Fechamento da Embaixada dos EUA: Lula fala em “gesto anômalo” e intervenção de Trump nas eleições

Fechamento da Embaixada dos EUA: Lula fala em “gesto anômalo” e intervenção de Trump nas eleições
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Evaristo Sá/AFP

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta sexta-feira (2) para que o fechamento da embaixada e a suspensão dos serviços consulares dos Estados Unidos no Brasil seja incorporada à investigação sobre uma possível interferência externa nas eleições brasileiras. Na petição, os advogados classificam a medida adotada pelo governo Donald Trump, a dois dias do primeiro turno, como um “gesto diplomático anômalo” capaz de projetar instabilidade sobre o processo eleitoral.
O documento foi encaminhado ao corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Sebastião Reis Júnior, e pede que os novos fatos e documentos sejam incluídos na investigação já em andamento, sem alteração de seu objeto. A campanha relaciona o episódio à atuação do governo Trump e afirma que há indícios de articulação dos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro com autoridades dos Estados Unidos.
“Gesto diplomático anômalo”
Os Estados Unidos suspenderam nesta sexta-feira (2) o atendimento presencial na Embaixada em Brasília e nos consulados instalados no país, alegando “questões de segurança”. Não foi informada uma data para retomada dos serviços.
Para a campanha de Lula, o momento escolhido para a medida é um dos elementos que precisam ser investigados. A petição afirma que “um gesto diplomático anômalo dessa magnitude, deflagrado por Estado estrangeiro no exato interregno eleitoral” projeta instabilidade sobre o ambiente do pleito.
A ordem para a suspensão, segundo os advogados, teria partido diretamente do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, um dos principais nomes do governo Trump e personagem recorrente nas tensões recentes entre Washington e Brasília.
A campanha sustenta que os acontecimentos constituem “mais um desdobramento gravíssimo da interferência nas eleições brasileiras pelo governo norte-americano, articulada, ao que tudo indica, diretamente pelos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro”.
Flávio e Eduardo Bolsonaro entram na petição
Os advogados também citam a proximidade política entre Marco Rubio e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A petição menciona reportagem sobre a intenção do candidato de promover, caso eleito, mudanças no Itamaraty inspiradas na política externa adotada pelo governo Trump.
Eduardo Bolsonaro também aparece na argumentação como interlocutor do grupo político nos Estados Unidos. Para a campanha petista, a sucessão de episódios envolvendo integrantes da família Bolsonaro e representantes do governo estadunidense precisa ser considerada no conjunto da investigação sobre eventual interferência estrangeira.
A petição ainda incorpora uma carta enviada pelos senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch a Marco Rubio. No documento, os parlamentares cobram que o governo Trump reconheça o resultado oficialmente certificado das eleições brasileiras.
Sisbin emitiu alerta sobre operação psicológica
A nova manifestação da campanha ocorre no mesmo momento em que os órgãos de inteligência brasileiros acompanham os possíveis efeitos do fechamento das representações diplomáticas sobre o ambiente eleitoral.
Como revelou a Fórum em reportagem exclusiva, informes encaminhados ao Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) alertaram para uma possível operação psicológica destinada a criar um clima de tensão e medo no país na reta final da eleição.
Segundo a apuração da Fórum, setores da inteligência avaliam que a suspensão dos serviços diplomáticos poderia ser explorada para transmitir a sensação de insegurança e instabilidade às vésperas da votação. Os informes também analisam a hipótese de uma ação destinada a influenciar o comportamento do eleitorado.
A Polícia Federal, por sua vez, realizou uma operação para apurar potenciais ameaças contra representações diplomáticas americanas. Foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão, um em São Paulo e outro no entorno do Distrito Federal.
Segundo a corporação, a investigação não encontrou, até aquele momento, elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados. Equipamentos de comunicação e mídias foram apreendidos e permanecem em análise.
“Jogo de intimidação”
O fechamento das representações dos EUA foi seguido por medida semelhante da Austrália, que também suspendeu as atividades de sua Embaixada em Brasília alegando preocupações de segurança.
Em análise à Fórum, a cientista política e especialista em relações internacionais Ana Prestes classificou a movimentação como um “jogo de intimidação” destinado a criar um “clima de tensão” às vésperas das eleições.
Para Prestes, a ausência de informações públicas capazes de demonstrar uma ameaça de grandes proporções torna o episódio politicamente relevante. Na avaliação da analista, a movimentação guarda características da atuação de Marco Rubio e pode produzir uma percepção de instabilidade justamente nos últimos dias da campanha.
Oficialmente, porém, Washington afirma que a suspensão está relacionada exclusivamente a preocupações de segurança. Até o momento, o governo estadunidense não apresentou publicamente detalhes sobre a origem, a natureza ou a dimensão das ameaças mencionadas.
Caberá agora ao TSE decidir se o fechamento das representações diplomáticas, a carta dos senadores americanos e os demais documentos apresentados pela campanha serão incorporados à investigação sobre uma eventual interferência estrangeira nas eleições brasileiras.

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