O grupo extremista investigado por planejar ataques durante as eleições deste ano não tinha apenas prédios e autoridades entre seus possíveis alvos. Nas comunidades mantidas no Telegram, os integrantes disseminavam discursos de ódio dirigidos especialmente a mulheres que ocupam posições de autoridade.
O componente misógino aparece como um dos principais elementos da investigação que levou à Operação Rede Interrompida, deflagrada nesta terça-feira (4) pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Como mostrou a Fórum em reportagem publicada nesta terça, a operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Os investigados têm entre 19 e 31 anos e são suspeitos de integrar uma rede que discutia ataques em Brasília durante o período eleitoral. Um dos locais mencionados nas conversas seria o prédio escolhido para a realização de um debate entre candidatos à presidência da República.
Ódio contra mulheres e neonazismo
Segundo o Ministério da Justiça, o grupo usava o ambiente virtual para recrutar integrantes de diferentes estados, divulgar conteúdos extremistas e compartilhar materiais relacionados à produção de artefatos explosivos.
“O grupo utilizava o ambiente virtual para compartilhar manuais de fabricação de artefatos explosivos, discutir estratégias de recrutamento e disseminar discursos de ódio direcionados, entre outros grupos, às mulheres em posições de autoridade”, informou a pasta.
As mensagens também incluíam conteúdos neonazistas, antissemitas e misóginos. A investigação tenta determinar se mulheres específicas foram mencionadas como possíveis alvos ou se, nesta etapa, o material encontrado se restringia à propagação de ódio contra aquelas que ocupam espaços de comando e representação política.
Até a publicação desta matéria, as autoridades não haviam divulgado os nomes de eventuais autoridades ameaçadas nem identificado qual debate presidencial ou edifício teria sido escolhido pelo grupo.
O conteúdo investigado surge em um contexto de avanço da violência política de gênero. As mulheres representam 52% do eleitorado brasileiro, mas corresponderam a apenas 18% das pessoas eleitas nas eleições municipais de 2024. O grupo do Ministério Público Eleitoral dedicado ao tema já acompanhava mais de 300 casos relacionados à violência política contra mulheres, com cerca de 50 denúncias apresentadas à Justiça até novembro de 2025.
Debate presidencial aparecia entre os possíveis alvos
As conversas monitoradas faziam referências frequentes a Brasília como destino de uma mobilização durante as eleições. Os investigados discutiam formação tática, invasões ou ocupações de edifícios, escolha de alvos e recrutamento de participantes em diferentes estados.
Entre os materiais analisados estavam mapas, plantas arquitetônicas e modelos tridimensionais de prédios situados na região central da capital federal. De acordo com a investigação, o grupo estudava a possibilidade de instalar explosivos no local onde seria realizado um debate presidencial.
A polícia ainda busca esclarecer até que ponto essas discussões haviam ultrapassado o ambiente virtual e se transformado em preparativos concretos. A identificação de plantas, modelos de edifícios e materiais relacionados a explosivos, porém, levou os investigadores a pedir medidas judiciais para apreender equipamentos e preservar provas digitais.
O fato de um debate presidencial figurar entre os possíveis alvos coloca a ameaça diretamente no centro do processo eleitoral. Além dos candidatos, esses eventos mobilizam jornalistas, trabalhadores das emissoras, equipes técnicas, assessores, agentes de segurança e integrantes do público.
Nenhuma emissora, data ou local de debate foi oficialmente associado ao plano investigado. A CNN, que revelou que um debate presidencial estava entre os alvos, informou apenas que o grupo pretendia colocar explosivos no prédio onde o evento seria realizado.
Rede recrutava integrantes em cinco estados
A investigação começou após o Ciberlab, laboratório ligado à Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, produzir um relatório técnico e encaminhá-lo à Polícia Civil do Distrito Federal.
A partir desse documento, a Divisão de Prevenção e Combate ao Extremismo Violento (DPCev), vinculada ao Departamento de Inteligência da PCDF, passou a acompanhar as comunicações e a identificar os participantes, os materiais compartilhados e os possíveis alvos.
O cumprimento simultâneo de mandados em cinco estados reforça a suspeita de que o grupo funcionava como uma rede interestadual, articulada principalmente pelo Telegram. As diligências tiveram o apoio das polícias civis de São Paulo, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Os equipamentos eletrônicos apreendidos serão submetidos a perícia. Os investigadores pretendem recuperar conversas, identificar outros participantes e determinar o grau de envolvimento de cada um dos oito investigados.
O inquérito apura, em tese, os crimes de associação criminosa, incitação ao crime, apologia de crime ou criminoso e delitos previstos na legislação antirracismo.
Até o momento, os fatos não foram enquadrados na Lei de Terrorismo. Segundo a PCDF, uma eventual mudança na classificação jurídica dependerá do conteúdo encontrado nos dispositivos apreendidos e das conclusões do inquérito.
A investigação também deverá esclarecer se havia uma estrutura de comando, recursos disponíveis para executar os planos e conexões entre o grupo virtual e outras organizações extremistas. Mais do que mapear discursos de ódio, a operação busca determinar quando a radicalização digital começou a se transformar em planejamento de violência contra o processo eleitoral e contra pessoas que ocupam posições de poder.
Grupo que planejava atentado em Brasília mirava debate presidencial e compartilhava conteúdo neonazista
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