A Polícia Federal (PF) encontrou indícios de que Flávio Bolsonaro (PL) pode ter mantido uma participação econômica ou societária de fato em uma offshore ligada à propriedade de um jatinho que tinha entre seus cotistas uma empresa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
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Segundo reportagem de Malu Gaspar, Yago Godoy e Johanns Eller, publicada nesta quarta-feira (14) em O Globo, documentos obtidos pela PF mostram que Flávio figurava como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, que detinha 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., proprietária do jatinho Embraer Legacy 650, de matrícula PP-NLR.
O relatório foi produzido a partir de documentos extraídos do iCloud do advogado Willer Tomaz, investigado no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura fraudes bilionárias em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A revelação amplia o alcance das informações divulgadas anteriormente pela Fórum, que mostrou que Flávio Bolsonaro aparecia vinculado a uma conta bancária do advogado Willer Tomaz, suspeito de envolvimento em operações de lavagem de dinheiro relacionadas ao escândalo do INSS.
Agora, os investigadores apontam que a conta estava vinculada justamente à offshore que participava da propriedade do avião utilizado pelo senador em janeiro de 2025, quando Vorcaro também integrava a estrutura societária da aeronave, por meio da Prime You.
A suspeita da PF é que a relação de Flávio com a empresa possa ir além da condição de passageiro convidado do advogado, versão apresentada pelo candidato do PL quando as viagens vieram a público.
Usuário master e suspeita de sociedade oculta
O principal elemento da investigação está na documentação bancária da Alcazar Holdings, empresa que tinha Willer Tomaz como único sócio formal.
De acordo com o relatório da PF, Flávio Bolsonaro aparecia na documentação de abertura da conta mantida no Santander com perfil de “usuário master”, modalidade que permite um nível elevado de acesso e gerenciamento das operações bancárias.
Para os investigadores, esse registro levanta a hipótese de que o senador pudesse exercer algum tipo de participação econômica ou societária de fato na offshore, mesmo sem aparecer formalmente em seu quadro societário.
Um e-mail enviado em 22 de maio de 2025 por Fayla Menezes, secretária de Willer Tomaz, a gestores do Santander, solicitava a inclusão de um novo usuário master e a retirada de contas vinculadas ao cadastro.
Entre os nomes relacionados estavam Flávio Bolsonaro e uma conta pessoal de Willer Tomaz.
Na resposta, enviada às 10h21 do mesmo dia, o banco informou que as contas haviam sido excluídas do contrato, conforme solicitado.
O registro é considerado relevante porque indica que o nome de Flávio permaneceu associado à estrutura bancária até maio de 2025, quatro meses depois de o senador utilizar o jatinho pertencente à sociedade da qual a Alcazar participava.
O documento, por si só, não demonstra que Flávio tenha movimentado recursos da conta, recebido dividendos ou adquirido participação na empresa. São justamente essas possibilidades que a investigação busca esclarecer.
Offshore tinha um terço do jatinho ligado a Vorcaro
A Alcazar Holdings detinha 33,33% da Fraction 024, sociedade proprietária do Embraer Legacy 650, prefixo PP-NLR, utilizado por Flávio Bolsonaro em uma viagem entre Brasília e Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, em janeiro de 2025.
A aeronave tinha sua propriedade dividida em três cotas. Além da offshore ligada a Willer Tomaz, participavam da estrutura societária o empresário Laércio Cosentino, fundador da Totvs, e a Prime You, empresa da qual Daniel Vorcaro foi sócio até setembro de 2025.
Segundo informações divulgadas anteriormente pela revista piauí, documentos da PF apontavam que cada participação de 33,33% no avião estava avaliada em aproximadamente US$ 5,5 milhões em maio de 2025.
A nova informação sobre o acesso bancário de Flávio à offshore acrescenta uma dimensão patrimonial à investigação.
Quando a viagem veio a público, o candidato do PL afirmou que havia utilizado a aeronave a convite de Willer Tomaz, com quem mantém uma relação de amizade.
