Áreas de milícia no Rio concentram aproximadamente 89% da vantagem eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na capital fluminense no primeiro turno das eleições de 2026. Nos locais de votação situados em territórios sob controle ou influência de milícias, o filho de Jair Bolsonaro abriu uma diferença de cerca de 122 mil votos. Em toda a cidade, sua vantagem foi de aproximadamente 137 mil.
O percentual resulta da comparação dos números divulgados pelo Metrópoles neste domingo (11), em levantamento assinado por Mateus Salomão e Bruna Lima. O estudo cruzou resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o mapeamento territorial das milícias realizado pelo Instituto Fogo Cruzado e pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Dos 311 locais de votação analisados, Flávio venceu em 268, o equivalente a 86,2%. Lula ficou à frente em apenas 43. Nas escolas identificadas, o candidato do PL recebeu mais de 440 mil votos, enquanto o petista somou aproximadamente 318 mil.
A diferença de 122 mil votos representa quase nove décimos da vantagem registrada por Flávio em toda a capital. Fora dos locais mapeados, a diferença líquida entre os candidatos ficou próxima de 15 mil votos. Os valores são aproximados, considerando os totais arredondados divulgados no levantamento.
O resultado ganha outra dimensão diante das medidas adotadas pela Justiça Eleitoral para impedir a interferência de organizações criminosas no processo de votação. Em 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) precisou transferir dezenas de locais de votação por causa da presença de milícias e facções.
Áreas de milícia no Rio: TRE retirou locais de votação de territórios criminosos
Segundo documentos oficiais do TRE-RJ, 72 locais de votação foram transferidos por motivos de segurança em 20 municípios fluminenses, afetando aproximadamente 202 mil eleitores.
As mudanças foram determinadas após análises do Grupo de Trabalho Unificado de Defesa da Integridade Eleitoral, formado pela Justiça Eleitoral e setores de inteligência das forças de segurança. O objetivo era retirar urnas de pontos dominados pelo crime organizado e classificados como de alto risco.
Os novos locais deveriam ficar fora de territórios controlados pelo tráfico ou por milícias, preservando a proximidade com as escolas anteriores. A decisão do tribunal foi motivada pelo risco de pressões e ameaças contra eleitores e profissionais envolvidos na votação.
As transferências também alteram a distribuição territorial dos votos. Moradores de regiões dominadas por organizações criminosas podem ter votado em escolas situadas fora dessas áreas. Não há informação sobre quantos dos 311 locais considerados no levantamento foram afetados pelas mudanças.
Flávio Bolsonaro e o histórico com milicianos
A votação ocorre após novas revelações sobre relações mantidas pelo entorno político de Flávio Bolsonaro com personagens das milícias fluminenses. Em setembro, a revista piauí revelou mensagens recuperadas pela Polícia Federal envolvendo Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, e uma assessora do senador.
Peixe, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por integrar a organização criminosa armada envolvida no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, negociou em 2023 a destinação de recursos públicos para um projeto esportivo na Taquara, na Zona Oeste do Rio.
As conversas ocorreram com Maria de Fátima Bezerra Castro, integrante do gabinete de Flávio. Em uma mensagem, o miliciano pediu ajuda de “nosso senador”. Posteriormente, o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) recebeu R$ 199.999,79 por meio de emenda parlamentar apresentada pelo candidato do PL.
A Polícia Federal identificou indícios de desvio dos recursos. Flávio afirmou que a destinação da emenda seguiu a legislação e os critérios técnicos do Ministério do Esporte. A entidade beneficiária contestou os apontamentos de irregularidades.
O episódio se soma a outros antecedentes da trajetória do senador, retomados em reportagem sobre suas relações históricas com personagens das milícias.
Quando deputado estadual, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes ao ex-policial Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado pelo Ministério Público como liderança do Escritório do Crime. A mãe e a então esposa de Adriano também trabalharam no gabinete do parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Durante a campanha de 2026, Flávio afirmou que homenageou Adriano por sua atuação no Bope e contestou as acusações feitas contra o ex-policial à época da condecoração.
Milícias dominam extensa área do Rio
O Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo Instituto Fogo Cruzado e pelo GENI-UFF, identificou quase quatro milhões de moradores vivendo sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio em 2024.
As milícias respondiam por 49,4% da extensão territorial sob domínio ou influência de organizações armadas, aproximadamente 201 quilômetros quadrados. Entre 2007 e 2024, a área efetivamente controlada por milicianos cresceu 315%, embora esses grupos tenham perdido parte de seus territórios nos últimos anos para facções como o Comando Vermelho.
O predomínio eleitoral do bolsonarismo nessas regiões tem antecedentes. Em 2022, Jair Bolsonaro venceu em nove das dez zonas eleitorais analisadas em bairros com predominância de milícias, segundo levantamento publicado pelo Metrópoles.
Naquela eleição, o então presidente recebeu quase 500 mil votos nos territórios examinados, contra aproximadamente 323 mil de Lula. O petista ficou à frente apenas em Rio das Pedras. Campo Grande e Paciência registraram os maiores índices de votação de Jair Bolsonaro dentro do recorte analisado.
Áreas de milícia no Rio concentram 89% da vantagem de Flávio sobre Lula
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