospital” nunca existiu: a Cedro era apenas a proprietária e locadora do imóvel.
Investimentos comuns em companhias de capital aberto (como ocorreu na Biomm e na Latache) não configuram sociedade, assim como ocorre com diversos outros acionistas de mercado, como o BNDES e o BDMG.
Sobre o Instituto Iter, a cronologia afasta qualquer ilação: o contrato ocorreu 19 meses antes da prisão de Vorcaro. Além disso, a decisão do Iter de devolver o dinheiro à Cedro ocorreu em janeiro de 2026, antes mesmo de o ministro André Mendonça ser sorteado relator do caso Master no STF (fevereiro de 2026).
Veja a nota enviada pelo Instituto Iter
NOTA OFICIAL
Em abril de 2024, o Instituto Iter celebrou contrato de mútuo conversível com a Cedro Participações S.A., instrumento previsto no Marco Legal das Startups (Lei Complementar nº 182/2021). A operação está integralmente registrada no balanço do Instituto e declarada aos órgãos competentes desde o primeiro demonstrativo financeiro, com os tributos recolhidos. Não envolveu recursos, incentivos ou subvenções públicas.
O Instituto esclarece, de forma inequívoca, que nenhum valor decorrente do mútuo foi destinado ao patrimônio pessoal de sócios ou administradores. A totalidade dos recursos foi depositada diretamente em conta da pessoa jurídica do Instituto Iter e aplicada, por obrigação contratual e sob acompanhamento contábil, exclusivamente na estruturação e nas atividades da entidade, com registro da respectiva destinação, sem qualquer utilização para finalidade diversa da contratualmente estabelecida.
Os aportes foram realizados em parcelas. Desde o final de 2025 não houve novos repasses de recursos ao Iter, uma vez que o Instituto já se encontrava em situação de sustentabilidade financeira.
Foi assinado, em decorrência, termo aditivo ao mútuo que estabeleceu o vencimento antecipado da dívida, com início imediato do pagamento dos valores devidos pelo Instituto e juros correspondentes à taxa Selic. Até o momento, já foram pagos cerca de 5,3% do total da dívida.
Desde sua constituição, o Instituto jamais distribuiu a seus acionistas qualquer valor a título de lucro, dividendo ou participação nos resultados. Na qualidade de sociedade anônima, está legalmente obrigado a manter escrituração contábil regular, nos termos da Lei das Sociedades por Ações, de modo que tanto esse fato quanto a integral aplicação dos recursos do mútuo na própria entidade encontram-se devidamente escriturados e são verificáveis pelos registros contábeis e fiscais da entidade.
As tratativas foram conduzidas pela direção executiva do Instituto, com assessoria jurídica externa. Pelo lado da Cedro Participações, a negociação se deu com seu Diretor Jurídico e com seu Diretor de Investimentos. Nem o senhor Lucas Prado Kallas nem o ministro André Mendonça participaram das tratativas sobre o aporte: não discutiram valores ou condições contratuais, não negociaram e não assinaram o instrumento.
Esclarece-se, ainda, que o ministro André Mendonça não integra o quadro societário do Instituto Iter. Conforme havia anunciado publicamente, qualquer resultado concernente à sua quota seria destinado a obras sociais e educacionais. Enquanto dele fez parte, jamais recebeu dividendos, distribuição de lucros ou participação nos resultados, e sua atuação no Instituto sempre se restringiu ao âmbito acadêmico, como docente.
À época da celebração do contrato, o senhor Lucas Prado Kallas, sócio da Cedro Participações S.A., integrava o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República. Nada, naquele momento, desabonava a empresa ou seus sócios, nem recomendava óbice à contratação. Fatos supervenientes ao contrato, não afetam a licitude nem a normalidade do mútuo então celebrado, cuja validade se afere pelos seus próprios termos e pela legislação vigente à data de sua celebração.
O Banco Master e senhor Daniel Vorcaro jamais tiveram qualquer relação com o Instituto.
INSTITUTO ITER
Lucas Kallas, que financiou instituto de Mendonça, é citado em suposto vazamento de ação da PF contra pai e irmã de Vorcaro
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