O advogado também declarou que desconhecia a participação de Vorcaro na Prime You e sustentou que o voo havia sido custeado com as horas correspondentes à sua própria cota no avião.
A documentação bancária, no entanto, levou os investigadores a examinar se a relação de Flávio com a Alcazar se limitava à amizade com seu proprietário formal ou se havia algum interesse econômico do senador na empresa.
Viagens internacionais, familiares e outra offshore
A PF também identificou registros de viagens internacionais envolvendo Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e familiares dos dois ao longo de 2025.
Em março, os dois participaram de um safári na África do Sul, acompanhados do senador Weverton Rocha (PDT-MA), também citado nas apurações relacionadas ao caso do INSS.
Os documentos mostram ainda que outra empresa, a Cathedral Holding, teria sido utilizada como intermediária na aquisição de passagens aéreas para deslocamentos do advogado com Flávio e integrantes da família do senador.
Há registros de uma viagem entre Lisboa, em Portugal, e Nice, na França, em 11 de abril de 2025, com os dois e suas respectivas esposas.
Outra reserva, para 23 de maio, previa um voo entre Cascais, em Portugal, e Nice, com Flávio, sua mulher, Fernanda Bolsonaro, as filhas do casal, Willer Tomaz e outros familiares e passageiros. O destino final previsto seria Mônaco, próximo à cidade francesa.
Os investigadores analisam os registros para esclarecer quem efetivamente custeou os deslocamentos e se houve algum benefício econômico associado às empresas envolvidas.
Willer Tomaz afirma que as viagens eram de lazer e que os convidados não realizaram pagamentos nem ofereceram contrapartidas.
Conversas por aplicativo com mensagens que desaparecem
Outro elemento encontrado pela Polícia Federal foi a utilização do aplicativo Confide nas comunicações entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro.
O serviço oferece criptografia e recursos que permitem o desaparecimento automático de mensagens, além de mecanismos para dificultar a captura de telas.
Segundo o relatório, o número de Flávio aparecia entre os contatos favoritos do advogado.
A utilização do aplicativo não constitui irregularidade por si só, mas integra o conjunto de informações analisadas pela PF para reconstruir a relação entre o senador e o empresário.
A relação com o Banco Master
A nova revelação se soma a outras investigações envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, especialmente as negociações para o financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Relatórios da Polícia Federal divulgados em setembro apontaram que Flávio atuou diretamente nas tratativas com Vorcaro para obter recursos destinados à produção.
Segundo os investigadores, o senador manteve conversas com o banqueiro, participou de reuniões presenciais e realizou cobranças relacionadas ao andamento dos pagamentos.
A PF também investiga o destino dos recursos vinculados ao projeto e a possibilidade de que parte do dinheiro tenha sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Essas apurações são distintas da investigação sobre a conta bancária da Alcazar Holdings. Até o momento, os documentos divulgados não demonstram que os recursos relacionados ao filme tenham transitado pela offshore ou pela conta em que Flávio aparecia como usuário master.
A coincidência de personagens e estruturas empresariais, entretanto, coloca sob investigação diferentes aspectos das relações financeiras entre o senador, Willer Tomaz e empresas associadas ao antigo controlador do Banco Master.
Flávio e Willer negam vínculo financeiro
A assessoria de Flávio Bolsonaro contesta as conclusões extraídas dos documentos e afirma que o senador nunca manteve conta bancária em conjunto com Willer Tomaz ou empresas do advogado.
Segundo a defesa, o e-mail enviado ao Santander demonstraria justamente a existência de uma vinculação indevida, posteriormente corrigida com a exclusão do cadastro.
A assessoria também rejeita a existência de qualquer participação econômica ou societária de Flávio na Alcazar Holdings e questiona a divulgação das informações durante o período eleitoral.
Willer Tomaz sustenta que mantém apenas uma relação de amizade com o senador e nega qualquer vínculo financeiro ou societário entre ambos.
O advogado afirma que as viagens foram realizadas sem pagamento ou contrapartida dos convidados e classifica a divulgação dos documentos como vazamento criminoso.
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